Ancestrais em Marrocos?

300 mil anos atrás havia primatas extremamente semelhantes ao humano atual

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2017 | 03h00

Temos uma enorme curiosidade sobre o passado. Contando para meu filho histórias do meu avô, ele comentou que tanta coisa tinha acontecido desde que ele nasceu que não imaginava que tudo que contei havia acontecido antes de ele nascer. Descobriu que o passado do indivíduo é infinitamente menor que o passado da espécie.

E o passado da espécie faz parte de nossa curiosidade. Quase toda civilização cultiva mitos sobre sua origem. Não é à toa que a descoberta de esqueletos com característica semelhantes às do homem moderno em depósitos rochosos de 300 mil anos esteve na capa dos jornais esta semana. A novidade é que esses esqueletos são 100 mil anos mais antigos que os mais antigos que já haviam sido descobertos. O homem moderno ganhou de um dia para o outro mais 100 mil anos de passado, quase 5 mil gerações. E eu que não sei nada sobre meu bisavô, três gerações no passado.

Mas, na ânsia de satisfazer nossa curiosidade, hipóteses adiantadas pelos cientistas se transformam em verdades na imprensa. Se não cuidamos, essas hipóteses podem dominar nosso imaginário.

Para entender o que sabemos sobre a história do Homo sapiens é importante separar fatos de hipóteses. Os dados que os cientistas usam para criar suas hipóteses são coleções de centenas de achados pontuais do seguinte tipo: na região da Etiópia, foram descobertos crânios e outros ossos em rochas de 200 mil anos. Na região do Marrocos, foram descobertos crânios e outros ossos em rochas de 300 mil anos. E assim vai, grandes listas de achados cada uma com crânios um pouco diferentes dos outros, cada uma em um lugar, cada uma com uma idade. Na prática, é só essa coleção de achados esparsos de que dispomos para reconstruir nossa história. É pouco, muito pouco.

Para reconstruir a história de nossa espécie seria ideal termos achados para cada século no último milhão de anos, para cada região do planeta. Mas estamos muito longe disso. Exemplo: no intervalo de 100 mil anos que separam os esqueletos que eram os mais antigos até a semana passada (200 mil anos) e os agora descritos (300 mil anos) não temos nenhum achado, em qualquer local do planeta. Entre 100 mil anos atrás e 200 mil anos temos um punhado de achados, entre 100 mil e 2 mil anos atrás temos centenas de achados e para os últimos mil anos podemos examinar milhões de esqueletos, basta escavar nossos cemitérios. 

Conforme vamos em direção ao passado, temos menos dados, e os dados estão cada vez mais espaçados ao longo do tempo e da superfície do planeta. É como se comprássemos um quebra-cabeça de 10 mil peças e retirássemos da caixa 20 peças, todas de formas e cores diferentes, as colocássemos na mesa e olhando essas peças tentássemos descobrir a figura retratada no quebra-cabeça. Um azul pode ser o mar, ou o céu, um verde seria uma planta ou a blusa de uma menina?

Aos poucos os cientistas vão encontrando mais esqueletos, de diferentes datas, em diferentes locais. Cada novo esqueleto, uma nova peça é retirada da caixa. Nosso conhecimento aumenta. É um processo lento e não aguentamos esperar o quebra-cabeça montado para imaginar a figura. Os cientistas não são diferentes e mesmo com as pouquíssimas peças que dispõem já imaginam uma possível explicação para a história do Homo sapiens. É a hipótese que parece mais provável com as poucas peças que possuem. E, cada vez que uma nova peça é encontrada, a hipótese é reescrita, e é somente a última das hipóteses, a mais recente, que você vai ler no jornal. O leitor mais atento vai achar que os cientistas mudam de ideia todo ano, ou que a ciência não é confiável. Mas não é isso. O que muda são as hipóteses, fracas e lábeis. Os dados também podem mudar, mas são muito mais sólidos e duradouros.

Assim, não se engane, não imagine que descobrimos agora que o homem surgiu faz 300 mil anos. Pode ter surgido faz 400 mil ou 500 mil anos atrás. Ou até é possível que alguém descubra que esses fósseis do Marrocos não fazem parte da linhagem que produziu o Homo sapiens. O fato é que 300 mil anos atrás, no Marrocos, viviam primatas extremamente semelhantes ao ser humano atual. Não deixa de ser uma grande descoberta.

MAIS INFORMAÇÕES: ON THE ORIGIN OF OUR SPECIES. NATURE, VOL. 546, PÁG. 212 

* É BIÓLOGO

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