VIAGEM AO FUNDO DO MAR

VIAGEM AO FUNDO DO MAR

Herton Escobar

04 Janeiro 2010 | 15h17


FOTO: David Shale

Veja essa foto acima …
Você acha que isso é:

a) Uma máscara usada no filme Piratas do Caribe ou em algum episódio da série Star Trek?
b) A cabeça de um alienígena que caiu na Terra e é (ou era, até a publicação deste post) mantido em segredo pelo governo americano em uma base no deserto do Arizona?
c) Uma espécie alienígena capturada em segredo pela Nasa nos oceanos de Europa, uma das luas de Júpiter?
d) Uma espécie de polvo do planeta Terra?

A resposta certa, claro, é D.

A razão pela qual você talvez nunca tenha visto esse polvo por aí é que ele vive nas altas profundezas do oceano, da casa dos 1.000 metros para baixo, onde é sempre escuro e sempre frio. Ele também nunca viu um ser humano. Provavelmente nunca viu a luz do Sol (a não ser que suba eventualmente para profundidades mais rasas, o que é improvável…).

Trata-se de uma nova espécie (ainda não descrita) de polvos do gênero Grimpoteuthis, popularmente conhecidos como “Dumbos”, por causa das orelhas grandes (que eles usam de fato para se locomover na água). Ela foi descoberta no fim do ano passado por pesquisadores do Censo da Vida Marinha (Census of Marine Life-CoML), um projeto internacional que está investigando e catalogando todas as formas de vida marinha do planeta.

Várias espécies de Dumbos já foram descobertas em altas profundidades. E eles não vivem sós. Já estamos acostumados a ver recifes de coral cheios de vida nas águas rasas e iluminadas próximas da costa. Mas as profundezas escuras e gélidas dos oceanos também estão repletas de vida de todos os tipos.

Já que terminei 2009 falando do espaço sideral, resolvi começar 2010 falando deste outro universo “alienígena”, muito mais próximo de nós, mas quase igualmente desconhecido: o fundo do mar.

Nunca me esqueço de uma frase que ouvi de um pesquisador numa convenção sobre biodiversidade da ONU, alguns anos atrás: “Sabemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre o fundo dos nossos oceanos”.
O que nós chamamos de “fundo” é, na verdade, a maior parte da superfície do nosso planeta, com montanhas, vales, cânions e tudo mais … Só chamamos de “fundo” porque está debaixo d’água. O fato é que cerca de dois terços da crosta terrestre estão em águas profundas, abaixo de 200 metros da “superfície”. Nessa profundidade, a luz não penetra mais. Faça chuva ou faça sol, é um mundo de escuridão permanente!

O Censo da Vida Marinha já catalogou quase 18 mil espécies que habitam esse universo escuro. E certamente isso é apenas uma pequena amostra da real biodiversidade das profundezas. É só o que deu sorte de ser fisgado pelas redes ou filmado pelos robôs submarinos dos cientistas. Imagine quantas formas de vida alienígenas ao nosso conhecimento não estão nadando neste exato momento milhares de metros abaixo da superfície!

Na semana passada estava na redação conversando com alguns colegas sobre o que cada um faria se ganhasse a bolada da Mega-Sena de fim de ano. Uma amiga disse que compraria uma passagem para ir ao espaço. Eu ousei dizer que preferiria descer às fossas abissais dos oceanos. Parece fantasia, mas é um dilema real para governos dos EUA e da União Europeia … O que é mais importante: pesquisar outros planetas ou o nosso próprio planeta? (o ideal é que se faça ambos, claro…. mas infelizmente o dinheiro não é infinito como o universo)

E você, para onde iria? Se tivesse a opção, compraria uma passagem num foguete ou num submarino?

Para facilitar (ou complicar) a decisão, assista ao filme “Aliens of the Deep”, dirigido por James Cameron, que está disponível no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=P81_DKs5hDk&feature=related), para quem não teve o privilégio de assistir numa sala de cinema Imax.

Tem também esse videozinho produzido pelo Censo da Vida Marinha e pela National Geographic, que serve como aperitivo: http://coml.org/embargo/deep-video

E esse aqui, produzido pelo Greenpeace e narrado pela Sigourney Weaver, que mostra, infelizmente, como estamos destruindo o fundo do mar antes mesmo de conhecê-lo: http://www.greenpeace.org/portugal/videos/o-fundo-da-linha

Abraços a todos.


FOTO: Kevin Raskoff copyright 2009

Esse outro “monstrinho” aí de cima é a lula Vampyroteuthis infernallis (“vampiro do inferno”), outra habitante das profundezas geladas do oceano. Quando se sente ameaçada, ela expele pelos tentáculos uma nuvem gosmenta de muco bioluminescente, que serve para distrair os predadores enquanto ela escapa.

Repare no olho … dá para ver o reflexo do submersível que fez a foto.
A imagem é uma das muitas que ilustra o livro World Ocean Census, lançado em novembro.