Avaliadores anularam 138 mil redações

Especialistas criticam subjetividade e falta de uniformidade nos critérios de correção

Carlos Lordelo, do Estadão.edu, e Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

14 Janeiro 2012 | 22h52

Os corretores da redação do Enem 2011 anularam 138 mil provas por “algum motivo”, informou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Pelo edital do exame, são considerados anulados textos com “impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação”. Cerca de 51 mil alunos deixaram a redação em branco e tiveram nota zero.

 

A redação é a única prova do Enem em que o desempenho do estudante é avaliado por outras pessoas, dando margem para uma subjetividade indesejada em um exame que se tornou o maior vestibular do País. No restante da correção, os gabaritos são processados por computadores de acordo com a Teoria da Resposta ao Item (TRI).

 

Os avaliadores atribuem nota de zero a mil às redações de acordo com cinco competências. Cada texto é corrigido por dois profissionais. Um não sabe a avaliação do outro e vale a média aritmética das duas pontuações.

 

No ano passado o Inep diminuiu o limite de discrepância entre as notas dos dois corretores para que haja uma terceira leitura. Nos casos em que a diferença passa de 300 pontos, o texto vai para um supervisor - antes, essa diferença era de 500. A última avaliação substitui todas. O instituto não informa quantas redações receberam três leituras.

 

Uma professora que trabalhou no exame disse, em conversa reservada, que o sistema de correção é “meio falho” porque favorece a atribuição de notas medianas. Segundo ela, os avaliadores praticam “autocensura” para evitar cair na supervisão.

“Se eu sei que o limite é de 300 pontos, evito dar uma nota muito alta ou muito baixa pensando no julgamento de meu colega”, disse a professora. “O supervisor sempre lembrava que Brasília (onde fica a sede do Cespe) estava nos acompanhando e poderia eliminar o corretor que dava notas muito distantes das dele.”

 

A dimensão da prova é outro agravante. O Inep afirma que todos os corretores passam por treinamento presencial, mas não detalha como ele é realizado. “São muitos corretores, em todo Brasil, e é impossível que todos mantenham o mesmo nível e critério”, afirma o professor da Unesp Rogério Chociay. “Uma redação que sai de 800 e vai para zero mostra que não há critério adequado de correção.”

 

Justiça. Neste ano, 120 estudantes descontentes com sua nota tiveram acesso à cópia da redação após decisão judicial. Todos reclamavam da avaliação do texto. Apesar das solicitações judiciais ao Inep para mostrar aos requerentes a cópia da redação, o instituto insiste que vai seguir o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em agosto com o Ministério Público Federal, no qual se compromete a tornar disponíveis as redações corrigidas a partir deste ano.

 

Instituições públicas que usam a nota do Enem para selecionar alunos por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) adotam pesos diferenciados para as provas. Mas a redação é parte fundamental, o que preocupa o consultor em educação Leonardo Cordeiro. Mestre em Matemática e Econometria, ele diz que somar as pontuações dos exames objetivos ao da redação é um “erro conceitual” que produz “resultados drásticos”.

 

“Tirar 800 na redação não é a mesma coisa que uma nota 800 numa prova corrigida pela TRI”, afirma Cordeiro. “Essa distorção vem do fato de que a correção do texto é mais generosa e não adota o mesmo método dos testes. Não se pode comparar uma coisa com outra.”

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