VIDA DE AMEBA

VIDA DE AMEBA

Herton Escobar

21 Abril 2010 | 16h40

FOTO: D. J. Patterson, L Amaral-Zettler, M. Peglar and T. Nerad / MBL

Imagine só o seguinte: Você ouve dizer que cientistas descobriram vida em outro planeta … aí você corre para a internet para ver uma foto do tal alienígena, e o que aparece na tela é essa imagem aí em cima. Qual seria sua reação?

Pois então … esse negócio estranho aí em cima com cara de ladrilho de banheiro é uma ameba do gênero Chlamydophrys, capturada e fotografada por cientistas ligados ao projeto Censo da Vida Marinha, aqui mesmo no planeta Terra. É uma de várias fotos divulgadas na segunda-feira pelas equipes do projeto que trabalham com microrganismos (veja mais alguns exemplares abaixo).

Eu sei que seria muito mais legal achar um alienígena humanóide, com dois braços, duas pernas e uma cabeça com olhos grandes, mas a verdade é que essa ameba é uma representante tão digna da vida na Terra quanto nós ou qualquer outro animal ou planta desse planeta.

Da mesma forma, quando sondas robóticas um dia penetrarem a atmosfera e os oceanos de outros planetas ou luas e voltarem com amostras de vida alienígena, pode muito bem ser esse tipo de coisa que a gente encontre. Imagine, por exemplo, o oceano gigantesco que existe sob a crosta congelada de Europa, uma das luas de Júpiter…. ele poderia estar lotado de formas de vida microscópica como essa, mas se você olhasse para a água sem um microscópio, não veria nada.


De fato, se todas as espécies de seres vivos do planeta fossem transformadas em bolinhas numeradas e jogadas numa roda de bingo, a probabilidade esmagadora seria de que a bolinha sorteada seria um microrganismo. Porque são eles que dominam a Terra de verdade. São as formas de vida mais abundantes e mais diversificadas que existem, tanto na água quanto na terra. Se dentro do nosso próprio corpo já temos mais bactérias do que células humanas, imagine então no planeta como um todo!

Um único litro de água marinha, para se ter uma ideia, pode abrigar mais de 1 bilhão de microrganismos! Se você pudesse enxergá-los, provavelmente nunca entraria no mar … Os cientistas do Censo fizeram até uma conta engraçada: que se você juntasse e pesasse todos os microrganismos suspensos na água dos oceanos, eles pesariam o mesmo que 240 bilhões de elefantes africanos, ou cerca de 35 elefantes de micróbio por pessoa (divididos entre a população mundial).

Cada um desses microrganismos é uma célula com núcleo, mitocôndrias, DNA, RNA, proteínas e tudo mais que um ser vivo precisa para sobreviver. Cada um deles é um “indivíduo” – minúsculo e simples, mas um indivíduo da mesma forma.

Voltando à nossa amiga ameba … essa foto tem um apelo especial para mim porque foi feita no MBL, um tradicional laboratório de biologia marinha de Woods Hole, Massachusetts, onde eu tive o prazer de estudar durante um mês, alguns anos atrás. Um dos cursos que fiz foi de microbiologia, e um dos exercícios básicos que fazíamos na sala de aula era pegar amostras de água, terra, areia, lama, musgo e outras melecas naturais  para análise no microscópio.

Nunca vou esquecer do dia que olhei para uma gota de água parada de um lago meio lamacento e vi centenas de “bichinhos” “correndo” de um lado para outro loucamente. Parecia um playground cheio de crianças malucas microscópicas. Aí eu tirava os olhos do microscópio e olhava a olho nu para o slide de vidro …. e não tinha nada lá além de uma gotinha de água escura. Mas ela estava cheia de vida… só faltava enxergá-la. Imagine só!

Abraços a todos.

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Bacteriastrum, um tipo comum de bactéria que vive sobre o plâncton marinho. FOTO: J. Cole

Cochliopodium is a common amoeba. It is made distinctive by the layer of small scales on the surface and it consumes bacteria, algae and decaying material

Cochliopodium, um tipo comum de ameba marinha que se alimenta de bactérias, algas e material orgânico em decomposição. FOTO: D. J. Patterson, L. Amaral-Zettler and V. Edgcomb, under license to MBL

Photo Credit: Bob Andersen and D. J. Patterson, under license to MBL

Karenia brevis, uma alga tóxica, unicelular, que causa "marés vermelhas" no Golfo do México. FOTO: Bob Andersen and D. J. Patterson, under license to MBL

Photo Credit: Cheryl Clarke-Hopcroft/UAF/CMarZ

Além de micróbios, pesquisadores do Censo da Vida Marinha também estão catalogando larvas de animais maiores, como a deste cefalópode (que pode ser um polvo ou uma lula). FOTO: Cheryl Clarke-Hopcroft/UAF/CMarZ