Bem-vindo à gangue

Nova espécie de grande macaco, um orangotango, é descoberta na Indonésia

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 03h00

É a famosa gangue dos sete primos. Todos grandes, inteligentes, sociáveis e sem rabo. São as sete espécies de grandes macacos que ainda habitam o planeta. Além de nós, a gangue inclui duas espécies de gorilas, duas de orangotangos, o chimpanzé e o bonobo. 

Éramos seis até 1929, quando os bonobos foram descobertos no centro da África, e nas últimas décadas tudo indicava que a gangue iria diminuir. Apesar de existirem 7 bilhões de humanos no planeta, restam menos de 400 mil indivíduos das outras espécies, sendo que duas delas possuem menos de 6 mil representantes. Claramente um dos primos está levando a melhor. 

Uma surpresa: esta semana a gangue aumentou. Foi descrita, nas florestas ao sul do Monte Toba, na ilha de Sumatra (Indonésia), uma nova espécie de orangotango. O oitavo membro da família Hominidae foi descoberto já à beira da extinção - são somente 800 indivíduos.

Tudo começou em 1935 quando um zoologista relatou a presença de animais muito parecidos com orangotangos na região do Monte Toba, mas somente em 1997 os boatos começaram a ser investigados. Em 2005, um posto de observação permanente foi montado e orangotangos que pareciam ser diferentes dos outros orangotangos da Sumatra foram observados. 

Em 2013, quando um desses animais foi ferido por primos humanos que não gostaram da ideia dele de invadir uma horta, o primeiro exemplar foi capturado. Ele morreu por causa dos ferimentos, mas seu esqueleto e seu DNA puderam ser estudados.

O esqueleto e o genoma deste indivíduo diferente foram comparados com os das outras duas espécies de orangotango presentes na Indonésia. Uma delas vive ao norte do Monte Toba, em Sumatra, e a outra, na ilha de Borneo. A nova população, que vive no sul do Monte Toba, é muito diferente da população que vive na mesma ilha mais ao norte e semelhante ao orangotango de Borneo. Uma árvore genealógica construída usando a sequência de DNA das três espécies indica que a população recém-descoberta é semelhante aos primeiros orangotangos que chegaram na Indonésia. 

Esse grupo deu origem à espécie que hoje vive no norte da Sumatra por volta de 3,4 milhões de anos atrás (muito antes de nossa espécie surgir na África) e, bem mais tarde, por volta 674 mil anos atrás (quando estávamos ainda pensando em sair da África), deu origem aos orangotangos do norte de Sumatra. Todos esses resultados levaram os cientistas a propor que essa nova população representa uma nova espécie de orangotango e, portanto, merece um nome para chamar de seu. Senhor Pongo tapanulienses, seja bem-vindo à gangue dos sete. 

A nova espécie já nasce ameaçada de extinção. Os 800 indivíduos, que vivem em uma área de mil km², já estão ameaçados pela construção de duas hidrelétricas pelos seus primos Homo sapiens. No último século, dezenas de novos macacos foram descobertos e centenas de novas espécies de plantas e animais são descritas todos os anos. Mas o que me impressiona é que ainda é possível descobrir uma nova espécie de um grande macaco pertencente à nossa família. Isso demonstra que ainda existe muito a ser descoberto na biodiversidade do nosso planeta. Infelizmente essa é uma corrida contra o tempo. Ao mesmo tempo em que descrevemos novas espécies, muitas delas desaparecem antes de serem descobertas. Uma desgraça.

MAIS INFORMAÇÕES: MORPHOMETRIC, BEHAVIORAL, AND GENOMIC EVIDENCE FOR A NEW ORANGUTAN SPECIES, CURRENT BIOLOGY VOL. 27 PAG. 1 2017

* É BIÓLOGO

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