América Latina saúda Francisco 1o como homem que enfrentará crise na Igreja

Por toda a América Latina, católicos festejaram a eleição de um cardeal da região como papa.

ALEXANDRA ULMER, Reuters

13 Março 2013 | 19h47

Embora alguns comentaristas tenham citado sua fama de ser conservador e inflexível como o antecessor Bento 16, os fiéis em geral celebraram o fato de os cardeais eleitores terem ido "até o fim do mundo" para escolher um papa, como disse Francisco 1o no primeiro pronunciamento do seu pontificado.

"Um latino é mais aberto aos outros, enquanto um europeu é mais fechado. Uma mudança como essa, com um latino-americano, será muito importante para nós, latino-americanos", disse a aposentada Ana Solís, de 75 anos, em frente à catedral metropolitana de Santiago.

"Estou feliz porque outro papa europeu seria como comer do mesmo pão todos os dias", disse Martín Rodríguez, taxista de 49 anos, na Cidade do México.

Francisco 1o é o primeiro papa latino-americano em quase 1.300 anos.

O jesuíta, de 76 anos, precisará enfrentar desafios colossais, como os abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores nas últimas décadas em vários países e o recente vazamento de documentos que mostravam casos de corrupção e disputas internas na Cúria Romana, o núcleo da Igreja.

"Estamos enfrentando uma série de desafios agora e eu rezo para que o papa ajude a trazer nossos jovens de volta à Igreja", disse em frente à catedral da Sé, em São Paulo, a católica Deise Cristina, de 43 anos, que vai à missa toda semana. Ela comemorou o fato de a Igreja ter quebrado "um tabu" ao eleger um latino-americano.

A América Latina reúne 42 por cento dos 1,2 bilhão de católicos do mundo, tendo um peso bem superior ao da Europa, com 25 por cento dos fiéis. Mas há anos a Igreja vem perdendo espaço na região para os cultos protestantes e evangélicos.

O arcebispo do Rio de Janeiro, Orani Tempesta, disse que a eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio no conclave "mostra que a Igreja está olhando para a América Latina".

Mas o novo papa, que supostamente ficou em segundo lugar no conclave anterior, em 2005, não é visto como alguém que levará mudanças profundas à administração da Igreja.

"Ele não vai ser um grande liberal, não haverá grandes mudanças no ensinamento da Igreja, provavelmente no alcance da Igreja ... Ele será cuidadoso e conservador e esperamos o melhor", disse o padre James Bretzke, professor de teologia moral do Boston College, e jesuíta como o novo papa. "Ele tem a reputação de ser bastante inflexível e fortemente conservador."

Mas, para os católicos do mundo, seu perfil é menos importante, ao menos por enquanto, do que seu jeito tranquilo ao se apresentar para a vasta multidão na praça de São Pedro, agradecendo a Deus por tê-lo escolhido.

"Ele é um homem muito humilde, muito próximo do povo. Podemos notar isso na forma como pediu a oração e se inclinou para o público", disse o secretário-geral da Conferência Nacional de Bispos do Brasil, Leonardo Steiner, em Brasília.

A presidente argentina, Cristina Kirchner, cumprimentou o seu compatriota Bergoglio em nota divulgada pelo Twitter.

"É nosso desejo que tenha, ao assumir a condução e guia da Igreja, uma frutífera tarefa pastoral desempenhando responsabilidades tão grandes para com a justiça, a igualdade, a fraternidade e a paz da humanidade."

Apesar da genuína emoção do dia, não demorou para que as provocações e piadas começassem nas redes sociais.

Pelo Twitter, espalhou-se a expressão "la mano de Dios", em alusão à explicação dada pelo argentino Diego Maradona para o gol de mão que ele marcou contra a Inglaterra na Copa de 1986.

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