Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

A origem da beleza

Ao definir a seleção sexual, Darwin explicou quase tudo o que é bonito na natureza

Fernando Reinach, *

06 Janeiro 2018 | 02h00

Darwin tinha um problema com a cauda dos pavões. Exuberante, a cauda que os machos abrem como um leque para encantar as fêmeas não parecia facilitar a vida do animal. Muito ao contrário: carregar aquela coisa enorme dificultava o voo e talvez tornasse o animal alvo fácil de predadores. Mas é linda, como são lindos os pássaros com suas cabeças vermelhas, azuis e amarelas. A exuberância de cores parecia a Darwin uma desvantagem, chamando a atenção e facilitando a localização da presa pelo predador. Como teriam surgido essas obras de arte?

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No livro On the Origin of Species, Darwin explicou como o meio ambiente e suas mudanças pressionam os animais a evoluírem. Funciona assim: imagine uma espécie de pássaro com um bico fino e longo, ótimo para comer sementes pequenas e frágeis. Imagine agora que as sementes pequenas e frágeis estejam acabando e ele seja forçado a comer sementes mais duras. Pássaros com bicos longos e finos terão dificuldade. Entretanto, se na população existirem animais com um bico um pouco mais curto e duro, esses animais vão levar vantagem e se alimentar melhor. Se alimentando melhor vão deixar mais filhotes e assim, ao longo de gerações, a população passará a ter bicos mais curtos e grossos. De maneira simplificada, esse é o processo de seleção natural. Uma mudança no ambiente (frutas mais duras) privilegia uma parte da população - os bicos curtos, dando a eles uma vantagem (comem mais facilmente), o que faz com que se reproduzam melhor (mais comida, sexo, filhotes) e leva, ao longo do tempo, a população a evoluir (mais bicos curtos). É fácil entender que, no processo de seleção natural, a pressão para a mudança nos seres vivos se origina no ambiente (frutas duras) e os animais selecionados são os melhor adaptados ao novo ambiente.

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Se a necessidade de se adaptar ao ambiente é o que move a evolução, e os sobreviventes são os melhor adaptados, como explicar o surgimento das caudas de pavão e pássaros coloridos, características que pareciam causar problemas aos animais. Era isso que incomodava Darwin.

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No seu segundo livro The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, ele propôs um segundo mecanismo, semelhante à seleção natural, para explicar esse fenômeno. É a seleção sexual. 

Nesse caso o fator que exerce a pressão não são as mudanças no meio ambiente, mas o processo da escolha do parceiro. Funciona assim: no caso do pavão, diversos machos dançam e abrem as caudas. A fêmea observa diversos machos e escolhe aquele que acha mais atraente, geralmente com a cauda mais vistosa. Assim, o macho com cauda vistosa é o que deixa mais descendentes. A fêmea seleciona caudas cada vez maiores. E a medida que as caudas aumentam as fêmeas ficam mais exigentes - e machos ficam cada vez mais vistosos. É um processo muito semelhante à seleção natural, mas a força que move a evolução é a preferência sexual. A espécie não se adapta ao meio ambiente, mas sim à preferência do parceiro sexual. É esse mecanismo que explica a cor dos pássaros, a juba do leão e muitos do que chamamos de caracteres sexuais secundários. Para Darwin, a seleção sexual ocorre em paralelo à seleção natural e explica o surgimento de grande parte das características que consideramos belas. 

Durante décadas os evolucionistas acreditaram que a seleção sexual era um caso particular da seleção natural. Argumentavam que as características selecionadas, como a cauda de um pavão, eram sinais indiretos de que esses animais eram mais adaptados ao meio ambiente (um pavão com cauda grande seria mais forte ou mais resistente às doenças). Mas nos últimos anos esta ocorrendo uma volta à ideia original de Darwin, de que a seleção sexual é um mecanismo independente, que ocorre em paralelo à seleção natural, e de certa forma é limitado pela seleção natural. Se as caudas do pavão ficassem tão grandes que atrapalhassem sua sobrevivência, a seleção natural pressionaria para diminuir a cauda. É por esse motivo que não existam pavões com caudas de 10 metros. Eles seriam os preferidos das fêmeas, mas teriam dificuldades para sobreviver.

Enquanto a seleção natural é responsável pela diversidade de seres vivos e sua capacidade de ocuparem os mais diversos ambientes, a seleção sexual é responsável por quase tudo que achamos bonito na natureza. Darwin também explicou a origem do belo.

MAIS INFORMAÇÕES: NO LIVRO THE EVOLUTION OF BEAUTY. HOW DARWIN’S FORGOTTEN THEORY OF MATE CHOISE SHAPES THE ANIMAL WORLD - AND US, DE RICHARD O. PRUM, ED. DOUBLEDAY (2017)

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

 

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