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Vice de Kalil também é afastado do Butantan

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Vice de Kalil também é afastado do Butantan

Marcelo De Franco, pesquisador do instituto desde 1990, foi transferido sem aviso para o Instituto Pasteur. Ele era diretor substituto do Butantan na gestão de Jorge Kalil, exonerado no mês passado em meio a polêmicas e protestos. Secretaria da Saúde diz que motivação foi técnica. Colegas vêem retaliação.

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Herton Escobar

17 Março 2017 | 19h27

Pesquisadores do Instituto Butantan estão questionando mais uma intervenção da Secretaria de Estado da Saúde na administração da instituição. Três semanas após a exoneração do diretor Jorge Kalil, duramente contestada por cientistas e funcionários, foi publicada ontem no Diário Oficial do Estado a transferência “ex officio” do seu vice-diretor, Marcelo De Franco, para o Instituto Pasteur — outro instituto ligado à secretaria, porém com uma estrutura muito menor e especializado em raiva.

De Franco, assim como Kalil, é imunologista, especializado em imunogenética — o estudo de como os genes controlam as ações do sistema imunológico. Ele é pesquisador de carreira do Butantan, onde está desde 1990, atualmente no cargo de pesquisador científico nível 6 — o mais alto da carreira.

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) divulgou nota repudiando a decisão do secretário da Saúde, David Uip, e solicitando a anulação da transferência, que, segundo a associação, “gera total insegurança profissional não apenas aos pesquisadores e corpo técnico do Instituto Butantan, mas também a todos os pesquisadores científicos do Estado de São Paulo”.

Prédio histórico do Instituto Butantan. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Prédio histórico do Instituto Butantan. Foto: Rafael Arbex/Estadão

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Saúde limitou-se a dizer por nota que “a transferência do pesquisador Marcelo de Franco para o Instituto Pasteur é totalmente técnica”.

Dentro do Butantan, a medida foi interpretada como uma “retaliação”, pelo fato de De Franco ter participado do movimento em defesa de Kalil e criticado publicamente a gestão do governo sobre o instituto.

Procurado pela reportagem, De Franco disse que foi surpreendido pela decisão e que está avaliando o que fazer. Segundo ele, nem ele nem os diretores do Butantan ou do Pasteur foram avisados da transferência. Ele mesmo só ficou sabendo pelo Diário Oficial.

De Franco cogita entrar com um mandato de segurança para reverter a decisão, visto que ficará incapacitado de dar continuidade às suas pesquisas — ligadas principalmente à identificação de genes associados à resposta inflamatória na artrite reumatóide, uma doença autoimune. Ele tem dois projetos em andamento, com financiamento da Fapesp e do CNPq, e o Instituto Pasteur não oferece a infraestrutura laboratorial ou os modelos animais necessários para o estudo. “Não tenho como continuar minha pesquisa lá”, disse.

Não tenho como continuar minha pesquisa

O diretor do Laboratório de Imunogenética do Instituto Butantan, Orlando Ribeiro Filho, disse que a saída de De Franco causará “significativo prejuízo” aos trabalhos do laboratório e de todo o instituto, “uma vez que mantemos estreitas colaborações com diferentes setores desta e de outras instituições em projetos de pesquisas importantes na geração de conhecimento e no impacto social”.

“O Dr. Marcelo é pesquisador raro, extremamente produtivo, reconhecido nacional e internacionalmente, e um dos quadros de excelência do Butantan”, diz o colega Osvaldo Sant’Anna, do Laboratório de Imunoquímica, em carta enviada ao governador Geraldo Alckmin. “Trata-se de uma retaliação e, pior ainda, gera total insegurança a todos os pesquisadores e corpo técnico do Instituto Butantan, podendo criar graves entraves e irremediáveis no futuro relacionamento com o recém-designado diretor (Dimas Tadeu Covas). Atingir desse modo infame o Dr. Marcelo De Franco é nos atingir.”

De Franco era muito próximo a Kalil, que dirigiu o Butantan pelos últimos seis anos, até ser exonerado no mês passado. Segundo a Secretaria da Saúde, a exoneração foi motivada por “graves problemas de gestão”, detectados por uma auditoria. Kalil contesta a auditoria e diz que tem documentos para comprovar que todas as acusações levantadas contra ele são infundadas. A verdadeira motivação para o afastamento, segundo várias fontes ligadas ao Butantan, seria política — agravada por desavenças pessoais de longa data entre Kalil e Uip.

Muitos funcionários temem que a mudança de direção seja o primeiro passo num processo político de privatização do Butantan, que incluiria a venda ou concessão de suas fábricas de vacinas à iniciativa privada. A receita do instituto prevista para este ano com a venda de vacinas e soros é de R$ 1,6 bilhão.

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