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Olhando para a Lua
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Gustavo Rojas

30 Novembro 2016 | 16h21

Na semana passada, iniciei uma série de artigos sobre observações astronômicas sem telescópio. De todos os objetos celestes, aquele que conseguimos observar com mais detalhes é nosso satélite natural. Além dos eclipses, que foram assunto da coluna anterior, existem outros belos fenômenos envolvendo a Lua que podem ser apreciados sem o auxílio de instrumentos ópticos, e que estão ao alcance de todos.

Sob a luz da Terra

A Lua crescente se pondo no horizonte oeste, com a luz cinérea iluminando seu lado escuro. É possível ver os planetas Mercúrio (ao centro) e Vênus (no alto). Crédito: ESO/B. Tafreshi (twanight.org)

A Lua crescente se pondo no horizonte oeste, com a luz cinérea iluminando seu lado escuro. É possível ver os planetas Mercúrio (ao centro) e Vênus (no alto). Crédito: ESO/B. Tafreshi (twanight.org)

Uma das mais belas visões lunares pode ser obtida alguns dias antes e depois da Lua Nova. Nessas épocas, o fino crescente lunar pode ser observado próximo ao horizonte durante o crepúsculo, às vezes acompanhado de algum planeta (geralmente Mercúrio ou Vênus).

Não é difícil perceber o contorno do lado oposto ao crescente. Olhando com mais atenção, podemos até mesmo enxergar alguns detalhes do lado não iluminado pelo Sol. Chamamos a tênue luz que banha a escuridão lunar de luz cinérea.

Como isso é possível? O misterioso fenômeno intrigou os astrônomos da antiguidade até a Renascença, quando o polímata italiano Leonardo Da Vinci apresentou a explicação em sua célebre obra Codex Leicester.

Leonardo da Vinci resolveu o enigma da luz cinérea em 1510 (Wikimedia Commons).

Leonardo da Vinci resolveu o enigma da luz cinérea em 1510 (crédito: Wikimedia Commons).

Da Vinci acreditava que o intenso brilho do luar era causado por vastos oceanos que recobririam a superfície da Lua. Aplicando o mesmo raciocínio, concluiu que os oceanos da Terra também deveriam refletir intensamente os raios luminosos do Sol, banhando a Lua com uma luz azulada – a luz cinérea.

Hoje sabemos que a Lua não possui os oceanos imaginados por Da Vinci, mas sua explicação mesmo assim permanece correta. Além de proporcionar um belíssimo espetáculo visual ao crepúsculo, a luz cinérea também carrega consigo informações sobre nosso planeta.

Em 2012, pesquisadores observaram a Lua com o Very Large Telescope no Chile e encontraram assinaturas inconfundíveis da atividade biológica em nosso planeta. A mesma técnica será utilizada num futuro próximo para tentar identificar sinais de vida em planetas extrasolares.

Uma foto de longa exposição revela detalhes da Lua iluminados pela luz cinérea (crédito: G. Rojas).

Uma foto de longa exposição revela detalhes da Lua iluminados pela luz cinérea (crédito: G. Rojas).

Esta semana é uma oportunidade excelente para tentar avistar a luz cinérea. As melhores chances serão no comecinho das noites de 1, 2 e 3 de dezembro, quando mais um ciclo lunar começa. Se você gosta de fotografar e possui uma lente teleobjetiva com pelo menos 200mm dá para fazer belos registros.

Em plena luz

Se as noites perto da Lua Nova são ideais para observar a luz cinérea, a Lua quase cheia é a melhor para testar quão aguçada é sua visão.

Geralmente os astrônomos desprezam a Lua Cheia. O luar intenso torna as noites mais claras e atrapalha a observação da maior parte dos alvos astronômicos. Até mesmo os aficionados por observação lunar deixam de observar nosso satélite na fase Cheia. Os relevos lunares como crateras e montanhas ficam iluminados diretamente, projetando pouca ou nenhuma sombra, a principal responsável pela dramaticidade das imagens lunares.

A aparência das crateras muda dramaticamente com as fases lunares (Crédito: NASA /Arizona State University)

A aparência das crateras muda dramaticamente com as fases lunares (Crédito: NASA /Arizona State University).

Mas para quem não tem, ou não quer usar um telescópio, a Lua Cheia pode ser até bastante interessante. É quando ela está mais brilhante que algumas das maiores estruturas lunares ficam mais fáceis de serem observadas sem instrumentos.

Mares de pedra

Os relevos lunares mais evidentes são os mares lunares. Apesar do nome, eles não contêm água, mas sim basalto. Os mares são resultado de derramamentos gigantescos de lavas, ocorridos no início da história da Lua, há bilhões de anos.

Os mares se destacam para observador terrestre pois refletem menos luz que o restante do terreno lunar, graças ao maior conteúdo de ferro das lavas basálticas. Como consequência, parecem mais escuros que as demais regiões.

O módulo lunar Eagle sobre o Mar de Smyth. Ao fundo, nosso planeta. Crédito: NASA.

O módulo lunar Eagle sobre o Mar de Smyth. Ao fundo, nosso planeta.
Crédito: NASA.

O Mar das Crises (Mare Crisium) é talvez o mais conspícuo de todos os mares lunares, isolado no canto noroeste da Lua. Outros mares de fácil identificação são o Mar da Tranquilidade (Mare Tranquilitatis, onde a Apollo 11 pousou), Mar da Serenidade (Mare Serenitatis), e o Mar das Chuvas (Mare Imbrium, local de alunissagem da Apollo 17).

Crateras por todos os lados

Existem centenas de milhares de crateras na Lua, mas somente algumas podem ser observadas a olho nu da Terra. Não é seu tamanho que determina isso, mas sim o brilho do material no fundo e ao seu redor.

A cratera Tycho, próxima ao pólo Sul lunar, é talvez a mais evidente. Nas noites próximas da Lua Cheia é possível ver não somente Tycho, mas também o impressionante sistema de raios nela centrado, que se estende por centenas de quilômetros.

Contrastando com o solo escuro do Oceano das Tempestades (Oceanus Procellarum) encontramos outras três grandes e brilhantes crateras: Copernicus, Kepler e Aristarchus. Todas são possíveis de serem identificadas a olho nu por um observador cuidadoso nas noites em que a Lua está mais iluminada. Aproveite a próxima Lua Cheia em 13 de dezembro para tentar localizar estes interessantes relevos lunares, usando o mapinha abaixo.

Localização dos mares (em amarelo) e crateras (em branco) mais fáceis de serem identificados a olho nu durante a Lua Cheia (Crédito: G. Rojas).

Para o resto da semana …

O episódio 315 do Céu da Semana fala sobre um dos sistemas estelares mais interessantes na nossa vizinhança cósmica. Fomalhaut é uma estrela bastante jovem (formada há algumas centenas de milhões de anos) e que apresenta um disco ao seu redor.

Nesse disco foi identificada a existência de pelo menos um planeta, chamado Fomalhaut b, ou simplesmente Dagon. É um planeta gigante, com aproximadamente duas vezes a massa de Júpiter e que leva 1700 anos para completar uma volta em torno de Fomalhaut em uma órbita bastante excêntrica.

O episódio traz também uma curiosidade: uma ligação entre essa estrela distante 25 anos luz de nós e a obra do escritor J. R. R. Tolkien. Assista! Até a próxima semana e céus limpos a todos!

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