VEJAM SÓ QUEM ACABA DE CHEGAR …

VEJAM SÓ QUEM ACABA DE CHEGAR …

Herton Escobar

11 Abril 2010 | 19h22

Photo by Brett Eloff courtesy of Lee Berger and the University of the Witwatersrand

A descoberta de mais uma espécie de hominídeo, anunciada na semana passada por pesquisadores na África do Sul, levanta uma série de questões interessantes sobre a evolução humana.

A primeira delas é imaginar que entre 1,5 e 2 milhões de anos atrás havia várias espécies de hominídeos caminhando pela África. Eram pelo menos seis, de acordo com as classificações atuais de fósseis: Homo habilis, Homo erectus, Homo rudolfensis, Paranthropus robustus, Paranthropus boisei e, agora, o mais novo “new kid on the block”, Australopithecus sediba.

Mas então, quem é ancestral de quem? É uma pergunta dificílima de ser respondida. O gênero Australopithecus é considerado um gênero mais primitivo do que o gênero Homo, que deu origem, em última instância, ao Homo sapiens (eu, você, nossas mães, nossos avós e todos os seres humanos que vivem sobre a Terra hoje…).

Com base nos fósseis disponíveis, imagina-se que aconteceu o seguinte: Em algum lugar da África, entre 2 e 2,5 milhões de anos atrás, havia australopitecinos andando por todos os lados. Até então, eram um espécie na natureza como outra qualquer, que tanto caçava quanto era caçado e devorado por outros bichos. Um primata ainda de cérebro pequeno, que vivia a maior parte do tempo nas árvores, mas já era capaz de caminhar sobre duas pernas pelas planícies, o que deixava suas mãos livres para coisas mais interessantes, como carregar coisas por distâncias maiores e manipular objetos com maior destreza.


Enfim, é uma longa história de transformações anatômicas e comportamentais, que ainda conhecemos muito pouco …. Mas podemos deduzir com um relativo grau de confiabilidade que, em algum momento, uma dessas várias populações de Australopithecus evoluiu a ponto de se transformar em um novo gênero de hominídeo, mais inteligente, mais ágil, mais versátil e mais adaptável a variáveis condições ambientais … que nós chamamos de Homo.

O fato dessa população ter passado a Homo não significa que todos os outros Australopithecus desapareceram da noite para o dia. Digamos, por exemplo, que a população que virou Homo vivia no chifre da África, onde hoje fica a Somália. Pois bem…. os Australopithecus que viviam onde hoje é a África do Sul não sabiam que nada disso estava acontecendo. Ninguém mandou um email da Somália dizendo: “Atenção Australopithecus, acaba de surgir uma espécie “melhor” do que vocês, então tratem de se extinguir imediatamente”.

Não. Os Australopithecus, os Paranthropus e talvez vários outros tipos de hominídeos que nós ainda não descobrimos continuaram vivendo suas vidinhas normalmente, até que várias coisas podem ter acontecido. O mais provável é que eles tenham sido extintos naturalmente, como já aconteceu com milhões e milhões de espécies desde que a vida surgiu no planeta Terra (alguém aí já ouviu falar dos dinossauros?). Mas seja lá o que foi que acabou com eles, não foi suficiente para acabar com seus parentes Homo, que continuaram a se multiplicar e a migrar pela terra e pela água, até povoar todas as regiões do planeta (com exceção da Antártida).

Por isso é perfeitamente plausível que formas mais modernas de Homo e mais primitivas de Australopithecus tenham convivido durante longos períodos. A pergunta é: Qual era a relação entre eles? Será que o Australopithecus sediba foi a espécie da qual se originaram os primeiros Homo? Os fósseis descobertos na África do Sul tem no máximo 1,95 milhão de anos, mas isso não significa que a espécie tenha surgido naquele momento…. talvez ela já existisse há centenas de milhares de anos. Os fósseis mais antigos de Homo erectus tem mais ou menos essa idade, e essa evolução certamente não ocorreu da noite para o dia. Há fósseis de Homo habilis e Homo rudolfensis que chegam a 2,3 milhões de anos, mas há quem diga também que esses caras não eram Homo coisa nenhuma… que eram ainda Australopithecus.

Então vai saber. O Australopithecus sediba pode ser o ancestral do Homo. Ou pode não ter tido importância nenhuma na nossa evolução. Precisamos ainda de muito mais fósseis e muito mais pesquisa para ter alguma chance de responder essas perguntas com um grau mínimo de certeza.

As dúvidas são muitas, mas só o fato de termos esses poucos fósseis e sabermos o pouco que sabemos sobre a história evolutiva da nossa espécie já é algo realmente impressionante. Esses hominídeos não são invenção da ciência. Eles existiram. Seus ossos estão aí para provar e cutucar a nossa imaginação. Imagine só!

Abraços a todos.

FOTO:  Acima, o crânio de Australopithecus sediba, descoberto na África do Sul. Parte da rocha na qual ele foi fossilizado foi mantida como um pedestal, para evitar fragmentá-lo. (Photo by Brett Eloff courtesy of Lee Berger and the University of the Witwatersrand)