Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Assédio sexual em patos

E as fêmeas continuam ganhando a guerra, apesar da violência dos machos

Fernando Reinach, *

16 Dezembro 2017 | 02h00

Enquanto as fêmeas lutam pela liberdade de escolher parceiros, os machos praticam formas violentas de assédio sexual. Ao longo de milhões de anos, os dois sexos aperfeiçoaram suas armas. É a vida sexual dos patos.

+++ Leia outras colunas de Fernando Reinach

Na maioria dos pássaros é a fêmea que escolhe o macho com quem vai acasalar. Os machos estufam o peito, dançam, cantam, mostram as cores vivas de sua plumagem, constroem alcovas, e exibem lindos rabos. As fêmeas, vestidas em plumagens discretas, visitam diversos machos, observam o show, e escolhem aquele que mais agrada. Escolhido o macho, ela se agacha, o macho monta, os orifícios das duas cloacas se alinham, e os espermatozoides são transferidos. Como a maioria dos pássaros não tem pênis, não existe a penetração, e o ato, além de consensual, só é possível com absoluta colaboração do casal. 

+++ Leia as últimas de Ciência

A liberdade de escolha da fêmea, que seleciona o macho com base em critérios essencialmente estéticos, é o que Darwin chamou de seleção sexual. Para ter uma chance de transmitir seus genes, o que importa não é sua capacidade de se adaptar ao ambiente (que Darwin chama de seleção adaptativa), mas sua capacidade de impressionar esteticamente a parceira. E esse processo, que gera machos cada vez mais atraentes e fêmeas cada vez mais exigentes, acaba levando ao aparecimento de estruturas lindas, mas pouco funcionais, como a cauda de um pavão e o canto do pintassilgo. O que ainda causa polêmica é se esses atributos estéticos são sinais de uma maior capacidade de se adaptar ao ambiente ou mero reflexo do gosto estéticos das fêmeas.

Nos patos e em outras espécies, como os marrecos, o romance começa de maneira semelhante, meses antes do acasalamento. A fêmea observa e escolhe um macho. Mas o acasalamento só vai ocorrer meses depois, quando o casal, após a migração anual, chegar ao local onde copulam, colocam os ovos e criam os filhotes. Até chegar ao local do acasalamento o casal namora, fica junto e aparentemente cria laços. 

No local da procriação, um número enorme de animais se concentra em uma pequena área e é aí que começa o assédio. Patos machos que não conseguiram conquistar fêmeas ficam desesperados para copular. As fêmeas se defendem, pois já escolheram seus parceiros. O parceiro escolhido tenta proteger sua amada para garantir um direito que conquistou de forma pacífica. 

Mas é difícil. Os machos solteiros assediam as fêmeas e tentam copular à força, o que muitas vezes conseguem em atos violentos, praticados individualmente ou em grupos. É o estupro em grupo (gang rape). A violência é mais forte. 

Tudo isso só é possível porque os patos possuem pênis, não semelhantes aos de mamíferos, mas estruturas que lembram um dedo invertido de luva. E se ancora através de espinhos. A fêmea fica presa. Em muitas espécies, esses pênis são enormes, chegando ao tamanho do próprio pato. Esses estupros em grupo são violentos, as fêmeas são machucadas e às vezes morrem.

Mas quando os cientistas fizeram testes de paternidade nos filhotes que nasciam depois dessa orgia violenta, descobriram que, apesar dos inúmeros estupros sofridos pelas fêmeas, 92% dos filhotes eram filhos do macho que as fêmeas haviam escolhido meses antes. Sabendo que as relações sexuais só ocorrem no local de acasalamento, como explicar que os machos que praticam esse brutal assédio sexual só conseguem transmitir seus genes para 8% dos filhotes? 

A resposta esta na anatomia das vaginas. Elas são longas e possuem muitas ramificações. Quando o macho penetra à força, na maioria das vezes o pênis e os espermatozoides acabam em um desses sacos fechados e nunca atingem o óvulo, e o resultado é que não ocorre a fecundação. Mas quando a fêmea coopera (o que só ocorre com o macho escolhido), o pênis é direcionado pelo caminho certo e os espermatozoides chegam ao destino. 

Nos patos, a seleção sexual vence, fêmeas escolhem pacificamente os machos de acordo com suas preferências. Mas na cópula a história é outra, existe uma verdadeira guerra entre sexos que já dura milhões de anos. Essa guerra resultou em machos que se armam com pênis cada vez mais poderosos e em fêmeas com vaginas cada vez mais sofisticadas. E as fêmeas continuam ganhando a guerra. A beleza vence a violência.

MAIS INFORMAÇÕES: NO LIVRO THE EVOLUTION OF BEAUTY, DE RICHARD O. PRUM (ED. DOUBLEDAY, 2017) 

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.