Conceptual Image Lab - NASA/Goddard Space Flight Center
Conceptual Image Lab - NASA/Goddard Space Flight Center

22 mil toneladas de fósforo do Saara fertilizam a Amazônia

Cientistas calcularam quantidade de poeira transportada do deserto para a floresta; nutrientes interferem no regime de chuvas amazônico

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2015 | 17h07

Em 2009, um grupo internacional de cientistas, com participação do brasileiro Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, descobriu que a floresta Amazônica recebe, todos os anos, milhões de toneladas de poeira do deserto do Saara. A poeira, rica em nutrientes como fósforo, atravessa o Oceano Atlântico e tem grande importância para a fertilização do solo e para o regime de chuvas amazônico.

Agora, pela primeira vez, pesquisadores fizeram um estimativa precisa de quanto fósforo faz essa travessia transatlântica. O novo estudo, publicado no Geophysical Research Letters na terça-feira, 24, concluiu que cerca de 22 mil toneladas por ano do nutriente amazônico é proveniente do Saara - uma quantia semelhante à que a floresta perde anualmente com as chuvas e cheias.

Esse fósforo corresponde a apenas 0,08% dos 27,7 milhões de toneladas de poeira do Saara que é depositada na Amazônia a cada ano. A descoberta é parte de um esforço de pesquisa para entender o papel da poeira no meio ambiente e seus efeitos no clima local e global.

"Sabemos que a poeira é importante de várias maneiras. Ela é um componente essencial do sistema terrestre. A poeira afeta o clima e, ao mesmo tempo, as mudanças climáticas afetam a poeira", disse o autor principal do estudo, Hongbin Yu, do Centro Interdisciplinar de Ciências do Sistema Terrestre (ESSIC, na sigla em inglês), da Universidade de Maryland (Estados Unidos) e do Centro Goddard de Voo Espacial, da Nasa.

A poeira que vem da depressão de Bodélé, no Chade, tem interesse especial para os cientistas. Esse antigo leito de lago contém imensos depósitos de microorganismos mortos, que são carregados com fósforo. O solo da Amazônia, por sua vez, é pobre em fósforo e outros nutrientes críticos, que podem ser "lavados" e eliminados com as frequentes chuvas fortes sobre a Bacia Amazônica. Assim, todo o ecossistema amazônico depende da poeira do Saara para reabastecer suas reservas de nutrientes perdidos.

A equipe de Yu analisou as estimativas de transporte de poeira com base em dados coletados pelo satélite Calipso, da Nasa, entre 2007 e 2013. O grupo se concentrou na poeira do Saara que é transportada por cima do Oceano Atlântico até a América do Sul e mar do Caribe - trata-se do maior transporte de poeira do planeta.

Os cientistas estimaram o conteúdo de fósforo da poeira do Saara estudando amostras da depressão de Bodélé e de estações científicas situadas em Barbados, no Caribe e em Miami, nos Estados Unidos. Eles usaram essa estimativa para calcular quanto fósforo é depositado na Bacia Amazônica. 

Mais conteúdo sobre:
Saara Floresta Amazônica Amazônia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.