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Astrônomos encontram provas de canibalismo entre galáxias

Os sinais dessa deglutição cósmica são descritos em artigo publicado na edição desta semana da revista Nature

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

02 Setembro 2009 | 16h04

Galáxias crescem devorando as irmãs menores. A ideia, que já era uma das principais explicações teóricas para a evolução dos grandes discos de estrelas, ganhou reforço com a descoberta de que a galáxia do Triângulo, ou M33, está sendo devorada por Andrômeda. Também conhecida como M31, Andrômeda, a 2,5 milhões de anos-luz, é a grande galáxia mais próxima, e uma das mais semelhantes, à nossa, a Via-Láctea. Os sinais dessa deglutição cósmica são descritos em artigo publicado na edição desta semana da revista Nature.

 

A própria Via-Láctea já havia sido flagrada engolindo um de seus satélites, a galáxia-anã de Sagitário. As novas observações de Andrômeda são valiosas porque oferecem um ponto de vista externo do processo de assimilação e revelam uma série de sinais de que crescer engolindo os vizinhos é realmente parte do desenvolvimento natural de uma galáxia.

 

"Na nova imagem de M31, vemos que há muitas galáxias-anãs cercando a grande galáxia, e muitas delas mostram sinais de interação com M31", diz o pesquisador Alan McConnachie, do Instituto Herzberg de Astrofísica, no Canadá, e membro da equipe internacional que assina o trabalho na Nature. "Também vemos muitos 'córregos de estrelas' e outras estruturas que, acreditamos, são as sobras de galáxias que foram desmanchadas pelos efeitos gravitacionais de M31".

 

O cientista diz, no entanto, que ainda não é possível saber a que velocidade as galáxias pequenas são destruídas - isto é, em que ritmo as grandes engolem as pequenas. Ele afirma que esse dado deve surgir ao longo do mesmo programa de pesquisa que revelou os sinais de canibalismo em Andrômeda, a Pesquisa Arqueológica Pan-Andrômeda (ou "Pandas"), realizada com o Telescópio Franco-Canadense do Havaí, o CFHT. "Trata-se de uma medição muito importante, porque vai nos dizer com que velocidade a galáxia está crescendo, o que, no fim, vai nos permitir calcular quando ela se formou".

 

A teoria atual propõe que galáxias surgem no interior de grandes casulos de matéria escura, uma misteriosa substância invisível, cuja existência é deduzida a partir dos efeitos gravitacionais que produz. A fusão dos casulos levaria ao crescimento das galáxias. "Os halos de matéria escura vão muito além do disco brilhante da galáxia, avançando de 10 a 100 vezes além", diz McConnachie.

 

As observações do PAndAS indicam que o Triângulo fez uma passagem próxima a Andrômeda, há cerca de 3 bilhões de anos, e os efeitos gravitacionais começaram a distorcê-la e a fazer com que perdesse estrelas. Hoje, o Triângulo é cercado por uma aura de estrelas desgarradas, provavelmente arrancadas de seu disco pela atração da companheira. Ao longo do tempo, e a cada nova passagem por Andrômeda em sua órbita, Triângulo perderá mais estrelas e energia, até mergulhar de vez em Andrômeda.

 

"De acordo com nossos modelos, isso (a colisão entre Triângulo e Andrômeda) ocorrerá, provavelmente, ao longo dos próximos 2 a 5 bilhões de anos", diz McConnachie. "A Via-Láctea está em curso de colisão com Andrômeda também, e devemos colidir com ela nos próximos 3 a 5 bilhões de anos. Curiosamente, isso significa que M31, M33 e a Via-Láctea provavelmente começarão a se fundir todas mais ou menos ao mesmo tempo, e o resultado será uma nova galáxia gigante, feita de estrelas e gases de suas três mães".

 

Em seu livro Death from the Skies ("Morte dos Céus", em tradução literal), no qual discute diversas possibilidades de catástrofes cósmicas, o astrônomo americano Phil Plait diz que, embora a colisão direta entre grandes galáxias não represente, em si, uma grave ameaça para a Terra - mesmo contendo bilhões de estrelas, Via-Láctea e Andrômeda têm muito espaço vazio, e praticamente passarão uma através da outra antes de se acomodarem para a fusão - o efeito da atração mútua arrancará estrelas de ambas.

 

Isso poderá afetar o Sol que, nesse caso, levaria a Terra junto. De fato, Plait cita uma simulação realizada pelo Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian que prevê uma chance de menos de 3% de o Sol a Terra irem parar "do outro lado", integrando-se à galáxia de Andrômeda antes da fusão final.

 

Mas, se estrelas podem trocar de galáxia incólumes e colisões entre galáxias são comuns, como sabemos que o Sol é um nativo da Via-Láctea e não uma estrela imigrante? "A melhor forma de determinar isso é ver como a estrela está se movendo", diz McConnachie. "O disco da galáxia se move de um modo muito específico, e esperamos que estrelas formadas dentro do disco se movam do mesmo jeito. Estrelas que se movam de modo diferente, na direção oposta, por exemplo, são boas candidatas a recém-chegadas".

 

O Sol se move de acordo com o disco e, portanto, "tudo indica que não é um recém-chegado", afirma o astrônomo. "Acreditamos que o Sol surgiu no disco e está nele desde então".

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