Museu Nacional da Dinamarca
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Agricultoras europeias pacificaram guerreiros imigrantes das estepes

Estudo mostra em detalhes como os homens do povo nômade yamna, do norte do Cáucaso, entraram em massa no norte da Europa, há 5 mil anos e "se casaram" com as mulheres locais, definindo a demografia europeia no início da Idade do Bronze; elas aprenderam a enterrar seus mortos e, eles, a fazer cerveja

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2017 | 19h40

Há 5 mil anos, guerreiros nômades que viviam ao norte do Cáucaso - onde se dedicavam à criação de animais - promoveram uma migração em massa para Europa temperada, habitada por agricultores neolíticos. Pacificados pelas mulheres locais, os imigrantes adotaram seu estilo de vida sedentário e aprenderam com elas a cultivar alimentos e a produzir cerveja. 

Em troca, as mulhers locais aprenderam com os guerreiros das estepes o costume de enterrar os mortos, o uso de roupas de lã e a monogamia. Eles também levaram ao continente a língua indo-europeia - que deu origem a todas as línguas germânicas e latinas - e uma peste que devastou a região.

Essas são as principais conclusões de um novo estudo, publicado hoje na revista Antiquity e liderado pelos cientistas Kristian Kristiansen, da Universidade de Gotenburg (Suécia) e Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca).

O mesmo grupo de cientistas demonstrou, em 2015, que as grandes transformações demográficas e culturais ocorridas na Europa no Início da Idade do Bronze, por volta de 3.000 a.C, foram resultado da migração em massa dos povos yamna - guerreiros nômades que viviam nas estepes ao norte do Mar Negro e do Mar Cáspio. O continente era então habitado por agricultores neolíticos, que usavam a pedra polida como pricipal matéria-prima de seus artefatos.

De acordo com o estudo de 2015, a imigração do povo yamna e sua integração com os europeus neolíticos levaram à formação de uma nova cultura na Europa da Idade do Bronze - conhecida como "cultura da cerâmica cordada".

Agora, combinando dados de análises genéticas, químicas, alimentares, linguísticas e arqueológicas, o mesmo grupo de pesquisadores revelou detalhes sem precedentes do mecanismo de imigração e integração cultural do povo yamna na Europa.

A nova pesquisa revela que os imigrantes yamna que se espalharam pela Europa eram predominantemente homens e jovens que "se casaram" com as mulheres locais. A cultura do neolítico já estava decadente e o continente passava por um acentuado declínio populacional.

Pacificados, os yamna adotaram, na Europa, o estilo de vida sedentário das mulheres locais, aprendendo suas técnicas de agricultura. Eles levaram à região o idioma indo-europeu, produzindo as primeiras línguas proto-germânicas. O estudo também mostrou que a invasão dos nômades espalhou a peste na região, dizimando populações inteiras na Europa e na Ásia Central.

De acordo com os autores, o novo estudo é o primeiro a mostrar em detalhes como emergiu, a partir do encontro entre homens yamna e mulheres neolíticas, a chamada "cultura da cerâmica cordada".

"Somos agora, pela primeira vez, capazes de de combinar resultados relacionados à genética, aos isótopos de estrôncio relacionados à mobilidade e dieta, além da linguística histórica da modificação dos idiomas, para demonstrar como se deu o processo de integração depois que os yamna migraram das estepes", disse Kristiansen.

"Na nossa síntese, propomos que os migrantes Yamna eram predominantemente homens, que se casaram com mulheres das vizinhanças, que pertenciam a sociedades agricultoras da Idade da Pedra", explicou o cientista. 

Segundo Kristiansen, essas sociedades neolíticas da Europa se baseavam em grandes comunidades de fazendeiros, o que se refletia em seus rituais de sepultamento coletivo, que muitas vezes eram feitos em grandes câmaras de pedra, chamadas de megalitos. "Esse era um traço muito diferente das tradições dos imigrantes que chegavam", afirmou.

A origem dos Yamna. Os cientistas confirmarm que o povo Yamna teve origem nas estepes cáspias, onde viviam como pastores e criadores de animais nômades. Eles utilizavam grandes carroças como lares móveis. Em covas de sepultamento - onde os enterros eram feitos individualmente -, os arqueólogos encontraram traços de uso extensivo de esteiras vegetais e de cobertores de feltro.

"A dieta dos yamna se baseava na carne, em produtos lácteos e peixes. Eles eram altos e provavelmente saudáveis - tinham poucas cáries nos dentes. Não deixaram vestígios de nenhum tipo de agricultura", afirmou o cientista.

Para enterrar seus mortos, os yamna construíam pequenos montes, alinhados em grupos, que formavam linhas na paisagem, a fim de marcar as rotas sazonais, segundo os cientistas. "Os seus ritos de sepultamento incorporavam uma nova percepção sobre o indivíduo. A base de sua sociedade eram os pequenos grupos formados por famílias monogâmicas", disse Kristiansen.

Enquanto isso, na Europa, a relidade era bem diferente. Em 3000 a.C, os yamna encontraram no continente as sociedades agrárias da Idade da Pedra Polida já em declínio - o que abria espaço para a imigração. Esse declínio, segundo os cientistas, provavelmente foi resultado de uma peste que teria se espalhado desde a Sibéria até o mar Báltico.

"A dinâmica da doença pode ser comparada à do processo europeu de colonização da América, depois de Cristóvão Colombo. Talvez os próprios Yamna tenham trazido a peste para a Europa e causado o colapso em massa da população", afimrou Kristiansen. 

No artigo, os autores mostram que a predominância de homens na Europa durante a primeira fase após as imigrações corresponde à mitologia indo-europeia posterior. Essa mitologia faz menção a bandos de jovens guerreiros que eram a linha de frente de uma avalanche migratória.

As análises químicas feitas pelos autores mostram que a maior parte das mulheres sepultadas no sul da Alemanha na época faziam parte da "cultura da cerâmica cordada", mas tinham uma dieta típica das sociedades neolíticas.

"As evidências arqueológicas mostram que a forte predominância masculina de 90%, encontrada na fase inicial da 'cultura da cerâmica cordada' na Dinamarca e em outros locais, pode ser explicada pela antiga tradição indo-europeia de formar bandos de jovens guerreiros homens, que não tinham descendência para cuidar", afirmou Kristiansen.

As mulheres do neolítico também contribuíram para a nova cultura, segundo o estudo, com seu conhecimento na produção de cerâmica. Elas começaram a imitar, com cerâmica, a forma dos recipientes de madeira utilizados pelos migrantes yamna. Foi assim que surgiu a 'cerâmica cordada', assim conhecida porque o acabamento nas bordas dos potes lembra uma corda.

Esses recipientes eram utilizados para beber cerveja: os imigrantes das estepes haviam aprendido com suas mulheres neolíticas a cultivar a cevada e a produzir a bebida.

Segundo Willerslev, o estudo também mostra detalhes sobre a rápida transformação genética, a partir de 3.000 a.C, que acompanhou a mudança da cultura do neolítico para a cultura da cerâmica cordada.

"No nosso estudo de 2015 sobre a Idade do Bronze, ficamos atônitos ao constatarmos como foi forte e rápida a transformação genética do neolítico para a cultura da cerâmica cordada. Houve uma pesada redução do DNA do neolítico na Europa temperada e um dramático aumento do componente genômico dos yamna", disse Willerslev.

"Essa mudança abrupta indica que tivemos naquela época um evento de migração de larga escala e não um fluxo lento e periódico de pessoas", explicou o cientista.

Os yamna levaram as línguas indo-europeias para a Europa da Idade do Bronze, mas como criadores de animais, eles simplesmente não tinham palavras para designar elementos relacionados à agricultura. Assim, quando a cultura da cerâmica cordada se desenvolveu, ela adotou as palavras dos povos neolíticos para tudo que se relaciona às atividades agrícolas.

No estudo, o especialista em linguística histórica Guus Kroonen demonstrou que as palavras relacionadas à agricultura não pertenciam às línguas originais indo-europeias. Com isso, foi possível concluir que, ao contrário dos povos yamna, os povos neolíticos não estavam falando uma língua indo-europeia. 

"Portanto, o processo de mistura genética e cultural foi acompanhado por um processo de mistura de linguagens, criando um idioma proto-germânico, que lançou as fundações das línguas germânicas", explicou Kroonen.

As migrações yamna das estepes cáspias para a Europa temperada mudaram o curso da história, segundo os pesquisadores. "Eles (yamna) trouxeram não apenas uma nova língua, mas novas ideias sobre como a sociedade era organizada em torno de pequenas famílias monogâmicas, com propriedade individual de animais e de terra. Essa nova sociedade se tornou a fundação para a Idade do Bronze e para o caminho que as sociedades europeias continuaram a desenvolver até o presente", escreveram os autores.

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