Universidades brasileiras, em busca da excelência (Parte 2)

Universidades brasileiras, em busca da excelência (Parte 2)

Herton Escobar

14 Outubro 2013 | 14h59

FOTO: Laboratório no Instituto de Química da USP. Crédito: Sebastião Moreira/Estadão

Produção científica aumenta de tamanho, mas seu impacto ainda é pequeno

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Número de trabalhos publicados. A principal métrica usada pelas instituições de ensino e pesquisa do Brasil para demonstrar sua produção científica não aparece em nenhum lugar nos sites do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) ou da Universidade Harvard – primeira e segunda colocadas no ranking de melhores universidades do mundo do Times Higher Education (THE). Em vez disso, elas contam sua produção em número de prêmios Nobel conquistados por seus pesquisadores: 32 e 47, respectivamente.

(OBS: Mesmo depois de ser procurada diretamente pela reportagem, a assessoria de comunicação da Caltech não soube informar o número de trabalhos publicados por ano pela universidade. Não é uma estatística mantida pela instituição.)

A ênfase em qualidade e a valorização do mérito são marcas registradas dessa elite acadêmica internacional, que precisam ser cultivadas também nas universidades brasileiras, caso elas queiram um dia figurar entre as melhores do mundo, segundo os especialistas ouvidos pelo Estado.

O impacto da produção científica é um dos critérios mais valorizados nos rankings internacionais para medir a excelência de uma instituição. E esse é mais um ponto fraco das universidades brasileiras — e da ciência brasileira como um todo, já que são as universidades as principais responsáveis por fazer pesquisa no País.

A produção científica nacional cresceu significativamente nos últimos 20 anos, graças principalmente à expansão e ao fortalecimento da pós-graduação nas universidades. Mas seu impacto na ciência mundial ainda é pequeno. Muitos trabalhos são publicados, inclusive em revistas internacionais de qualidade, mas são poucos os que trazem ideias ou resultados verdadeiramente impactantes, capazes de repercutir internacionalmente e influenciar os rumos da ciência como um todo. 

No Brasil, a qualidade de um pesquisador é medida, tradicionalmente, pelo número de trabalhos publicados (uma avaliação puramente quantitativa); enquanto que nos EUA ela é medida pelo número de vezes que seus trabalhos são citados por outros cientistas ao redor do mundo (uma avaliação qualitativa de importância da pesquisa). Consequentemente, os cientistas acadêmicos brasileiros tendem a ser mais conservadores e fazer pesquisas de menor porte e menor risco, para garantir seu índice de publicações e manter o financiamento de seus laboratórios; enquanto que nos EUA incentiva-se fortemente a publicação de trabalhos de grande impacto, ainda que levem mais tempo e envolvam riscos muito maiores para serem produzidos.

Contexto histórico. Na avaliação do presidente do CNPq, Glaucius Oliva, essa cultura científica brasileira tem raízes históricas. Nas décadas de 1970 e 1980, quando as universidades brasileiras ainda eram poucas e jovens — e a ciência brasileira, mais jovem ainda — o foco, realmente, era na produtividade, como forma de alavancar o desenvolvimento da ciência no País. “Naquela época, engajar os cientistas a fazer qualquer pesquisa já era bom, porque havia muito pouca ciência no País”, afirma. “Crescemos usando uma métrica de produção voltada para a quantidade; quem publicava dez trabalhos era melhor do que quem publicava zero ou dois.”

“Houve uma época em que a ciência do Brasil era invisível, e cobrar a publicação de artigos era importante”, observa, também, o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Agora que o País já tem uma comunidade científica bem estabelecida, produzindo com regularidade, o desafio passa a ser mais qualitativo, no sentido de aumentar a originalidade e a relevância dos trabalhos publicados. O CNPq, segundo Oliva, vem promovendo mudanças sistemáticas nos seus critérios de avaliação, de forma a privilegiar a qualidade na concessão de bolsas e recursos. “Mas isso demora a permear a comunidade como um todo”, avisa ele, notando que há cerca de 100 mil pesquisadores em atividade no País, e que a cultura da quantidade está fortemente enraizada nessa comunidade.

O mesmo acontece na Fapesp. Segundo Brito Cruz, há um esforço sistemático para que a seleção de projetos e pedidos de financiamento submetidos à fundação seja mais baseada em conteúdo e qualidade do que em quantidade. Mas o desafio é grande: “Depende de convencer 15 mil pareceristas de que eles precisam, de fato, ler alguns dos trabalhos que o pesquisador fez, e não só fazer uma consulta na Plataforma Lattes para ver quantos artigos ele publicou. Não preciso de um assessor para contar trabalhos. Queremos pareceres que falem de substância, não só de quantidade”, afirma o físico. “Financiamento não é prêmio por currículo bonito. A primeira pergunta que tem de ser feita é: Qual é a qualidade da ciência que essa pessoa está propondo? Se a ciência for boa, aí sim, você olha para o currículo.”

Um dos pontos-chave para melhorar a qualidade da ciência brasileira — e, consequentemente, a colocação das universidades brasileiras nos rankings internacionais –, segundo Brito Cruz, é “proteger o tempo do pesquisador”, que hoje perde muito tempo lidando com burocracias de todo o tipo. “Esse, claramente, é um dos maiores obstáculos. Qualquer coisa que tira o foco do pesquisador vai prejudicar o desenvolvimento da ciência”, diz. Nos Estados Unidos e na Europa, as universidades têm departamentos e equipes especificamente dedicadas a “esconder a burocracia do pesquisador”, o que não ocorre nas instituições brasileiras.

“Lá fora também tem burocracia, claro, mas não com o peso que nós temos de carregar aqui. Lá as universidades têm uma infraestrutura especialmente voltada para cuidar disso, o que facilita tudo”, diz a presidente da SBPC e pesquisadora da Unifesp, Helena Nader.

FOTO: Equipe do brasileiro Gabriel Victora (segundo da direita para a esquerda) no Whitehead Institute. Crédito: Divulgação

Carga pesada. Além da burocracia, há a responsabilidade de dar aulas, que também ocupa boa parte da agenda dos cientistas acadêmicos brasileiros. Nas universidades de ponta norte-americanas, há uma diferenciação clara entre as funções de professor e pesquisador. A carga horária de aulas é reduzida e os professores quase sempre contam com equipes de assistentes (em geral, alunos de pós-graduação) que se encarregam das funções mais rotineiras e burocráticas dos cursos, como correção de provas, organização de projetos e transmissão de conteúdo básico. Nas universidades públicas brasileiras, não existe essa diferenciação: os pesquisadores são obrigados a dar aula, independentemente de serem professores por vocação ou não.

É isso que desestimula pesquisadores como o brasileiro Gabriel Victora de voltar ao País. “O mais problemático no Brasil é que o pesquisador tem de usar muitos chapéus ao mesmo tempo: de cientista, de professor, orientador, gerente de laboratório, administrador de planilhas.  Não há um suporte institucional nas universidades que te permita ser só pesquisador”, diz o gaúcho de 36 anos, que saiu do Brasil em 2006 para fazer doutorado em Nova York e nunca mais voltou. Passou cinco anos trabalhando num laboratório de ponta em imunologia da Universidade Rockefeller e, um ano e meio atrás, conquistou um dos espaços mais cobiçados na sua área de pesquisa: um laboratório próprio no Instituto Whitehead, em Cambridge, Massachusetts, um dos centros de maior excelência em pesquisa biomédica do planeta.

Ainda assim, ele diz que gostaria de voltar ao Brasil. “A maioria dos brasileiros que opta por ficar no exterior preferiria morar no Brasil”, diz Victora, filho de um renomado epidemiologista (Cesar Victora) da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. O que o mantém longe da família e do país de origem são os mesmos fatores que mantém o Brasil longe das primeiras colocações na lista de melhores universidades do mundo: a burocracia, a morosidade, a inflexibilidade, a falta de infraestrutura técnica e apoio institucional — especialmente para pesquisadores em início de carreira, como ele. “No Brasil é muito difícil ser competitivo”, diz. “Não imagino competir com laboratórios de ponta no mundo, como estou competindo agora, tendo que dar 20 horas-aula por semana e sem o apoio das ‘facilities’ que temos aqui.”  Numa universidade de pesquisa americana, segundo ele, uma carga horária de 4 horas-aula por semana “já é considerada alta”. No Instituto Whitehead, nem isso ele precisa fazer;  está livre para ser pesquisador em tempo integral.

As “facilities” a que Victora se refere são laboratórios técnicos de apoio que prestam serviços a universidades e outros centros de pesquisa; por exemplo, nas áreas de sequenciamento de DNA e produção de animais transgênicos — duas ferramentas básicas de pesquisa biomédica que ele utiliza regularmente no laboratório. “Eu uso muitos camundongos transgênicos que nem conseguiria produzir no Brasil”, diz Victora, que estuda processos moleculares e celulares ligados ao sistema imunológico.

A dificuldade para obter reagentes — que no Brasil precisam ser importados — é outro problema. “No Brasil já tive de esperar seis meses para obter um reagente. Aqui, faço o pedido e recebo em três dias”, conta Victora. “Isso não só atrasa o avanço da ciência brasileira como tem um efeito qualitativo sobre ela. No Brasil eu tinha de ser muito mais conservador; só podia fazer projetos que eu sabia que iam dar certo, porque o risco de investir numa ideia que não desse certo era muito grande. Aqui eu tenho liberdade para ousar muito mais; posso ter três ideias por semana e testar cada uma delas, porque se não der certo, o prejuízo para a pesquisa será pequeno.”

Fim da Parte 2. Continua nos posts abaixo:

Parte 3: Entrevista com reitor da USP

Parte 4: Entrevista com editor do Times Higher Education

Parte 1: Internacionalização e Burocracia