'A árvore da vida não está morta', afirma biólogo

Para o especialista da USP Diogo Meyer, seleção natural é capaz de explicar as características dos seres vivos

Diogo Meyer, professor do Instituto de Biociências da USP, especialista em genética e evolução,

25 Abril 2009 | 20h47

A teoria da evolução afirma que todos os seres vivos resultam de um processo de descendência com modificação, e que a seleção natural é um explicação sobre como as espécies mudam ao longo do tempo. Milhares de cientistas investigam os seres vivos, e até hoje nenhum achado colocou em xeque essas ideias. A árvore da vida não está morta, e a seleção natural - que não é um processo "aleatório" - é sim capaz de explicar características dos seres vivos. Quando uma teoria científica tão sólida é posta em dúvida temos que ficar atentos: o ataque vai para além da biologia, e atinge o modo científico de investigar o mundo natural.   Veja também:  ''Origem de Deus é questão absurda''  'Ciência e religião não devem se misturar', diz biólogo dos EUA  Mais da metade dos britânicos acredita no criacionismo  30% dos docentes ingleses são a favor do criacionismo  Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências   Ciência e fé   Conciliar uma visão do mundo em que há espaço para eventos sobrenaturais com uma visão científica do mundo não é tarefa fácil. Porém, não é desconhecido que há vários cientistas que são religiosos. Há muitas formas de conciliar a fé com a atividade científica (para um bela discussão desse tema, veja o livro de Newton Freire-Maia, "A verdade da ciência e outras verdades, Editora da UNESP, para a visão de mundo de um evolucionista que acreditava em Deus). Mas vejo um problema sério quando explicações sobrenaturais são dadas para assuntos que a ciência é perfeitamente capaz de explicar.   Quando se indaga se a ciência é ou não capaz "refutar" ou "provar" a existência de Deus entramos num terreno em que não há concordância entre cientistas e filósofos. Porém, quando nos perguntamos se a metáfora da árvore da vida está morta, ou se a evolução pode explicar a origem de seres vivos com aparência de terem sido "desenhados", há plena concordância entre cientistas: a árvore da vida não está morta e a seleção é capaz de explicar a origem de organismos complexos, com aparência de terem sido planejados. A Teoria Evolutiva oferece uma visão de mundo tão rica e tão solidamente apoiada por estudos teóricos e empíricos, que não podemos abrir mão dela. Nos parágrafos a seguir vou discutir alguns temas tratados na entrevista de Lennox. Tentarei corrigir alguns equívocos, e argumentarei que estudar o mundo natural sob a ótica evolutiva é uma empreitada fascinante, capaz de trazer respostas importantes sobre os seres vivos em geral, e também sobre particularidades da nossa espécie.   A evolução é um processo aleatório?   É comum se afirmar - como ocorre na entrevista de Lennox - que um processo "aleatório e despropositado" não poderia gerar os seres vivos que conhecemos. Mas a evolução por seleção natural não é um processo aleatório. A seleção natural ocorre pois alguns indivíduos numa espécie têm características que aumentam sua chance de sobreviver e deixar descendentes, e transmitem essa característica à sua prole. Por exemplo, se os mais rápidos se alimentam melhor, poderão sobreviver mais e ter mais filhos. Se a condição de "ser rápido" for herdável (isto é, se for transmitida de pais para filhos), as gerações subsequentes terão cada vez mais indivíduos rápidos, pois são os mais rápidos que estão tendo mais filhos. Assim, uma característica da espécie terá mudado ao longo do tempo. O que acabamos de descrever não é um processo aleatório: alguns sobrevivem mais do que outros pois possuem uma característica que os favorece. Se fosse um processo aleatório, todos os indivíduos, rápidos ou lentos, teriam chances iguais de sobreviver, e não haveria razão para imaginar que as gerações subsequentes teriam cada vez mais indivíduos rápidos. Dizer que a evolução é um processo aleatório é ignorar como funciona a seleção natural, que é um processo não aleatório.   A seleção natural não é aleatória, mas devemos lembrar que a evolução não possui "metas" ou "objetivos". A seleção natural atua sobre a variação existente (por exemplo, animais de diferentes velocidades). A variação surge em decorrência de mutações, que acontecem sem planejamento ou intenção de mudar a espécie de um modo ou outro. A seleção natural poderá tornar essas mutações mais ou menos comuns, dependendo do efeito que elas tiverem.   A natureza não aleatória da seleção natural está ricamente documentada. Sabemos que características complexas como os nossos olhos podem ter surgido através de várias etapas, com várias mudanças ocorrendo uma após a outra, ao longo de milhares de anos, em decorrência da ação da seleção natural, que favoreceu uma acuidade visual cada vez maior.   A origem da vida   Darwin evitou discutir a origem da vida em si, e muitos evolucionistas voltam sua atenção à forma como a vida se modificou após seu surgimento, sem se ater à origem. Mas, diferentemente do que afirma Lennox, há sim um modo importante em que a evolução ajuda a explicar a origem da vida. É difícil falar em vida sem pensar em evolução. As entidades que chamamos de vivas são conectadas umas as outras por laços de ancestralidade, e remetem a um ancestral comum. É a evolução que explica como um ancestral de diversificou, e originou tantas formas de vida. Dessa forma, a transição entre não-vivo e vivo, para muitos cientistas, é justamente a transição entre "não ser capaz de evoluir" e "ser capaz de evoluir".   A árvore da vida   A árvore da vida é uma das metáforas mais poderosas da evolução. Ela sintetiza a ideia de que diferentes espécies descendem de ancestrais comuns (evento representado pelas bifurcações da árvore). Do mesmo modo que nós buscamos reconstruir genealogias de nossas famílias, entrevistando parentes e vasculhando certidões de nascimento, os cientistas buscam as relações de parentesco entre as espécies. E esses elos de parentesco podem ser expressos na forma de uma árvore. Os avanços nessas área foram imensos, e novas descobertas surgem quase diariamente. Um exemplo curioso: estudos feitos na última década revelaram que hipopótamos são parentes próximos dos cetáceos, grupo que inclui as baleias. Eis uma bifurcação surpreendente da árvore da vida, mostrando que a partir de um ancestral comum duas linhagens sofreram mudanças, levando uma a um modo de vida aquático, enquanto a outra permaneceu na terra firme.   Os estudos da árvore da vida também mostraram que ela não se limita a bifurcar: às vezes ocorrem fusões entre diferentes ramos da árvore. Essas fusões correspondem à mistura de material genético de duas espécies distintas. Há muitos exemplos desse tipo de evento: bactérias que trocam trechos de DNA com outras espécies de bactérias, pedaços de genomas de bactérias que foram parar em organismos unicelulares, entre outros. Dessa forma, a árvore da vida precisa ser vista como mais complexa do que antes: ela não só se ramifica, mas também se imbrica. Mas isso significa que ela está "morta"? De modo algum. A ideia mais importante associada á metáfora da árvore é a de que novas espécies surgem de espécies preexistentes, e que todas as espécies são aparentadas umas às outras. Esses princípios continuam valendo. Precisamos apenas ter a mente aberta para o fato da árvore ter fusões de ramos também.   A evolução explica o homem   O homem é um animal fascinante, com características morfológicas, comportamentais e capacidades mentais únicas entre os seres vivos. A evolução não nega essa realidade. Pelo contrário, ela nos oferece um caminho para entender tais características humanas. Diferentemente do que diz Lennox, a evolução pode sim explicar como se pode "chegar do animal ao humano". Todas as características humanas que tanto nos fascinam são objeto de investigação evolutiva: há teorias evolutivas muito sólidas sobre a origem do bipedalismo, sobre a expansão de nossos cérebros, sobre as bases biológicas de nossos comportamentos. Tais explicações evolutivas são baseadas na premissa de que nossa espécie, assim como qualquer outra, resulta de mudanças evolutivas que ocorreram a partir de espécies que viveram no passado. Não há nenhum estudo que coloque essa ideia em dúvida: os fósseis indicam nossa conexão com espécies de primatas, nossos genomas possuem 98% de similaridade ao de um chimpanzé, a maquinaria bioquímica que opera em nossas células é típica dos mamíferos, a família de animais à qual nós pertencemos. Na minha opinião, os elos entre humanos e outros animais não reduzem o encanto pela condição humana. Continuamos sendo uma "singularidade": só uma vez ocorreu o conjunto de mudanças que originou a nossa espécie. Mas essa transformação resultou do processo de evolução. Nada pode ser mais fascinante do que investigar essa transformação.   Boa ciência e preguiça intelectual   A biologia é uma das áreas da investigação científica que mais progride. Diariamente são feitas novas descobertas. Me parece uma pena ter que gastar tempo rebatendo afirmações que colocam em dúvida a árvore da vida, que tratam a seleção natural como aleatória, ou que questionam o fato do homem ser uma espécie que resulta do processo evolutivo.   Pense nas questões imensamente interessantes que estão abertas para nós: quão comum é a ocorrência fusões na árvore da vida? Que tipos de espécies costumam se "fundir"? Com qual velocidade a seleção natural é capaz de promover mudanças na natureza? Quais características de nossos comportamentos possuem bases biológicas e quais devem ser compreendidas à luz de nossa cultura? Há quanto tempo surgiu a nossa espécie? Eis alguns poucos exemplos de questões fascinantes, abertas à investigação biológica. Não é imensamente mais interessante abordar essas questões, do que ter que perder tempo defendendo a evolução de ataques sem base científica? Oferecendo um ensino de boa qualidade e usando os meios de comunicação para responder a questões dos leigos, a evolução poderá ser largamente compreendida por todos, e as questões fascinantes que a biologia ocuparão a nossa atenção.     Para concluir, quero enfatizar que julgo importantíssimos os esforços para desenvolver o ensino de ciências de um modo que seja respeitoso aos alunos que possuem fé. O próprio tema da relação entre ciência e religião é profundamente interessante, e possui facetas filosóficas que merecem atenção. Mas nada justifica o surgimento de uma "preguiça intelectual" que permeia argumentos anti-evolucionistas: diante das perguntas da biologia, parece mais fácil recorrer às respostas gerais e vazias, atribuindo a uma força sobrenatural aquilo que buscamos explicar. Se possuímos uma ciência bem desenvolvida para explicar esses exatos fenômenos, vamos estudá-la

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