A renovação de Francisco na lógica do amor

O papa Francisco fez sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho) como um documento programático, que propõe a renovação de toda a Igreja Católica a partir da lógica do amor. Até aí não há novidade. Bento XVI procurou coisa parecida com seu primeiro documento, a Encíclica Deus caritas est (Deus é amor). A novidade reside em dizer que a defesa moralista dos valores cristãos e a falta de um empenho maior dos católicos para com os mais pobres ou mais distantes da fé são os grandes obstáculos para essa renovação.

Francisco Borba Ribeiro Neto, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2013 | 21h23

O maior dos valores cristãos, diz o papa, é o amor de Deus para conosco. Os demais valores estão em função disto. Se a defesa dos valores afasta a muitos do amor de Deus, ela não está sendo adequada. Não diz que os valores estão errados ou que devam ser mudados, mas tudo deve ser feito para que todos se sintam amados e acolhidos pela Igreja. E o amor não chega às pessoas como ideia abstrata, mas como gesto pessoal. Se os cristãos não demonstram o amor de Deus, com seu compromisso e suas ações, como os demais irão descobri-lo?

Francisco condena o aborto, mas também critica aqueles que não se comprometem com a dor da mãe que procura o aborto como solução, que não fazem gestos objetivos para acolhê-la e ajudá-la. Recupera o compromisso com a transformação social e a opção pelos pobres da Teologia da Libertação, mas com declarações de João Paulo II e Bento XVI - acusados de combatê-la - para deixar claro que o amor aos pobres e aos sofredores é um compromisso maior do cristianismo, do qual ninguém está liberado por nenhum argumento. Defende uma presença maior das conferências episcopais e a escuta também dos não católicos. Mas não como um processo sufragista ou uma ditadura da maioria. Defensor da inculturação do Evangelho em todas as realidades, sua globalização não tem por modelo a esfera, que anula todas as peculiaridades e destrói as arestas, mas o poliedro onde cada parte é respeitada em sua peculiaridade e integrada em um todo maior.

O Papa deixa claro que não está preocupado em defender a Igreja, mas em que todos vivam a alegria de se reconhecer amados de forma livre e gratuita. Porém, para isso é fundamental que cada um corra o risco de acreditar no amor de Deus e de amar e comprometer-se com os mais pobres e sofredores. Este é o metro com o qual avaliará o seu pontificado e espera que nós avaliemos nossas vidas.

* FRANCISCO BORBA RIBEIRO NETO É COORDENADOR DO NÚCLEO DE FÉ E CULTURA DA PUC-SP

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