Brasileiros descobrem nova espécie de pterossauro

Pesquisadores identificaram fósseis de 47 répteis voadores pré-históricos que viveram no Sul do País. Quantidade surpreendeu

Fábio de Castro, Enviado especial/O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2014 | 16h08

CURITIBA - Um grupo de pesquisadores brasileiros anunciou nesta quinta-feira, 14, uma descoberta de impacto mundial: eles identificaram um conjunto de fósseis de 47 pterossauros - répteis voadores pré-históricos - de uma espécie até agora desconhecida, que viveu há cerca de 80 milhões de anos na Região Sul do País.

Os fósseis, encontrados no município de Cruzeiro do Oeste, no noroeste do Paraná, são uma raríssima ocorrência de pterossauro no interior de continentes. Também é a primeira vez que esse tipo de réptil pré-histórico é encontrado na região - até agora só havia registros de pterossauros na Chapada do Araripe, no nordeste.

O estudo, realizado por cientistas do Centro de Paleontologia (Cenpaleo) da Universidade do Contestado em Mafra (SC) e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi publicado na revista PLoS One. A nova espécie de pterossauro recebeu o nome de Caiuajara dobruskii.

A abundância de indivíduos identificados entusiasmou os pesquisadores, já que o material ajudará a responder uma série de perguntas científicas importantes. Tal concentração de pterossauros só havia sido reportada em outros dois sítios, na Argentina e na China.

"A descoberta é um verdadeiro tesouro e nos deixou realmente empolgados. Não apenas por ser uma espécie nova de pterossauro, mas pela alta concentração. Como encontramos indivíduos de várias idades, poderemos responder diversas questões sobre sua evolução", disse Alexander Kellner, do Museu Nacional, um dos autores do estudo.

Kellner afirmou que a alta concentração de fósseis de indivíduos garante que todos são da mesma espécie. Por isso foi possível identificar que se tratava de pterossauros de idades variadas, apesar da diferença entre os ossos de vários tamanhos. Sem correr o risco de achar que são espécies diferentes, os cientistas podem aplicar o mesmo princípio ao estudo de vários outros pterossauros.

"Pudemos concluir, por exemplo, que esses pterossauros voavam muito precocemente, já que não havia grandes diferenças morfológicas nas proporções dos ossos, exceto na cabeça", explicou Kellner. 

Elo perdido. Segundo Kellner, os estudos paleontológicos sobre os pterossauros são fundamentais porque eles são uma espécie de elo perdido entre os vertebrados terrestres e os voadores. "Esse grupo de animais foi o primeiro a desenvolver o voo ativo. Ao estudá-los, podemos tirar conclusões importantes sobre como os vertebrados que andavam em duas patas passaram a voar", disse Kellner.

Os fósseis foram encontrados no leito de uma antiga estrada próxima à cidade de Cruzeiro do Oeste e em barrancos adjacentes. Segundo Luiz Weinschütz, coordenador das pesquisas no Cenpaleo, a área deve conter muito mais fósseis do que os descobertos até agora. "Escavamos 20m² em um sítio que, segundo nossa avaliação, pode ter cerca de 400m²", disse ele. 

Cerca de 5 toneladas de material foram retiradas do local. Os fósseis estavam inseridos em camadas de arenito com aproximadamente 1,5 metro de espessura. Há cerca de 80 milhões de anos, no Cretáceo - pouco depois da separação entre a África e a America do Sul -, aquela região do interior paranaense era um imenso deserto. "Esses pterossauros habitavam as raras regiões úmidas entre as dunas", explicou Weinschütz. 

Quando morriam no entorno desses oásis, os animais ficavam expostos e as chuvas esporádicas os levavam para o fundo de lagos. "Isso contribuía para a desarticulação dos esqueletos, tornando o trabalho de coleta e identificação um imenso quebra-cabeça”, declarou.

De acordo com Kellner, o tamanho do pterossauro variava de 65 centímetros a 2,35 metros de envergadura (distância entre as pontas das asas). "A qualidade excepcional e a grande quantidade de fósseis encontrados indicam que havia uma comunidade de pterossauros no local. Isso nunca foi registrado em nenhum sítio fossilífero do mundo", afirmou Kellner.

Segundo ele, os animais tinham hábitos gregários, não tinham dentes e possuíam um bico voltado para baixo, com cristas, tanto na arcada superior como inferior.

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