Universidades brasileiras, em busca da excelência (Parte 1)

Universidades brasileiras, em busca da excelência (Parte 1)

Herton Escobar

14 Outubro 2013 | 15h00

FOTO: Estruturas de proteínas projetadas na “caverna digital” do Laboratório de Sistemas Integráveis da Poli-USP. Crédito: Evelson de Freitas/Estadão (2004)

Falta de internacionalização mantém universidades brasileiras longe da elite mundial

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Promover a internacionalização, valorizar o mérito, flexibilizar as regras e reduzir a burocracia. Essa é a receita básica que as universidades brasileiras precisam seguir se quiserem ficar mais parecidas com Harvard, Oxford, Stanford e outras instituições de ensino e pesquisa que aparecem no topo dos rankings internacionais, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

A falta de interatividade com o resto do mundo é apontada como um dos pontos mais fracos das instituições brasileiras, que reduz sua visibilidade e competitividade no cenário internacional.

“Se eu pudesse singularizar um item que precisa ser incentivado, é a internacionalização”, diz o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva. “É isso que vai trazer no seu bojo todo o resto.”

É comum universidades americanas e europeias ganharem prêmios Nobel com pesquisadores que foram recrutados de outros países ou outras instituições – que muitas vezes competem entre si para contratar os melhores cientistas, como times de futebol que brigam pela contratação de um craque. Quem recebe a láurea é o pesquisador, individualmente, não a universidade, mas o mérito se estende para as instituições. O Prêmio Nobel de Química deste ano é um bom exemplo: os três laureados são pesquisadores de universidades norte-americanas (Harvard, Stanford e Califórnia do Sul) que nasceram em outros países e passaram por outras instituições ao longo de sua carreira acadêmica.

Na academia brasileira, esse trânsito de cérebros entre instituições praticamente não existe. A barreira linguística e as regras do funcionalismo público tornam muito difícil atrair professores estrangeiros, ou até mesmo recrutar professores brasileiros de outras universidades. Mesmo um ganhador do Nobel, se quisesse se mudar para o País e virar professor da USP, por exemplo, teria de prestar concurso público em português e passar por um complicado processo de contratação, além de aceitar ganhar um salário igual ao de todos os outros.

“No Brasil, resolveu-se que um professor universitário deve ser tratado como um funcionário público qualquer. Nenhum país com universidades de ponta faz isso”, diz o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “As limitações são muitas. Mesmo quando temos uma bolsa para trazer alguém como professor visitante, é difícil”, diz o pró-reitor de Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Comissão Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Conaes), Robert Verhine.

Segundo os especialistas, é preciso flexibilizar as regras e abrir as portas das universidades para estrangeiros – não obrigando-os a falar português, mas fomentando o uso do inglês entre os brasileiros, seja na sala de aula, nos laboratórios, ou nas chamadas de projetos e contratações.

“A língua é uma questão chave. As universidades asiáticas que estão em ascensão adotaram o inglês tanto para o ensino quanto para a pesquisa. É a língua universal de comunicação acadêmica, indispensável para universidades com uma visão global que queiram participar desse diálogo”, disse ao Estado Phil Baty, editor responsável pela formulação do ranking de melhores universidades do mundo do Times Higher Education (THE). (Leia a íntegra da entrevista abaixo)

Essa, segundo ele, é uma das principais razões para o Brasil não ter nenhuma universidade entre as 200 melhores no ranking deste ano. A USP, que estava na posição 158 em 2012 caiu para o bloco de 226 a 250.

Especialistas brasileiros questionam a metodologia do ranking, mas concordam que as universidades brasileiras ainda precisam avançar muito para estar entre as melhores do mundo.

“A universidade é um ambiente onde a diversidade é fundamental. Melhora a formação dos alunos, melhora a qualidade das pesquisas, melhora tudo”, diz o físico Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), única outra instituição brasileira que aparece nas listas do THE. No ranking geral, ela aparece entre as posições 301 e 350. No ranking das melhores universidades do mundo com menos de 50 anos, está em 28º.

Knobel, assim como os outros entrevistados, chama atenção para o fato de que as universidades brasileiras ainda são muito jovens (a USP, por exemplo, é de 1934, e a Unicamp, de 1966), e que isso, também, é uma diferença importante na comparação com as universidades mais tradicionais dos EUA e da Europa, que têm mais de um século de existência. “Começamos tarde e estamos avançando a passos largos”, avalia. “As coisas estão acontecendo.”

Burocracia. Além da questão linguística, a internacionalização terá de passar também, obrigatoriamente, pela solução de uma série de mazelas “domésticas” que os cientistas brasileiros enfrentam diariamente. Em especial, a burocracia — legal e institucional — e a morosidade do sistema público como um todo. Tudo é complicado. Tudo é demorado.

Além de aprender a língua local, um pesquisador estrangeiro que viesse trabalhar numa universidade brasileira teria de se acostumar, por exemplo, a preencher dezenas de formulários, pedir autorização para tudo, fazer licitações e esperar até seis meses para importar insumos básicos de laboratório que, nos Estados Unidos ou na Europa, são comprados facilmente via internet e levam poucos dias para chegar.

“Nossa burocracia é muito burra; ela emperra tudo. Não tem como ser competitivo desse jeito”, diz o médico Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto Butantan. “Precisamos ser mais ágeis em tudo.”

“O ponto mais crítico é a inflexibilidade das universidades públicas”, avalia Verhine. “As universidades são vistas como uma repartição pública, cheias de regras inflexíveis para uso de recursos, contratações, demissões, etc. Deixamos de fazer muita coisa por conta disso.”

“As estaduais paulistas têm alguma autonomia; nas federais, não temos autonomia de nada”, diz a pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader. “O Estado brasileiro não tem ciência da importância da universidade, nem da importância da ciência para o desenvolvimento do País. É um verdadeiro milagre termos conseguido chegar onde chegamos até agora.”

 

 

USP pode estar “superdimensionada” para uma universidade de ponta, diz reitor

Uma comparação, mesmo que superficial, entre as duas melhores universidades dos Estados Unidos e do Brasil no ranking do Times Higher Education revela diferenças substanciais entre as instituições.

Uma que salta aos olhos imediatamente é o tamanho. O Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que está no topo do ranking há três anos, é uma escola privada de elite, extremamente seletiva, com pouco mais de

Documento

.

O reitor da USP, João Grandino Rodas, reconhece que a universidade pode estar “superdimensionada” para ser uma instituição de ponta. “Não advogo, de maneira nenhuma, que os números da USP sejam diminuídos, mas simplesmente que se deixe de criar novos cursos sem que se redimensione os antigos etc”, disse Rodas ao Estado (leia abaixo a íntegra da entrevista concedida por email).

“A USP já passou do tamanho”, diz o professor Jorge Kalil, da Faculdade de Medicina. “A universidade tem de expandir em qualidade, não em tamanho. Esse gigantismo não leva a nada se não houver qualidade.”

A pouca internacionalização e o baixo domínio do inglês voltam a ser problemáticos nesse caso, fazendo a universidade parecer muito menor do que realmente é no cenário internacional. “A USP produz mais doutores do que qualquer universidade dos Estados Unidos, com muita qualidade, só que ninguém sabe disso porque esses PhDs não estão circulando internacionalmente, não publicam trabalhos em inglês etc.”, diz o presidente da Conaes, Robert Verhine. “Nossa reputação no contexto internacional é limitada porque há pouca interação com parceiros internacionais.”

Planejamento estratégico. Vários especialistas defendem que o País priorize, por meio de um planejamento estratégico, o desenvolvimento de algumas universidades específicas, que demonstrem maior potencial para se tornarem referências internacionais, como fizeram China, Coréia do Sul, França, Alemanha e outros. “Nenhum país consegue fazer isso com todas as universidades”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, da Fapesp. Ele enfatiza que o planejamento tem de ser nacional, com a participação de todos os atores envolvidos, de todos os setores e esferas de governo, visando o desenvolvimento do País e não apenas das instituições ou de um ou outro Estado.

A China tem duas universidades entre as top 50 no ranking do Times Higher Education: as de Peking e Tsinghua. E não é por acaso, diz a presidente da SBPC, Helena Nader, “é por planejamento”.

“Nenhum país do mundo tem todas as suas universidades como universidades de pesquisa; algumas são escolhidas para fazer pesquisa e o resto do sistema se encarrega de outras funções”, diz Marcelo Knobel, da Unicamp. Ele cita o exemplo da Califórnia, em que as grandes universidades estaduais (como UC Berkeley e UCLA) são fortemente voltadas para pesquisa de ponta, enquanto que as universidades menores (os colleges) são mais focados no ensino. “Não é possível que todas as universidades públicas queiram ser universidades de pesquisa de classe mundial. É economicamente inviável; só pulveriza recursos”, avalia Knobel.

“Os dois tipos de instituição são importantes: as de ensino e as de pesquisa. O que não dá é querer que todas façam as duas coisas ao mesmo tempo”, avalia Nader.

Glaucius Oliva, presidente do CNPq, concorda que algumas universidades devem se sobressair. “Não dá para imaginar que vamos ter USPs espalhadas pelo Brasil inteiro”, afirma. Porém, ele acredita que a escolha dessas instituições não pode ser feita a priori. “Temos de dar o estímulo sem escolher quem vai ser estimulado”, diz. “Temos de criar um ambiente propício, oferecer os recursos, oferecer as ferramentas, e aqueles que estiverem dispostos a fazer uso delas é que vão se destacar.”

Fim da Parte 1. Continua nos posts abaixo:

Parte 2: Qualidade da produção científica

Parte 3: Entrevista com reitor da USP

Parte 4: Entrevista com editor do Times Higher Education