Kinez Riza/EFE
Kinez Riza/EFE

Arte rupestre surgiu simultaneamente na Ásia e na Europa

O estudo contesta a tese mais aceita pela comunidade científica, de que a pintura parietal teria nascido na Europa Ocidental

O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2014 | 19h37

A arte rupestre encontrada nas cavernas da ilha de Sulawesi, na Indonésia, é tão antiga quanto a encontrada na Europa. É o que revelou um artigo publicado nesta quarta-feira, 8, na revista Nature. O estudo contesta a tese mais aceita pela comunidade científica, de que a pintura parietal teria nascido na Europa Ocidental.

Ao estudar as cavernas calcáreas do sítio arqueológico de Maros, na Indonésia, uma equipe de cientistas australianos e indonésios descobriu que uma mão humana foi pintada lá usando a técnica de stencil há pelo menos 39.900 anos. Também foi encontrada a representação de uma babirussa (espécie de cervo selvagem da Ásia) datada de pelo menos 35.400 anos atrás.

Situadas ao sul de Sulawesi, as cavernas de Maros foram descobertas na década de 1950, mas por causa da rápida erosão que ocorre na região, pensava-se que tinham menos de 10.000 anos. Também por causa da erosão, estão em pior estado de conservação e se degradam a uma velocidade maior do que as encontradas na Europa. A água rica em minerais que escorre pelas paredes da gruta forma em alguns pontos camadas de calcita (carbonato de cálcio) com rastros de urânio. A desintegração dos átomos de urânio funciona como uma espécie de calendário, permitindo datar os depósitos calcários.

Descoberta pode mudar concepções sobre evolução humana. A primeira obra de arte conhecida é a pintura de um disco vermelho descoberto na gruta de El Castillo, no norte da Espanha, que data de cerca de 40.800 anos. Já a pintura figurativa mais antiga de que se tem notícia na Europa é um rinoceronte encontrado na gruta Chauvet, na França, e tem aproximadamente 35.000 anos. Um dos autores do estudo, Maxime Aubert, da universidade australiana de Griffith, explica que as descobertas feitas pelo grupo na ilha de Sulawesi dão conta de que, na mesma época, lá havia homens fazendo pinturas de animais tão notáveis quanto as encontradas na Espanha e na França.

A arte rupestre é um dos primeiros indicadores da capacidade de abstração, considerada um dos princípios do ser humano como conhecemos. "A partir de agora, os europeus não podem mais afirmar que foram os primeiros a desenvolver um espírito de abstração, devendo compartilhar esse posto pelo menos com os primeiros habitantes da Indonésia", afirmou Anthony Dosetto, diretor da universidade australiana de Wollongong.

De acordo com o especialista, é possível que a arte das cavernas tenha aparecido independentemente na mesma época em dois extremos da distribuição geográfica dos primeiros homens modernos. O estudo levanta ainda outra hipótese, segundo a qual a arte rupestre estaria amplamente difundida entre os primeiros Homo sapiens que saíram da África milhares de anos antes. Assim, os animais pintados nas cavernas de Maros e na gruta Chauvet teriam origem fora da Europa e da Indonésia. Se esta for a hipótese verdadeira, é possível antecipar descobrimentos semelhantes em outras partes do mundo nos próximos anos.

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