Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Brasil precisará de ajuda para retirar destroços da Antártida ainda neste ano

Inverno antártico começa em março e brasileiros encarregados da limpeza precisam de abrigo em bases estrangeiras, pois navios da Marinha não navegam em mares congelados

Sergio Torres / RIO,

28 Fevereiro 2012 | 21h50

Sem ajuda internacional, o Brasil não terá como remover até o fim do ano os destroços da Estação Antártica Comandante Ferraz - destruída por um incêndio no sábado que deixou dois militares mortos e um ferido. Em março começa o inverno antártico, quando o mar se solidifica e a temperatura cai a dezenas de graus Celsius negativos.

 

A equipe brasileira encarregada da limpeza do terreno não terá onde ficar se não conseguir abrigo em bases estrangeiras próximas. Faltam à frota da Marinha navios capazes de navegar em mares congelados.

 

As declarações de representantes do governo brasileiro de que em um mês começará a reconstrução da base científica e militar brasileira na Antártida não foram levadas a sério pelos especialistas que conhecem o continente e as limitações impostas pelo clima inóspito.

 

Se a intenção do governo é construir a nova estação no mesmo local da pioneira, será preciso, primeiramente, retirar os escombros, o que, segundo pesquisadores, é tarefa para ser realizada ao longo de muitos meses.

 

Para fazer o trabalho no inverno, o País terá de pedir a ajuda a algumas das nações que compartilham o território da Ilha Rei George, no Arquipélago Shetlands do Sul, a 130 km do continente antártico. Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Polônia e Rússia mantêm estações científicas no local.

 

A base mais próxima é a peruana, desocupada no inverno, o que pode vir a facilitar a instalação dos brasileiro. Por mar, a distância entre a Comandante Ferraz e a Machu Picchu é de 8 km. Se o oceano congelar, o trajeto terá de ser feito por terra, o que fica inviável durante as tempestades de neve e os ventos invernais, que podem chegar a 150 km.

 

Há também o recurso de abrigo na Estação Eduardo Frei, do Chile, tradicional parceiro das ações brasileiras no continente. Nessa base estão os militares da Marinha que permanecem na Antártida para avaliar os estragos. A questão é que o Chile mantém sua estação ocupada no inverno.

Para chegar à Antártida, o Brasil precisará de embarcações que superem a crosta de gelo que se forma na superfície oceânica.

 

Os navios brasileiros Almirante Maximiano e Ary Rongel não navegam no gelo. Limitam-se a percorrer a região de novembro a março, quando o mar costuma ficar desimpedido. O Ary Rongel está até fora de uso. Quebrou meses atrás e permanece ancorado, imóvel, na Patagônia chilena.

 

Poluição. Outro problema relacionado à retirada dos destroços é a poluição. A queima de plásticos, resinas, combustíveis, equipamentos, ferragens e madeira, entre outro materiais, transferiu para o terreno uma carga tóxica altamente poluente, que tende a escorrer para o mar quando do degelo. Com a chegada das nevascas, os restos da base serão parcialmente soterrados.

 

Não há na ciência estudos sobre o impacto de tal tipo de poluição em um ambiente gelado e de alto nível de preservação.

 

Da mesma forma, a imensa nuvem negra formada por toxinas desprendidas pelo fogo pode ter sido levada pelos ventos em direção ao Polo Sul, espalhando por uma região de natureza virgem elementos químicos extremamente nocivos ao ecossistema.

 

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