Âncora enganada

Você sente os roncos, o borbulho e as contrações no íntimo do abdome. É o peristaltismo, contrações que movem, o que horas antes foi uma refeição, ao longo de seu intestino.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2017 | 03h00

Você sente os roncos, o borbulho e as contrações no íntimo do abdome. É o peristaltismo, contrações que movem, o que horas antes foi uma refeição, ao longo de seu intestino. E tudo termina na rotina diária da evacuação.

Do ponto de vista das bactérias que habitam nosso intestino, a realidade é outra. Qual ondas de um enorme tsunami que varre sua casa, esses bolos de alimento são ao mesmo tempo sua fonte de nutrição e ameaça constante. Fonte de nutrição pois essas bactérias, como a Escherichia coli, são comensais, se alimentando do que está disponível nas ondas desse tsunami perpétuo, e produzindo compostos importantes para nosso bem-estar. No intestino, essas bactérias são benéficas e bem-vindas. 

Mas o tsunami que as alimenta é também uma ameaça. As ondas de alimentos podem carregá-las e despejá-las na vala comum de um vaso sanitário. Morte certa. Umas poucas sortudas conseguem, ao sair do intestino, ingressar no sistema urinário, onde passam a viver e se reproduzir. Mas na uretra e na bexiga elas se comportam como patógenos, causando as famosas infecções urinárias. E aí, para resolver o problema, só com antibióticos. Como esse fenômeno se repete com uma certa frequência, as bichinhas acabam se tornando resistentes aos antibióticos.

No intestino e nas vias urinárias, as Escherichia coli têm sua sobrevivência ameaçada pelo fluxo constante da urina e do bolo alimentar que as arrastam para a morte. Elas sobrevivem porque se agarram às células que recobrem o interior de nosso intestino e das vias urinárias. Para isso se utilizam de estruturas longas, como cordas, que são produzidas pela bactéria e se fixam na parede intestinal. Essas estruturas são chamadas de pili (pêlos). Agora o mecanismo de adesão à parede intestinal foi descoberto. E isso levou à descoberta de uma droga capaz de soltar a âncora, permitindo que urina e fezes carreguem as bactérias para o esgoto.

Entre as oito proteínas presentes no pili, descobriram que uma delas, chamada de FimH, era a responsável pela ancoragem ao intestino. Quando essa proteína era removida, as bichinhas não conseguiam se fixar. Ainda descobriram que a FimH se liga a um açúcar chamado manose, um componente da superfície das células. Aí imaginaram que, se misturassem no alimento um composto parecido com a manose, talvez esse composto se ligaria ao FimH presente no pili, ocupando o local em que o pili usa para se ligar ao intestino. O composto escolhido foi uma molécula que possui uma manose ligada a outros grupos químicos, o M4284.

Quando os cientistas alimentaram ratos com M4284, observaram que as bactérias eram varridas pelo tsunami, tanto no caso de estarem no intestino quanto no caso de elas estarem habitando as vias urinárias. Pronto, esse experimento não somente demonstrava que a âncora era o FimH, mas confirmava que ela se fixava através da molécula de manose. E de quebra haviam descoberto um possível remédio capaz de diminuir a quantidade de bactérias presentes no intestino e, portanto, diminuir a probabilidade e a gravidade das infecções.

Tudo isso foi feito em camundongos, mas é de se esperar que nos próximos anos essa descoberta leve ao desenvolvimento de drogas capazes de combater a Escherichia coli sem matar toda a flora intestinal. As pobres bactérias que imaginam estar ancoradas na manose da parede intestinal estavam com sua âncora ligada a um composto dissolvido, o M4282. É a tecnologia humana enganando a âncora bacteriana.

MAIS INFORMAÇÕES: SELECTIVE DEPLETION OF UROPATHOGENIC E. COLI FROM THE GUT BY A FIMH ANTAGONISTA. NATURE (IN PRESS)

*É BIÓLOGO

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