Charles Darwin pode ter morrido por Doença de Chagas

Estudioso relatou em seu diário sintomas que podem sugerir o contágio da patologia em viagem à América do Sul

Efe,

17 Novembro 2009 | 16h28

No ano do bicentenário de Charles Darwin (1809-1882), historiadores investigam novos indícios que relacionam a insuficiência cardíaca com a Doença de Chagas, patologia que o estudioso contraiu em uma viagem à América do Sul. Darwin, autor da teoria "A origem das espécies" (1859), conviveu durante toda a vida com as sequelas da patologia parasitária, transmitida pela picada de um percevejo (o barbeiro) - portador do parasita Trypanosoma cruzy, causador do mal de Chagas - quando percorria El Chaco argentino em 1834.

 

Tanto a picada quanto os sintomas posteriores, que agora acreditam esteja relacionado com o Chagas, foram registrados no diário de saúde que o hipocondríaco Darwin utilizou durante a viagem a bordo do Beagle - uma expedição marítima de levantamento topográfico que participou a partir de 1831.

 

Essa viagem, por sinal, marcou a vida do naturista e da ciência, já que foi a base da revolucionária teoria evolucionista, explica à Agência Efe, Jordi Serrallonga, pesquisador do Parc Científic de Barcelona.

 

A Doença de Chagas (descrita pela primeira vez há um século por Carlos Chagas) era originariamente uma patologia endêmica das regiões rurais pobres da América Latina (onde há 15 milhões de pessoas infectadas e 100 milhões com risco de contágio), e que com o passar dos anos foi estendida a outros continentes como consequência da migração.

 

Na fase aguda, na qual pode ocorrer a morte do infectado, a doença pode ser às vezes assintomática. Na fase crônica, que atinge quase 40% dos infectados, a doença se manifesta com fortes dores no aparelho digestivo, complicações neurológicas e problemas cardíacos. As complicações cardíacas, por sua vez, podem levar o doente à morte.

 

Atualmente, a sobrevivência pode ocorrer com a utilização de um marca-passo ou com um transplante, explica Joaquim Gascón, pesquisador do Centro de Barcelona para a Pesquisa Internacional da Saúde (CRESIB, na sigla em inglês) e coordenador do consultório da patologia do Hospital Clinic.

 

Embora a morte de Darwin por Chagas fosse uma possibilidade rejeitada por alguns cientistas porque o naturista anotou em seu diário que após a picada teve febre rapidamente, e esse sintoma não era associado ao mal.

 

Estudos recentes realizados pelo Clinic de Barcelona indicam que há casos nos quais sim é habitual este sintoma na fase inicial, afirma Serrallonga.

 

De fato, o próprio Darwin nunca acreditou que seus problemas de saúde após a viagem com o Beagle, que o mantiveram praticamente recluso em sua casa de campo até o final da vida, tivessem a ver com alguma doença contraída na aventura pela América do Sul.

 

Outras teorias acreditam que os problemas de saúde do biólogo inglês foram em muitos casos psicossomáticos. Conforme Serrallonga, no entanto, uma análise dos sintomas, sobretudo vômitos e náuseas - Darwin sempre tinha à mão uma bacia - indicam que o Trypanosoma cruzy corria por seu corpo. Só uma análise dos tecidos do naturista, enterrado na Abadia de Westminster, solucionaria para sempre este enigma.

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