USP VAI APURAR DENÚNCIAS CONTRA DIRETOR DO ICB

USP VAI APURAR DENÚNCIAS CONTRA DIRETOR DO ICB

Herton Escobar

06 Janeiro 2013 | 17h33

Página inicial do site Science Fraud, com uma mensagem avisando que o conteúdo foi tirado do ar.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

(matéria publicada no jornal impresso em 6/1/2012)

A reitoria da Universidade de São Paulo (USP) vai investigar as denúncias de fraude científica levantadas contra o diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), Rui Curi. “A reitoria está informada da situação e cabe a ela tomar algum tipo de iniciativa; o que será feito, certamente”, disse ontem ao Estado o pró-reitor de Pesquisa da universidade, Marco Antonio Zago.

Segundo Zago, o esclarecimento dos fatos será importante para “preservar tanto a integridade científica da universidade quanto do pesquisador, caso ele tenha sido indevidamente acusado”.

Curi, que é membro da Academia Brasileira de Ciências e tem mais de 500 trabalhos publicados, vinha sendo acusado desde novembro de publicar pesquisas com dados adulterados.

As denúncias foram postadas no site americano Science Fraud (Fraude Científica), acompanhadas de várias imagens retiradas dos trabalhos, que supostamente comprovariam as adulterações. Na sexta-feira, um outro site, chamado Retraction Watch (Observatório de Retratações), anunciou que um dos trabalhos denunciados como fraude foi retratado na revista Journal of Lipid Research.

A retratação significa um cancelamento do trabalho, sugerindo que os dados científicos publicados nele estavam errados. O que a universidade terá de esclarecer, segundo Zago, é se a retratação se deve a um erro involuntário ou a alguma manipulação intencional de informações.

“A retratação de um trabalho não é necessariamente um problema. Pode até ser uma demonstração de seriedade do pesquisador, caso ele note algum erro no trabalho depois que foi publicado”, ressalta o pró-reitor. “O que deve ser investigado são as acusações de fraude.”

As denúncias postadas no Science Fraud acusavam Curi de adulterar imagens e dados de experimentos essenciais ao resultado da pesquisa, que tratava da ação bioquímica de ácidos graxos dentro de linfócitos (um tipo de célula imunológica). O trabalho, publicado originalmente em 2007, aparece no site da revista como “retirado” em 28 de dezembro de 2012.

Procurada pelo Estado, a diretoria de Publicações da Sociedade Americana de Bioquímica e Biologia Molecular (ASBMB), responsável pelo Journal of Lipid Research, informou que o trabalho foi retratado “voluntariamente pelo autor” e só ele poderia falar sobre os motivos. Além de Curi, assinam a pesquisa quatro ex-alunos de doutorado do seu laboratório: Renata Gorjão, Sandro Hirabara, Thaís Martins de Lima e Maria Fernanda Cury Boaventura.

Outras denúncias veiculadas pelo Science Fraud faziam referência a outros trabalhos de Curi e sua equipe. Todo o conteúdo do site foi retirado do ar no início da semana passada (dia 2), por força de ações legais supostamente iniciadas por advogados contratados por Curi.

Procurado pelo Estado, o cientista responsável pelo site, Paul Brookes, da Universidade de Rochester, nos EUA, disse que estava “legalmente impedido” de comentar o caso.

Resposta. Curi não foi encontrado para comentar o assunto. Sandro Hirabara, um de seus ex-alunos, hoje professor da Universidade Cruzeiro do Sul, negou as acusações de fraude. “O artigo não foi retirado por fraude, má conduta ou falta de mérito”, disse, em entrevista por email ontem à noite.

Segundo Hirabara, ocorreram erros na escolha de algumas imagens de bandas de proteínas em gel que representam os dados do trabalho publicado. “Algumas bandas foram repetidas, outras não foram visualizadas após a edição”, disse. “Os valores de média, erro padrão, as legendas, discussão e conclusões permanecem inalterados, visto que a análise foi realizada nos arquivos das bandas originais.”

Ainda segundo Hirabara, três outros artigos do grupo mencionados nas denúncias tiveram erratas aceitas por editores, “os quais concluíram que se tratavam de erros não intencionais ocorridos na preparação das figuras”. Segundo ele, “a informação de que o fechamento do blog Science Fraud foi de responsabilidade do nosso grupo não procede”.

Anonimato. Science Fraud, o site que divulgou acusações contra Rui Curi, foi criado em julho de 2012, com a proposta de denunciar fraudes científicas detectadas em trabalhos já publicados. A autoria do site era anônima. Seu criador só se identificou publicamente na semana passada, depois que ações legais obrigaram-no a tirar todo o seu conteúdo do ar. Era Paul Brookes, um pesquisador do Centro Médico da Universidade de Rochester.

Retraction Watch, o site que divulgou a retratação do trabalho de Curi, é um blog mantido por dois jornalistas nos Estados Unidos, que divulga e comenta notícias sobre retratações de trabalhos científicos no mundo todo.

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Atualização no blog:

Para entender melhor: Segundo Sandro Hirabara, as imagens que continham erros no trabalho retratado eram as Figuras 2, 3, 5 e 8, que eu copio abaixo para dar uma ideia do que se trata aos leitores. Elas representam resultados obtidos com uma técnica chamada “western blotting”, usada para identificar e quantificar proteínas específicas isoladas de uma amostra biológica. É uma das técnicas mais elementares e essenciais usadas em laboratórios de bioquímica e biologia molecular, por exemplo.

O processo todo é relativamente complexo … quem se interessar pode dar uma olhada nesses infográficos da Wikipedia. O essencial para o leigo é entender que cada uma dessas bandas escuras nas imagens abaixo dos gráficos representa um aglomerado de proteínas dentro de um gel. Quanto maior e mais escura a banda, maior a quantidade de proteínas na amostra. Esse processo é repetido várias vezes e os resultados são apresentados na forma de gráficos de barras, indicando a quantidade de proteínas em diferentes amostras processadas de diferentes formas. As fotos das bandas são apresentadas como prova experimental dos dados representados nos gráficos, que são a essência do estudo. Se as bandas estiverem erradas, portanto, o estudo todo fica comprometido.

As denúncias postadas no site Science Fraud apontavam para diversas incorreções nessas e outras imagens do estudo, que, segundo o autor do blog (Paul Brookes) seriam evidências de fraude científica. Por exemplo, bandas que aparecem repetidas em diferentes amostras e que teriam sido invertidas, esticadas ou mudadas de lugar — “erros” que, segundo ele, só poderiam ter ocorrido de forma intencional.

Segundo Hirabara e outros autores do estudo, ocorreram apenas erros acidentais e não intencionais na seleção das imagens que saíram publicadas. “Não houve em momento algum má fé por parte dos autores”, afirma Hirabara.

Para os leigos vai ser praticamente impossível notar alguma coisa certa ou errada nas bandas, mas, de qualquer forma, fica aqui o registro jornalístico das imagens que geraram toda a polêmica.

FIGURA 2:

FIGURA 3:

FIGURA 5:

FIGURA 8: