Nem eclipse, nem cometa

Nem eclipse, nem cometa

Cuidado para não se frustrar com o eclipse penumbral de hoje à noite

Gustavo Rojas

10 Fevereiro 2017 | 11h28

O Telescópio está de volta! Depois de uma longa pausa de verão, volto a escrever sobre o Universo e tudo mais.

Um dos assuntos mais compartilhados nos últimos dias nas redes sociais é o eclipse lunar penumbral que acontece na noite de hoje, 10 de fevereiro.

Eu sou fã de eclipses lunares, mas é difícil de ficar empolgado com o evento desta noite. Ao contrário dos eclipses totais, onde pode-se acompanhar nitidamente a sombra da Terra encobrindo a Lua, num eclipse penumbral o efeito é quase imperceptível visualmente.

Um eclipse penumbral ocorre quando a Lua passa pela região mais externa do cone da sombra que a Terra projeta no espaço, a penumbra. Nessa região, apenas uma parte do disco solar está oculta pela Terra, o que faz com que os raios solares ainda incidam sobre a superfície lunar, que permanece iluminada e brilhante. A animação abaixo, feita por Larry Koehn, mostra de maneira acelerada o que acontecerá no céu esta noite.


Cadê a sombra?

Mesmo observadores experientes têm dificuldade em identificar um eclipse penumbral. A olho nu, é possível observar apenas um leve escurecimento de uma pequena fração do disco lunar.

O último eclipse lunar penumbral visível do Brasil aconteceu em outubro de 2013. Naquela ocasião, eu consegui registrar o momento máximo do eclipse, e pode-se ver que é quase igual a uma Lua Cheia.

Eclipse Lunar Penumbral de 18/10/2013

Eclipse Lunar Penumbral de 18/10/2013 (Crédito: G. Rojas)

Na imagem acima, percebe-se que o a região sudeste do limbo lunar (acima e à direita na foto) aparece ligeiramente mais escura. Um observador cuidadoso poderá notar este efeito, mas apenas no período próximo do eclipse máximo.

Outras características que podem ser reparadas são que a Lua aparece menos brilhante que uma Lua cheia normal, e que os detalhes das crateras e mares aparentam ser menos nítidos, com aparência “lavada”. Fora isso, há muito pouco o que salta aos olhos durante os eclipses penumbrais.

Tome nota dos horários do fenômeno: acontece na noite de hoje (sexta 10/2), das 20h34 até as 0h53 do sábado, com máximo às 22h43 (horário brasileiro de Verão). Poderá ser acompanhado de todo o Brasil, bastando a Lua estar visível nos horários acima.

Para os apreciadores dos eclipses totais da Lua, é necessário um pouco mais de paciência. O próximo eclipse lunar total visível do Brasil acontece daqui a 17 meses, em 27 de Julho de 2018.

Um cometa invisível

Outro assunto que tem sido divulgado com alarde desnecessário é a passagem do cometa 45P/Honda-Mrkos-Pajdusakova. De fato, o cometa fará sua maior aproximação da Terra neste final de semana, quando passará a menos de 12 milhões de km daqui.

Mesmo com essa aproximação máxima, o 45P está longe de iluminar o céu como algumas pessoas imaginam. É um objeto tênue, invisível a olho nu, que só pode ser visualizado com telescópios. Sua aparência na ocular é parecida com a de um aglomerado globular: uma fraca nebulosidade difusa com um leve tom esverdeado.

Cometa 45P/Honda-Mrkos-Padjusakova fotografado em 5 de Fevereiro de 2017 (Crédito: M. Buechner)

Cometa 45P/Honda-Mrkos-Padjusakova fotografado em 5 de Fevereiro de 2017 (Crédito: M. Buechner)

Os cometas estão entre os objetos mais difíceis de se observar no céu. Muitas vezes apresentam comportamento imprevisível, mudando de brilho repentinamente. De fato, os últimos relatos do 45P indicam que ele perdeu sua estrutura de cauda, o que pode diminuir seu brilho ainda mais.

Sendo assim, encontrar esse cometa no céu é uma tarefa ao alcance apenas de astrônomos amadores mais experientes, capazes de ler uma carta celeste detalhada e acostumados a encontrar objetos fracos ao telescópio. Não bastasse isso, é necessário um céu bastante escuro – não tente encontrar um cometa no meio das luzes da cidade.

Na seção “Para saber mais” você encontra um link para a carta celeste que pode ser usada para localizar o 45P.

Vendendo o invisível

A ampla divulgação na imprensa e nas redes sociais destes dois fenêmenos (eclipse penumbral e um cometa invisível a olho nu) suscita uma reflexão. Os astrônomos adoram falar sobre o céu e estimular as pessoas a olharem para cima. Porém, prometer uma experiência que não corresponde à realidade pode ter um efeito inverso, frustrando o iniciante e o afastando de futuras observações astronômicas.

Infelizmente nesse final de semana teremos justamente isso: pessoas que irão olhar para o céu e se frustrarão com o que conseguirem observar. Elas não verão um eclipse inesquecível, e certamente não encontrarão nenhum cometa com cauda gigante no céu. Perdermos potenciais apaixonados pela astronomia em troca de alguns likes nas redes sociais.

Medalhas para o Brasil

A ausência prolongada de posts no blog tem uma excelente justificativa: no final do ano passado estive na Índia acompanhando a equipe de estudantes de ensino médio que representou o Brasil na X Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (IOAA).

A X IOAA foi realizada na cidade de Bhubaneswar, no leste da Índia, e reuniu 221 estudantes 37 países diferentes. O Brasil foi representado por Gabriel Cawamura, Giancarlo Pereira, Lucas Vilanova, Pedro Seber e Vitor Gomes, todos do estado de São Paulo.

Nossos estudantes conseguiram uma inédita medalha de bronze na competição em grupo, resolvendo um complicado problema de manobra orbital da sonda Voyager 2. Foi a segunda vez que o Brasil conseguiu uma medalha na competição em grupo; em 2014 ganhamos prata na Romênia.

Medalhistas brasileiros da X Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (Crédito: G. Rojas)

Medalhistas brasileiros da X Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica (Crédito: G. Rojas)

Os estudantes ainda receberam duas medalhas de bronze (Giancarlo e Pedro), e três menções honrosas na competição individual. Foi um final feliz de um longo processo de seleção e estudos que durou 19 meses, desde a aplicação da prova da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) no ano anterior, passando por uma seleção online, uma prova presencial, treinamentos no observatório Abrahão de Moraes (em Valinhos/SP), e meses de estudos intensivos realizados no colégio ETAPA de São Paulo.

O Brasil participa da IOAA desde a sua primeira edição, numa ação promovida pela OBA com apoio da Sociedade Astronômica Brasileira e Agência Espacial Brasileira. No próximo mês estaremos selecionando os alunos que representarão o país nas próximas olimpíadas: a XI IOAA na Tailândia e a IX Olimpíada Latino Americana de Astronomia e Astronáutica, que será realizada no Chile.

Para o resto da semana

A semana não acabou. Ainda dá tempo de conferir o videocast Céu da Semana, produzido pela Univesp TV em parceria com o Laboratório Aberto de Interatividade da UFSCar.

No episódio desta semana falo sobre a constelação de Cassiopeia, pouco conhecida dos brasileiros mas que guarda alguns interessantes objetos astronômicos. Confira todos os 325 episódios da série neste link.

Semana que vem volto com mais novidades sobre o Universo. Até lá e céus limpos a todos!

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