América Latina oferece ladainha de problemas para o papa Francisco

Como arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio se enfurnava em comunidades carentes para colocar a Igreja Católica na linha de frente das suas lutas sociais, econômicas a espirituais.

HILARY BURKE E PAULO PRADA, Reuters

14 Março 2013 | 19h03

Nas vastas favelas que cercam a capital argentina, parte de uma área metropolitana de 13 milhões de habitantes, o homem que se tornou na quarta-feira o primeiro papa latino-americano às vezes celebrava uma missa. O mais importante é que ele mobilizava padres, freiras e outros para ministrar aos pobres, aos doentes, aos sem formação.

O objetivo disso era trazer a Igreja Católica para mais perto dos seus seguidores, e também proteger sua influência ao desacelerar o avanço de igrejas evangélicas e outras denominações protestantes que se espalham rapidamente pela América Latina.

Esses esforços, dizem subordinados, refletem a crença de Bergoglio de que a caridade e a compaixão estão no centro dos ensinamentos de uma Igreja que mais recentemente passou tanto tempo resolvendo escândalos e perdendo paroquianos quanto evangelizando e focando na fé.

"Ele quer que saiamos dos conventos e igrejas para a rua", diz a freira Rosita Blanco, de 90 anos, no convento onde o próprio Bergoglio fez a primeira comunhão e o jardim da infância. "Ele quer que escutemos o povo."

Foi lá, na rua, que o papa Francisco, como agora é chamado, viu de perto os crescentes desafios que têm abalado o outrora firme domínio do catolicismo sobre a vida espiritual da América Latina - junto a fiéis que se sentem em descompasso com os rituais e a doutrina da Igreja.

"Este é um líder, como muitos da Igreja na América Latina, que testemunhou pessoalmente a pobreza, a rápida urbanização e as traumáticas mudanças nos destinos políticos e econômicos", disse o historiador Kenneth Serbin, da Universidade de San Diego, um especialista em religião latino-americana. "Ele sabe que um apelo ao básico pode ser a melhor forma de ajudar a Igreja na região, e também mundo afora."

Embora a América Latina ainda seja a região com mais católicos no mundo, o percentual de latino-americanos que se declaram católicos caiu de cerca de 90 por cento em 1910 para 72 por cento em 2010, segundo o Fórum Pew para a Religião e a Vida Pública.

E a tendência parece estar se acelerando.

No Brasil, maior país católico do mundo, o número de pessoas que se declaram seguidoras dessa religião caiu de 74 por cento em 2000 para 65 por cento em 2010, segundo dados do governo. No mesmo período, o percentual de mexicanos católicos caiu de 88 para 83 por cento.

A crescente insatisfação com o catolicismo na América Latina resulta em parte dos mesmos problemas que assolam a Igreja em outros continentes - escândalos relativos a abusos sexuais, acusações de corrupção e a inflexibilidade dos ensinamentos católicos a respeito de controle da natalidade, sexualidade e aborto.

ROMPIMENTO COM O PASSADO

Mas a tendência também tem muito a ver com as mudanças demográficas de uma região cada vez mais próspera e urbana, onde muitos se sentem alheios a uma religião arraigada num passado pobre e rural, quando a Igreja era uma das poucas instituições que funcionavam.

De fato, assim como na Europa a Igreja se difundiu na Idade Média por meio dos feudos, na América Latina o catolicismo cresceu por causa dos seus vínculos com latifundiários e do seu apoio a uma entranhada estrutura de poder.

"Houve um rompimento com um passado não tão distante, quando a Igreja se difundia por causa do seu vínculo com a elite rural", disse Fernando Altemeyer, professor de teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "À medida que as sociedades aqui se distanciam dessa estrutura, a Igreja não soube como se reorganizar em resposta."

Os latino-americanos, como as pessoas de outros lugares, estão agora sintonizados em uma cultura global em rápida evolução, tão moldada pela Internet e a tecnologia quanto pela geografia.

"É muito mais difícil transmitir um conjunto de crenças agora do que há uma geração", diz a socióloga Silvia Fernandes, autora de um estudo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro sobre o crescimento das igrejas evangélicas. "Isso é verdade para a política e os agrupamentos sociais, e é cada vez mais verdade para a religião."

(Reportagem adicional de Guido Nejamkis)

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