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Caça de macacos e antas na Amazônia pode piorar aquecimento global

- Atualizado: 25 Janeiro 2016 | 15h 05

Perda desses animais, que comem e espalham grandes sementes, pode levar a uma redução das maiores árvores da floresta, que são as que mais têm capacidade de absorver carbono

SÃO PAULO - O que a caça de antas e macacos na Amazônia pode ter a ver com o aquecimento global? Um estudo publicado nesta segunda-feira (25) faz essa relação inédita pela primeira vez. Com a redução do número de animais que espalham sementes de grandes árvores, essas espécies de troncos particularmente densos também tendem a desaparecer, reduzindo a capacidade da floresta de absorver carbono, o principal gás responsável pelo efeito estufa. A longo prazo, isso pode piorar o aquecimento global.

A associação foi feita por uma equipe de pesquisadores do Brasil, Estados Unidos e Inglaterra liderada pelo biólogo brasileiro Carlos Peres, da universidade britânica East Anglia, em estudo publicado na revista PNAS. Eles fizeram uma estimativa do potencial de caça dos cerca de 1 milhão de domicílios rurais que existem na Amazônia brasileira. A análise teve como foco grandes mamíferos que comem frutas, em especial o macaco-barrigudo, o macaco-aranha e as antas.

Caça de macacos e antas na Amazônia pode piorar aquecimento global

Caça de macacos e antas na Amazônia pode piorar aquecimento global

Esses animais, especialmente sensíveis à caça por humanos, têm uma relação de mutualismo - dependência do outro para viver - com espécies de árvores altas, que têm troncos bastante densos. Somente as antas e os macacos conseguem comer e espalhar suas grandes sementes.

São essas as árvores, por sua vez, que mais absorvem carbono na floresta. Sem os animais para espalhar suas sementes, ao longo dos anos essas árvores tendem a sumir, sendo substituídas por outras de sementes pequenas, que têm troncos mais finos e, portanto, absorvem menos carbono. Os pesquisadores projetam que a perda dessa fauna pode levar a uma redução média de biomassa na floresta de até 5,8%, sendo que em algumas regiões pode chegar a 37,8%.

Isso pode significar entre 3,08 e 7,36 gigatoneladas de carbono não absorvido. Para se ter uma ideia, o Brasil inteiro emite, por ano, cerca de 1,5 gigatonelada de carbono. Os pesquisadores calcularam a perda econômica que isso poderia gerar, considerando o potencial do mercado de carbono, em mecanismos, por exemplo, como Redd (que visa recompensar o carbono não emitido por desmatamento evitado): entre US$ 5,9 trilhões e US$ 13,7 trilhões.

Pressão. Para chegar a esses números a equipe de Peres trabalhou tanto com modelagem matemática quanto com cálculos feito em campo. Inicialmente, eles espacializaram onde estão todos os domicílios rurais da Amazônia para estimar a pressão de caça que parte de cada domicílio. Eles consideram, por exemplo, que de cada casa há um potencial caçador que pode se deslocar num raio de até 10 km de casa.

Os cientistas trabalharam com um censo anterior da fauna da floresta tropical que calculou a presença de todas as espécies de bicho com mais de 1 quilo de peso, o que inclue praticamente todos os primatas. "Sabemos que cerca de 120 espécies são caçadas. Mas o macaco-aranha, o barrigudo e a anta são os mais sensíveis à pressão da caça e são os melhores dispersores de sementes. Eles comem muita semente e, depois de passarem pelo trato digestivo, já saem prontinhas para germinar. Esses animais são grandes jardineiros", explica Peres ao Estado.

O passo seguinte foi cruzar as informações com o maior inventário da floresta já feito, o Radam-Brasil, no início dos anos 1970, que calculou a distribuição de todas as árvores e sua estrutura em 2.345 parcelas de 1 hectare. Ali foram encontradas quase 130 mil árvores com mais de 32 centímetros de diâmetro.

"Para cada uma dessas 2.345 parcelas a gente impôs um modelo de extinção das espécies de árvores vulneráveis que vão ter sua taxa de recrutamento perdida com a perda dos animais frugíveros. Fizemos mil simulações com a perda dos animais e mil sem essa a perda", afirma o pesquisador. A conclusão é que entre 77% e 88% de todas as parcelas podem ter perda da biomassa de árvores por conta da sobrecaça.

O problema, explica o pesquisador, é que essas árvores de grande porte dependem basicamente desses animais para terem suas sementes dispersas. Como elas têm troncos de alta densidade, são as que estocam mais carbono. "Aos poucos, nas áreas de sobrecaça, essas espécies vão sendo substituídas por árvores de semente pequena e madeira leve, de baixa densidade, que estocam pouco carbono."

"Claro que tem mais gente onde a floresta foi desmatada ou degradada, mas a área total da floresta remanescente que pode ser afetada pela caça é maior que tudo o que foi desmatado até hoje, em 45 anos de exploração", comenta Peres. "Se a sobrecaça de grandes mamíferos continuar, a Amazônia pode perder muito da sua capacidade de estocar carbono", diz.

 

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