5 mil embriões já foram doados para pesquisa no País

Número consta de relatório da Anvisa para os últimos sete anos; mas agência federal não sabe informar o que foi feito com eles

HERTON ESCOBAR, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2014 | 02h03

SÃO PAULO - Mais de 5 mil embriões humanos foram doados para pesquisa com células-tronco embrionárias (CTEs) no Brasil nos últimos sete anos, segundo um relatório divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nenhum especialista ouvido pelo Estado nem a própria Anvisa, porém, soube dizer com certeza para onde foram todos esses embriões ou o que foi feito deles.

Só no ano passado, 1.231 embriões teriam sido doados por clínicas de fertilidade para projetos de pesquisa com CTEs em todo o País; a maior parte nos Estados de São Paulo (913), Rio Grande do Sul (91) e Rio de Janeiro (87). Os números constam do sétimo relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), que é compilado anualmente pela Anvisa com base em informações fornecidas pelas clínicas de reprodução humana.

Desde 2007, segundo esse acompanhamento, 5.131 embriões teriam sido doados. Um número muito maior do que seria esperado com base no volume de pesquisas com células-tronco embrionárias humanas realizadas no Brasil, que é extremamente pequeno. "Seguramente, esses números do SisEmbrio não são corretos", avalia Edson Borges, médico da clínica Fertility e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. "É um relatório importante, mas que precisa ser melhorado."

Procurada pela reportagem, a Anvisa não soube informar o que está sendo feito com os embriões nem explicar a razão de as estatísticas de doação variarem tanto de um ano para outro. Em 2010, por exemplo, o número de embriões doados no País foi de 748. No ano seguinte, aumentou para 1.322. Depois, caiu para 315. E agora aumentou de novo, para 1.231.

"Não tenho nenhuma hipótese para explicar isso", disse a especialista em vigilância sanitária Renata Parca, responsável pela elaboração do relatório. Segundo ela, a Anvisa apenas compila os dados que lhe são enviados pelas clínicas de fertilidade, e cabe às vigilâncias sanitárias locais fazer a verificação dos dados junto a esses serviços.

Uma explicação, levantada pela reportagem, seria haver uma falha de comunicação entre a Anvisa e os serviços de reprodução humana, no que diz respeito à interpretação dos dados de doação. A agência informou ao Estado que os números do relatório representam embriões "que já foram utilizados em pesquisa". Na interpretação de algumas clínicas, porém, eles representam embriões cujos donos assinaram um consentimento de doação - o que não significa que eles tenham sido doados na prática.

"Os casais assinam a doação e nós informamos a Anvisa, mas isso não quer dizer que os embriões saíram da clínica. Na prática, eles continuam congelados", diz o médico Eduardo Motta, da Huntington Medicina Reprodutiva, em São Paulo. A demanda de embriões humanos para pesquisa no Brasil, segundo ele, é "ínfima".

Uma hipótese mais preocupante seria a possibilidade de clínicas de fertilidade estarem reportando como doados embriões que, na verdade, foram descartados. "Pode até ser que isso aconteça por má fé, mas as vigilâncias locais podem detectar facilmente esse tipo de problema", avalia Renata. "Isso é investigado", garantiu ela.

No Rio Grande do Sul, a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, Mariangela Badalotti, diz que é "extremamente incomum" os casais de sua clínica (Fertilitat) optarem por doar embriões excedentes para pesquisa. Ela também não soube explicar as estatísticas de doação do SisEmbrio.

USP. A cientista Lygia Pereira, da Universidade de São Paulo, uma das únicas no Brasil que desenvolve pesquisas com CTEs humanas, disse ter recebido cerca de 250 embriões em 2013 - menos de 30% dos embriões que constam como doados no SisEmbrio para o Estado de São Paulo naquele ano. "Não conheço mais ninguém que esteja desenvolvendo linhagens desse tipo de célula no País", diz ela.

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