Uma cidade sustentável, com 12 milhões de habitantes. É possível?

Uma cidade sustentável, com 12 milhões de habitantes. É possível?

Provavelmente não, mas dá para melhorar bastante, diz o especialista Alex Abiko, da Escola Politécnica da USP. Ele será um dos palestrantes do próximo USP Talks, sobre Desafios Urbanos

Herton Escobar

22 Setembro 2017 | 15h00

São Paulo: 12 milhões de habitantes. Foto: Agliberto Lima/Estadão

São Paulo pode ser uma cidade sustentável? “Ela pode e deve ser uma cidade mais sustentável do que é atualmente, mas não diria que um dia ela será de fato sustentável”, diz o engenheiro Alex Abiko, professor titular em Gestão Urbana e Habitacional da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), que será um dos palestrantes do próximo USP Talks, sobre Desafios Urbanos, na próxima quarta-feira (27), das 18h30 às 19h30.

Com 12 milhões de habitantes, a capital paulista consome uma quantidades enorme de recursos naturais — água, energia, alimentos — e produz uma quantidade igualmente enorme de resíduos; ao mesmo tempo que precisa fornecer transporte, segurança, saúde, educação e tantos outros serviços essenciais à sua população. “Os principais desafios das cidades dos países em desenvolvimento estão na sua capacidade de articular as várias políticas públicas necessárias para garantir a melhoria da qualidade de vida de sua população com uma agenda de necessidades que é ampla”, avalia Abiko.

O USP Talks é uma iniciativa da Universidade de São Paulo, em parceria com o Estadão e apoio da Faculdade Cásper Líbero. Veja os detalhes do evento aqui: https://goo.gl/sncTr7; e assista às palestras anteriores do USP Talks aqui: https://goo.gl/WDpymV. A outra palestrante do evento será a urbanista Raquel Rolnik, da FAU-USP.


Abaixo, a íntegra da entrevista concedida pelo professor Abiko ao USP Talks:

O senhor tem trabalhado muito com o conceito de “cidade sustentável”. O que isso significa exatamente?

Cidade sustentável é um conceito já bem aceito por todos e significa uma particular situação das cidades incluindo aspectos ambientais, sociais e econômicos em que as necessidades do presente são satisfeitas sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades. Os aspectos ambientais, sociais e econômicos interagem, são interdependentes e muitas vezes referidos como as três dimensões da sustentabilidade. Este conceito é derivado do Relatório Brundland, publicado em 1987 — ou seja, estamos completando 30 anos deste documento intitulado Nosso Futuro Comum, que revolucionou a nossa percepção em relação ao planeta em que vivemos.

São Paulo pode ser uma cidade sustentável? Quais são os principais desafios que a cidade enfrenta nesse sentido?

São Paulo pode e deve ser uma cidade mais sustentável do que é atualmente, mas não diria que um dia ela será de fato sustentável, pois as grandes cidades irão buscar sempre fora de seus limites territoriais a água, a energia, os alimentos e outros materiais de que necessita, impactando o ambiente a sua volta. Além disso ela constantemente está produzindo resíduos, poluição, gases de efeito estufa que também impactam este mesmo ambiente. Tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em que a população urbana cresce constantemente, pois a cidade tem um grande poder de atração, conseguindo mesmo precariamente oferecer condições de saúde, educação e trabalho. Os principais desafios das cidades dos países em desenvolvimento estão na sua capacidade de articular as várias políticas públicas necessárias para garantir a melhoria da qualidade de vida de sua população com uma agenda de necessidades que é ampla, envolvendo desde aspectos de habitação, mobilidade, emprego, segurança, saúde, saneamento e muitos outros aspectos.

É factível esperar que uma cidade do tamanho de São Paulo, com 12 milhões de pessoas, seja capaz de oferecer qualidade de vida a todos os seus habitantes? Isso, sem falar na região metropolitana, que é muito maior … Como gerenciar tudo isso?

Eu particularmente sou otimista e acho que sim, mas não acho que essa tarefa seja simples. Seria necessário mobilizar a sociedade para a construção de uma cidade mais justa e inclusiva, com uma maior participação da população, dos atores sociais, empresas, e particularmente com uma maior contribuição do conhecimento gerado e acumulado pela universidades e centros de pesquisa. Temos ainda hoje dificuldades para transferir os nossos conhecimentos de maneira orgânica e em uma linguagem que possa ser acessada por todos que deles necessitam. E se pensarmos nas regiões metropolitanas, que representam um contínuo territorial das cidades, os problemas se avolumam, pois só a Grande São Paulo tem hoje mais de 20 milhões de habitantes, que moram em 39 municípios, que não se articulam nem possuem um planejamento sistêmico. Nesta frente os desafios são enormes, pois não temos no país ainda uma instância político-institucional que possa dar conta de tamanha concentração populacional.

Outro conceito que está “na moda” atualmente é o das “cidades inteligentes”, que busca intensificar o uso de dados e de tecnologias digitais na gestão dos serviços e dos espaços urbanos. O que o senhor pensa sobre isso?

Realmente o conceito de cidades inteligentes está na moda, e no Brasil estamos no início do entendimento deste tipo de contribuição para a solução de nossos problemas urbanos. Temos visto muitas tecnologias digitais sendo empregadas com sucesso nas cidades de países desenvolvidos e que estão sendo introduzidas aqui. Meus colegas engenheiros têm procurado desenvolver essas tecnologias com o melhor dos seus conhecimentos e com a melhor de suas intenções. Caberia, no entanto procurar sempre parametrizar esses desenvolvimentos com as reais necessidades de nossas cidades e com as suas possibilidades financeiras e capacidades de gestão, operação e manutenção desses sistemas digitais. Isso resolvido, teremos uma ferramenta valiosa que poderá melhorar a qualidade de vida de nossas cidades.

O senhor é paulistano? Gosta de São Paulo? Se pudesse, qual seria a primeira coisa que mudaria na cidade? E o que não mudaria de jeito nenhum?

Sou paulistano da Santa Cecília; já morei na região do Mercado, em Pinheiros, e agora moro em Santo Amaro e trabalho na Cidade Universitária. Vivenciei as várias transformações que ocorreram na cidade e, para ser sincero, tenho saudades de inúmeras esquinas que já não existem mais. Porém, se o passado para nós é uma boa lembrança, temos que viver o presente e construir da melhor forma o nosso futuro urbano. Gosto muito desta cidade e acredito que teria dificuldade em morar em alguma outra cidade brasileira, pois aqui encontro tudo o que preciso e estou acostumado a precisar. Mas também tenho críticas a fazer quando notamos alguns mobiliários urbanos depredados, patrimônios públicos apropriados de maneira privada, o desrespeito ao espaço público. Agora, o que não mudaria de jeito nenhum é o conjunto das pessoas que fazem desta cidade este território vibrante, especial, cosmopolita, energético, que sabe o quanto é difícil conviver, mas com um particular compromisso de viver.

Alex Abiko. Foto: Zé Carlos Barretta/Divulgação FDTE