'A colisão de partículas é apenas o começo'

Steve Myers, construtor do acelerados de partículas

Entrevista com

Jamil Chade,

02 Abril 2010 | 11h30

'Sem ciência não há progresso.' A frase é de Steve Myers, o construtor do acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), que inaugurou uma nova era na Física ao promover, na terça-feira, um choque de partículas para tentar reproduzir as condições existentes na origem do universo, na maior e mais cara experiência científica já feita. O irlandês de Belfast de 64 anos se formou em Energia Elétrica em 1968 como primeiro de sua turma. No ano seguinte foi contratado pelo Cern. Myers insiste em manter sua modéstia sobre os eventos. “Em alguns anos, o que ocorreu nesta semana estará certamente nos livros de história. Mas nem a humanidade nem eu vamos parar.” Dizendo-se aliviado, mas consciente de que o trabalho não acabou, Myers falou ao Estado enquanto verificava a cada minuto seu Blackberry com informações sobre o andamento das colisões. Como o senhor viveu os momentos da primeira colisão? Confesso que estava preocupado. Passamos a noite de segunda para terça-feira realizando testes e tudo parecia bem. Na parte final dos testes, os problemas surgiram. Quando finalmente tudo funcionou, foi um grande alívio. Apresentar a experiência ao vivo como fizemos exige pessoas muito confiantes e também muito loucas. O que representou o sucesso do experimento para a ciência? Muito e nada. Muito porque chegamos onde ninguém nunca havia chegado. Foram 20 anos de trabalho para alguns. No meu caso, é toda a minha vida. Mas posso dizer que o que fizemos ainda não representa nada porque sabemos que isso é apenas o começo. Será a partir dessa máquina que teremos acesso a números e dados que nos dirão coisas fascinantes sobre o universo e para onde vamos. Como o projeto mudará os livros de física nas escolas? Em alguns anos, o que ocorreu nesta semana estará certamente nos livros de história. Mas nem a humanidade nem eu vamos parar. Esse não será o último acelerador. Eu quero participar de outros. Espero que fique claro que sem ciência não há progresso. E sem progresso não há desenvolvimento. Processos foram instaurados na Justiça contra o Cern, alegando que o experimento poderia gerar um buraco negro gigante que engoliria a Terra. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Felizmente, nada (risos). A prova de que essas teorias não eram de verdade é que esta entrevista está sendo dada. O EXPERIMENTO O que é: Dois feixes de prótons circulam em direção oposta no túnel de 27 km do Grande Colisor de Hádrons. Eles colidem e liberam uma energia de 7 TeV. Os dados serão analisados. Em tese, o experimento vai permitir que cientistas descubram o que aconteceu um nanossegundo após o Big Bang, 13,7 bilhões de anos atrás.

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