Astrônomos reivindicam o direito à luz das estrelas

Resolução apresentada em assembleia internacional realizada no Rio pede 'direito fundamental' ao céu noturno

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

13 Agosto 2009 | 16h21

Astrônomos reunidos na 27ª Assembleia Geral da União Astronômica Internacional (IAU, na sigla em inglês), que acontece até sexta-feira, 14, no Rio de Janeiro, lançaram uma resolução "em defesa do céu noturno e pelo direito à luz das estrelas". O texto afirma que "um céu noturno não poluído... deve ser considerado um direito sociocultural e ambiental fundamental". Mais adiante, acrescenta: "A progressiva degradação do céu noturno deve ser vista como uma perda fundamental".

 

Ano Internacional da Astronomia no Brasil

 

"Todos deveriam ter o direito de olhar para o céu noturno, apreciar a vista linda e contemplar seu lugar no Universo", disse ao estadao.com.br o autor da proposta, o astrônomo australiano Richard Wainscoat, que atualmente trabalha no Havaí. "Essa vista, que serviu de inspiração a gerações, vem se degradando progressivamente nos últimos 50 anos. As pessoas que moram em cidades grandes ou médias hoje precisam viajar 200 quilômetros, ou mais, para ver o céu noturno".

 

 

"Quem mora em regiões onde o espaço entre uma cidade e outra não é superior a 300 quilômetros não tem como encontrar um céu escuro", lamenta.

 

A chamada poluição luminosa é provocada pelo desperdício na iluminação urbana e pela poluição do ar. As partículas suspensas na atmosfera refletem e difundem a luz das lâmpadas, ofuscando o brilho das estrelas. Sobre muitas cidades, até mesmo as nuvens brilham com o reflexo das luzes artificiais, apagando ainda mais os astros.

 

Quem está acostumado às noites das grandes cidades talvez não sinta a perda, mas ela é significativa: o número de estrelas facilmente visíveis a olho nu, com um mínimo de poluição luminosa, é de cerca de 2.000. Nos arredores de uma cidade grande esse total passa a 250 e, perto do centro de uma metrópole, o número de estrelas visíveis talvez não chegue a 25, diz Wainscoat.

 

A preocupação com a poluição luminosa não é apenas coisa de primeiro mundo. No website brasileiro do Ano Internacional da Astronomia - celebrado em todo o mundo ao longo de 2009 - existe um convite para que as pessoas tentem observar a Via Láctea, em uma série de maratonas e com orientação especializada, exatamente para conscientizar a população do problema.

 

A Via Láctea, que é a galáxia da qual a Terra faz parte, recebeu esse nome na Antiguidade porque parecia uma trilha de leite derramado no céu. Hoje em dia, essa é uma imagem praticamente perdida. A próxima maratona de observação, em cidades brasileiras, está prevista para a próxima semana. Os locais e horários podem ser encontrados no site do Ano Internacional.

 

"Antes que você pense que os astrônomos são malucos que querem apagar todas as luzes das cidades para que eles possam olhar as estrelas enquanto o restante da população é assaltada", diz o site brasileiro, "é bom que fique claro que somos apenas contra o desperdício". A luz, argumentam os astrônomos, tem de ser dirigida para onde é necessária: "O chão, e não o céu".

 

Além das questões estética e profissional - astrônomos, afinal, precisam do céu claro para trabalhar - há problemas ambientais e de saúde pública ligados à poluição luminosa, argumentam os cientistas. "O controle da luz indesejada deve ser um elemento básico das políticas de preservação da natureza, já que ela tem impacto em várias espécies, hábitats, ecossistemas e paisagens", diz a resolução.

 

Wainscoat lembra ainda que há estudos ligando o excesso de luz noturna a alguns tipos de câncer. "E acho que é evidente que se você tem a luz da rua logo do lado de fora do seu quarto, a ponto de impedir o sono à noite, isso é um problema. E há impactos em outras espécies", acrescenta.

 

Espécies de hábitos noturnos, para as quais a escuridão da noite é um sinal para sair da toca em busca de alimento, podem ser afetadas. Um estudo publicado em junho na revista científica Current Biology ligou a poluição luminosa no Reino Unido ao risco de extinção de uma espécie de morcego, o Rhinolophus hipposideros.

O astrônomo diz que já há leis, em várias partes do mundo, contra a poluição luminosa. "Acredito que, à medida que a necessidade de poupar energia torna-se mais urgente, e as pessoas ganham consciência dos problemas de saúde, veremos mais leis em outros lugares". Segundo ele, a região da Lombardia, na Itália, e a Eslovênia já têm boas leis de iluminação em vigor.

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