Uma Lua (quase) como todas as outras

Uma Lua (quase) como todas as outras

Afinal de contas, será que a "Super Lua" é tão especial assim?

Gustavo Rojas

14 Novembro 2016 | 13h34

O primeiro alvo deste telescópio não poderia ser outro: nosso vizinho cósmico mais próximo, a Lua.

O assunto do momento é a “Super-Lua” de hoje, 14 de Novembro, anunciada como a maior em quase 70 anos. Mas afinal, essa Lua Cheia é tão especial e imperdível assim?

Super Lua de 3 de Agosto de 2012 nascendo atrás das árvores do campus da UFSCar.

Super Lua de 3/8/2012 nascendo atrás das árvores do campus da UFSCar (crédito: G. Rojas).

Assim como em outros fenômenos astronômicos envolvendo a Lua (“Lua Azul”, “Lua Negra”, “Lua Sangrenta”, etc), temos aqui uma superexposição de um acontecimento corriqueiro – no caso, a ocorrência da Lua Cheia poucas horas depois da sua maior aproximação com a Terra.


Nosso satélite natural fará realmente uma passagem mais próxima que o normal às 9:24 da manhã (horário brasileiro de verão) dessa segunda-feira. Seu centro estará a 356511 km do centro da Terra, a menor distância desde 26/1/1948, quando essa distância foi de 356462 km.

Mesmo com essa passagem próxima, a Lua Cheia dessa segunda-feira será bastante ordinária para nossos olhos, embora continue linda e inspiradora.

Super? Quem disse?

Para desgosto dos meus colegas astrônomos, o termo “Super Lua” foi cunhado pelo astrólogo americano Richard Nolle em 1979. Ele reuniu duas características marcantes do ciclo lunar: a Lua Cheia (posição em que a Lua, a Terra e o Sol estão alinhados e a face da Lua virada para a Terra está totalmente iluminada) e o Perigeu Lunar (o ponto da órbita da Lua que se aproxima mais da Terra).

Por algum motivo desconhecido, Nolle determinou arbitrariamente que uma Lua Cheia é “Super” quando ela acontece a uma distância de pelo menos 90%  da distância do perigeu numa dada órbita.

Uma complicação desta definição é que a distância do perigeu varia de órbita para órbita, podendo flutuar desde 356355 km até 370399 km. Pelo menos foi isso que o astrônomo Fred Espanak pacientemente calculou para um período de 5 mil anos. Com base nesses dados, Espanak propôs uma distância de 367607 km para uma “Super Lua” – ainda um critério puramente arbitrário, sem justificativa convincente para o fator de 90%.

Com a palavra, os astrônomos

Os astrônomos conhecem as “Super Luas” há muito tempo, com um nome diferente. O termo científico para esse acontecimento é Sizígia no Perigeu.

Sizígia é uma palavra de origem grega que quer dizer “amarrado”, e em astronomia é usada para indicar a configuração em que três ou mais astros estão dispostos em uma linha reta. Todas as Luas Cheias e Novas são sizígias envolvendo a Lua, a Terra e o Sol. Como Sizígia é uma palavra meio difícil de escrever e pronunciar, os astrônomos gostam mais de usar Lua Cheia no Perigeu.

A rigor, é ridiculamente improvável termos uma Lua Cheia no Perigeu. Isso porque os períodos entre duas Luas Cheias e dois Perigeus são diferentes. Seria uma coincidência fantástica ter os dois fenômenos simultaneamente.

Lua Cheia de 31/8/2012 (crédito: G. Rojas).

Lua Cheia de 31/8/2012 (crédito: G. Rojas).

O intervalo entre duas Luas Cheias (chamada lunação ou mês sinódico) é de aproximadamente 29 dias e meio, e que deu origem aos meses de 30 dias dos calendários. Já o intervalo entre duas passagens pelo perigeu (chamado mês anomalístico) é quase dois dias mais curto. Como resultado, cada Lua Cheia acontece aproximadamente 2 dias e meio mais tarde com relação à passagem pelo perigeu, num padrão se repete a cada 413 dias.

Mesmo com esse descompasso, as Luas Cheias no Perigeu são bastante frequentes, como neste ano em que acontecem 4 vezes (16/9, 16/10, 14/11 e 13/12).

Bombando na web

Curiosamente, a mídia ignorou as Luas Cheias no Perigeu até 2011. Foi nesse ano que os primeiras matérias sobre a “Super Lua” começaram a pipocar por aí  – pelo menos é o que o Google Trends indica.  A coisa piorou em 2012 (aquele ano em que o mundo deveria ter acabado) e de lá pra cá passou a ser praticamente matéria obrigatória nos portais de notícias.

Pesquisas na web sobre SuperLua desde 2004 (fonte: Google Trends)

Pesquisas na web sobre SuperLua desde 2004 (fonte: Google Trends).

O fato de que o perigeu desta segunda-feira será o mais próximo até 2034 só amplificou a expectativa. Uma das informações mais citadas nas reportagens é de que a “Super Lua” de hoje será 14% maior e 30% mais brilhante que o normal. Porém esses números são obtidos ao compararmos a Lua Cheia no Perigeu com a no Apogeu (quando a Lua está mais afastada da Terra). Se compararmos a “Super Lua” com uma Lua Cheia normal, ela não parece tão super assim: é só 8% maior e 15% mais brilhante.

Mas ela parece maior!

Quase todas as fotos espetaculares que tiradas nas ocasiões das Super Luas são compostas enquadrando a Lua com algum objeto em primeiro plano no horizonte. E todo mundo que já viu a Lua Cheia perto do horizonte tem a impressão de que ela é maior. Essa chamada Ilusão Lunar é um assunto que até hoje não foi satisfatoriamente explicado.

O fato é que temos tendência a julgar os objetos distantes como maiores quando eles são avistados no horizonte. Não será diferente com a Lua de hoje. Por isso, se você quiser ter uma visão memorável da Lua Cheia no Perigeu, certifique-se de que sua observação será no horário que ela está aparecendo no céu. Veja na tabela abaixo os horários aproximados do nascer da Lua em algumas capitais brasileiras (todos os horários estão no Horário Brasileiro de Verão, GMT-2).

Horários do nascer da Lua em 14/11/2016 (Hora de Brasília)
Belém                    19h25 Florianópolis       19h55 Recife                    18h35
Belo Horizonte    19h25 Fortaleza              18h45 Rio de Janeiro     19h30
Brasília                 19h40 Manaus                 20h15 Salvador               18h55
Campo Grande   20h10 Natal                     18h30 São Luís                19h10
Cuiabá                  20h10 Porto Alegre        20h10 São Paulo             19h45
Curitiba                 19h55 Porto Velho         20h35 Vitória                   19h10

Malditas nuvens!

Está chovendo no Sudeste, e muita gente deve perder a oportunidade de olhar a Lua Cheia. Será mesmo algo tão imperdível assim?

Não se desespere. A Lua que o mundo todo verá no céu nessa segunda-feira será indistinguível das outras Luas Cheias no Perigeu. Nossos olhos possuem uma capacidade de definição de tamanho (resolução angular) de aproximadamente 1 minuto de arco –  equivalente a uma moeda de um real a 92,8 metros de distância. Como comparação, a Lua Cheia “normal” tem um diâmetro angular de 30 minutos de arco (ou a mesma moeda de um real a 3 metros de distância).

Portanto, qualquer mudança no tamanho da Lua menor que 1 minuto de arco vai ser imperceptível, mesmo para a visão mais aguçada do planeta. A boa notícia é que a próxima Lua Cheia em 13 de dezembro vai ter praticamente o mesmo tamanho da de hoje. Confira a tabela abaixo com as próximas Luas Cheias no Perigeu, e programe-se para observar. Eu garanto que você não perceberá a diferença de uma para a outra!

Próximas Luas Cheias no Perigeu
* Horário Brasileiro de Verão (GMT-2).  Tabela cortesia de Fred Espanak, www.Astropixels.com
Data Horário* Distância (km) Diâmetro angular (minutos de arco)
14/11/16 11:52 356523 33,52
13/12/16 22:06 359450 33,24
12/01/17 09:34 366880 32,57
04/11/17 03:23 364004 32,83
03/12/17 13:47 357987 33,38
02/01/18 02:24 356604 33,51

Para o resto da semana …

Você já conhece o Céu da Semana? É um videocast semanal que apresento na Univesp TV de São Paulo, e que traz sempre um assunto diferente de astronomia, além de dicas de observações de planetas. A “Super Lua” foi assunto de um episódio veiculado em 2013.

Se você gostar, temos mais de 300 episódios produzidos, que podem ser assistidos nos canais da Univesp TV e do Laboratório Aberto de Interatividade da UFSCar.

O Céu da Semana vai ser figurinha carimbada nesse blog, e no próximo texto irei falar um pouco mais sobre este projeto. Até lá e céus limpos a todos!