VITÓRIA DO MULTIJORNALISMO

VITÓRIA DO MULTIJORNALISMO

Herton Escobar

20 Junho 2012 | 09h33

O ministro Patriota disse ontem que o acordo da Rio+20 foi uma “vitória do multilateralismo”. (e uma derrota imensa para aqueles que esperavam algum resultado minimamente ambicioso da conferência, devo acrescentar, com todo o respeito …)

Eu digo que a cobertura do Estadão na Rio+20 até agora tem sido uma “vitória do bom jornalismo em equipe”. Só aqui no Riocentro somos mais de dez jornalistas trabalhando como loucos todos os dias, fechando o jornal em cima da hora (ao melhor estilo diplomático), tendo que costurar uma quantidade gigantesca de informações em poucos minutos … e, de algum jeito, sai um produto de altíssima qualidade no final.

A matéria principal do caderno de hoje, por exemplo, foi produzida a 12 mãos. Um falou com a Europa, outro com a Nigéria, outros foram nas entrevistas coletivas e assim por diante … Veja abaixo uma imagem da matéria publicada no jornal e, mais abaixo ainda, uma versão ampliada do texto, com mais fontes e mais informações ainda.

BRASIL COMEMORA APROVAÇÃO DE ACORDO CONSIDERADO FRACO E SEM AMBIÇÃO NA RIO+20

por Herton Escobar, Giovana Girardi, Marta Salomon, Felipe Werneck, Fernando Dantas e Lourival Sant’Anna

Três dias antes da conclusão oficial da Rio+20, o Brasil apresentou ontem o documento  que deverá ser aprovado pelos chefes de Estado na plenária final de sexta-feira, com as decisões da conferência. O texto foi avaliado como extremamente fraco e pouco ambicioso por organizações não-governamentais e até por algumas das delegações de países que concordaram com ele.

O único país que comemorou abertamente o resultado foi o próprio Brasil, classificando o resultado como “estupendo” , “robusto”, “maravilhoso”. “Foi uma vitória do multilateralismo”, disse o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. “Estou particularmente muito satisfeita”, disse a ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira, que chegou ao Rio tarde da noite de segunda-feira e teve que se envolver imediatamente nas negociações para evitar um possível fiasco. “Muito da posição brasileira está no documento aprovado”, disse ela.

O texto final, com 283 parágrafos, foi redigido na madrugada de ontem, após uma conturbada rodada de negociações, em que o Brasil foi criticado por forçar o fechamento do texto de forma supostamente “prematura” – considerando que, a princípio, ele poderia continuar a ser negociado até o último dia da conferência, na sexta-feira. Às 2h30, o Brasil anunciou que tinha chegado a um texto consolidado e que ele seria apresentado às 7h, após uma “revisão técnica”. Pouco antes das 14h, o documento foi aceito em sessão plenária por todos os países, apesar de várias delegações terem expressado frustrações com o resultado.

“O acordo é muito forte em suas ambições, mas não forte o suficiente no sentido de fornecer os instrumentos necessários para suprir essas ambições”, disse ao Estado o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Peter Altmaier. “O pior cenário seria o fracasso da conferência. O melhor seria sair daqui com compromissos claros e prazos bem definidos, mas isso não foi possível. Então optamos por uma abordagem passo a passo.”

O diretor de Assuntos Internacionais da Direção Geral para o Meio Ambiente da Comissão Europeia, Timo Makela, disse que o comunicado final tem “forças e fraquezas”. “Agora há consenso em torno da economia verde, de que o crescimento econômico tem de respeitar os limites da terra”, disse ao Estado. “É a primeira vez que isso é endossado globalmente.” Ele lamentou o fato de o texto ser muito “descompromissado”. “Ele não usa a palavra ‘nós nos comprometemos’; apenas ‘nós reconhecemos’”, criticou Makela. “Queríamos mais compromissos, prazos; se não, pode ser para sempre. Do que estamos falando?”

FOI O QUE DEU PRA FAZER. “Claro, este documento é o produto de intensas negociações prolongadas. E, portanto, é um texto de compromisso”, declarou o secretário-geral da Rio+20, o diplomata chinês Sha Zukang. “Como todas as negociações, haverá alguns países que sentem que o texto poderia ser mais ambicioso. Ou outros que sentem que as suas próprias propostas poderiam ser melhor refletidas. Enquanto outros podem ainda preferir ter sua própria língua. Mas vamos ser claros: as negociações multilaterais necessitam de dar e receber.”

“Isso é uma negociação, todos têm de ceder, todos ganham e todos perdem um pouco. Encontramos um equilíbrio que foi suficiente para todo mundo. É um estupendo texto”, disse ao Estado o embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe do Brasil na conferência.

“Não é o que todos queriam, mas no fim chegamos a um compromisso. Você perde um pouco e ganha um pouco. Ninguém leva tudo o tempo todo. O que é bom para mim não é exatamente bom para você. Fizemos o que foi possível”, assinou embaixo  Onu Eluwa, da delegação da Nigéria.

FRACASSO. Para organizações não-governamentais que acompanharam as negociações, o documento condena a Rio+20 a um fracasso quase que total. “É assustador. Estamos assassinando o futuro da próximas gerações”, disse o diretor-executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado, ao sair da plenária que aprovou o documento. “É uma carta meramente burocrática, dizendo para que as pessoas se virem.”

“É um texto raso, que olha para frente, mas não traz nenhuma grande decisão”, disse o observador Carlos Rittl, da WWF-Brasil. O texto levanta uma série de problemas ambientais, sociais e econômicos que precisam ser resolvidos, mas não adota nenhuma solução imediata para resolvê-los. “Tudo que era importante ficou para ser discutido mais tarde. O único compromisso é o de continuar negociando.”

Na busca de um consenso entre os 193 países-membros da ONU representados na negociação, o Brasil retirou ou amenizou significativamente, no últimos dias, vários pontos de conflito que dificultavam há meses as negociações. E, com eles, quase todos os pontos considerados mais importantes para transformar o mundo de alguma forma. Sobraram declarações, faltaram ações. Foram removidas, principalmente, questões relacionadas a ajuda financeira dos países ricos para apoiar o desenvolvimento sustentável de países pobres.

Figueiredo disse que a crise econômica internacional teve influência direta nas negociações sobre financiamento. “O nível de ambição certamente foi afetado”, disse.

Apesar da ausência de novas obrigações financeiras para países desenvolvidos no documento, os Estados Unidos disseram que gostariam de ter dado mais ênfase no texto à importância de haver maior fluxo de recursos do setor privado e no eixo Sul-Sul (entre países em desenvolvimento). O negociador-chefe dopaís, Todd Stern, disse que “uma parte importante do crescimento para qualquer país vem dos seus próprios recursos”, por meio de reformas econômicas e educacionais. “Acho que não há menção suficiente deste senso realista (no texto final)”, disse Stern.

FUTURO. O documento, intitulado O Futuro que Queremos, só poderá ser oficialmente aprovado na plenária final da conferência, sexta-feira. A aprovação tem de ser por consenso absoluto, com anuência de todos os países. Nada impede que, até lá, alguma delegação tente reabrir o documento. Pelas “regras” da diplomacia, porém, é extremamente improvável que isso aconteça.

“Eu acredito que este documento está encerrado”, disse o norte-americano Stern. “Eu acho que os brasileiros não tem nenhuma intenção de deixar o documento ser reaberto, e há uma razão muito boa para isso. Se a gente começar a mexer, vai sair de controle muito rápido.”