Jason Lee/Reuters
Jason Lee/Reuters

Análise: relógio biológico ajuda a entender disfunções

Pesquisadores que ganharam o Nobel de Medicina de 2017 desvendaram, em nível molecular, o funcionamento desse sistema e suas consequências

Lia Bittencourt*, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2017 | 23h32

Várias atividades do nosso organismo têm um ritmo circadiano, isto é, com ciclos de 24 horas. Sabemos que o sono, a temperatura corporal, a secreção de vários hormônios, o humor e várias atividades do metabolismo variam em ciclos de 24 horas. Até mesmo a cognição segue os ritmos circadianos - e por isso estamos mais atentos em determinada hora do dia. Já se sabia também que uma certa região do cérebro  - o núcleo supraquiasmático - regula esse relógio biológico. E desde os anos 1970 sabemos que há um gene que regula esses ritmos. Estava claro que se tratava de um processo de importância fundamental. Mas não se sabia como tudo isso se organizava, como os genes geravam uma mensagem, o que acontecia no interior da célula e assim por diante.

+++ Nobel de Medicina vai para descobertas sobre relógio biológico

Os três pesquisadores que ganharam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2017 esmiuçaram toda a cascata de eventos envolvidos nesse mecanismo que determina os ritmos circadianos. 

Quando se desvenda, em nível molecular, o funcionamento de um sistema envolvido com tantas funções do nosso corpo, isso permite que possamos entender também o que acontece no caso das disfunções - como nos casos de pessoas que sofrem certos distúrbios do sono, ou as que trabalham em companhias aéreas sob constante jet lag. Entender esse processo a fundo pode nos ajudar no futuro a pensar em opções de tratamento, no caso de algumas doenças que podem estar relacionadas ao atraso de fase.

Um dos principais resultados das descobertas feitas pelos três laureados é mostrar que temos uma espécie de mapa genético que faz com que nossos ritmos sigam padrões de 24 horas.

Algumas pessoas têm esses ritmos atrasados ou adiantados. Não podemos chamar de preguiçosa uma pessoa que acorda tarde e dorme tarde, porque ela pode ter um padrão genético para isso. Mas esse indivíduo poderia ser um bom trabalhador noturno. As pessoas teriam vidas mais saudáveis se pudessem adaptar o tempo social ao seu relógio biológico, mas a organização da sociedade ainda não permite isso. 

*LIA BITTENCOURT É PNEUMOLOGISTA, DIRETORA CLÍNICA DO INSTITUTO DO SONO E PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP)

Mais conteúdo sobre:
Medicina Sono Prêmio Nobel de Medicina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.