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Chimpanzés são capazes de confiar

Fernando Reinach

A confiança é parte indispensável da organização social. Em uma relação de confiança, um indivíduo abre mão de uma vantagem imediata, e até aceita uma perda, por acreditar que seu ato pode resultar num ganho futuro. Eu te ajudo hoje porque acredito que você vai me ajudar amanhã. A confiança é minada por dois sentimentos. O primeiro é o egoísmo. Ele impede que o indivíduo aceite uma perda no curto prazo. O segundo é a traição. O indivíduo recebe o favor, mas se esquiva de retribuí-lo.

Não são relações de confiança aquelas ditadas diretamente pelo instinto ou por contratos ou relações regidas por leis ou coerção. Essa é a definição de confiança usada por economistas e psicólogos.

Nos seres humanos as relações de confiança são mais fortes entre amigos e familiares. Mas existe uma grande polêmica sobre quando a confiança surgiu na face da Terra. Seria ela exclusiva dos seres humanos? Existiria entre outros animais? Agora os cientistas demonstraram que os chimpanzés não só confiam um no outro, mas confiam mais nos seus amigos mais próximos.

O estudo foi feito em um grupo de 15 chimpanzés, oito fêmeas e sete machos, que vivem em uma reserva no Quênia. Essa colônia vive livre em uma área de 29 hectares. O estudo teve duas etapas. 

Na primeira, todos os animais foram observados três vezes por dia. O objetivo dessa fase era determinar as relações de amizade entre eles. Para um chimpanzé amizade significa acariciar o outro animal, manter contato físico, ficar próximo e comer lado a lado.

Medindo o tempo gasto pelos 15 animais nessas atividades foi possível determinar para cada chimpanzé quem eram seus melhores e piores amigos.

Na segunda parte do experimento, os chimpanzés foram submetidos a um pequeno jogo para medir o grau de confiança que tinham no seu melhor e pior amigo. Cada membro do par a ser analisado era colocado em uma jaula. Dois trilhos ligavam as jaulas. Em um trilho estava uma caixa com poucas bananas ligadas por uma corda ao macaco que estava sendo testado. Essa era a corda da “desconfiança”. Se o macaco puxasse a corda, o alimento vinha direto para ele e o jogo acabava.

No outro trilho estava uma caixa com duas partições contendo um alimento mais gostoso (bananas e maçãs) e em maior quantidade. A corda ligada a essa caixa, quando puxada, passava por uma roldana, o que levava a caixa para o outro macaco e não para aquele que havia puxado a corda. Essa era a corda da “confiança”. Se ela era puxada, a caixa ia para o outro macaco, que só conseguia retirar os alimentos de uma das duas partições.

Após retirar sua metade, o macaco que recebia o “presente” tinha 60 segundos para puxar a única corda disponível para ele e a caixa voltava para o macaco que havia dado o “presente”. Se ele não puxasse a corda, o experimento terminava. Nesse arranjo, o macaco testado podia puxar a corda da “desconfiança”, e ficar com poucas bananas, ou então puxar a corda da “confiança” e entregar muitas delícias para o parceiro. Nesse caso, o ato de confiança podia ser recíproco, e ele recebia as frutas, ou o outro macaco podia trair a confiança e não devolver o carrinho. Nesse caso, o macaco testado ficava sem alimento.

Cada chimpanzé foi testado nesse aparato com seu melhor e pior amigo. Para cada par, o experimento foi repetido 12 vezes. Um chimpanzé foi incapaz de aprender como o jogo funcionava e foi excluído do estudo. A maioria dos chimpanzés (13 dos 14) acionava a corda da “confiança” com mais frequência quando estava jogando com seu melhor amigo e acionava preferencialmente a corda da “desconfiança” quando estava com seu pior amigo. Por exemplo, um dos animais acionou a corda da “confiança” nas 12 vezes em que foi testado com o amigo, mas somente três vezes quando foi pareado com o pior amigo. Esse resultado demonstra que os chimpanzés confiam mais nos seus amigos. Os cientistas também observaram que essa confiança é justificada. Os amigos retribuíam a confiança devolvendo a caixa de fruta para o amigo com mais frequência.

Esses experimentos demonstram que pelo menos um animal, além do ser humano, é capaz de julgar a confiabilidade de seus pares e estabelecer relações de confiança com seus amigos. Isso significa que os chimpanzés são capazes de julgar se outros indivíduos merecem ou não sua confiança e agir de acordo com esse julgamento. Sem dúvida, um comportamento bastante sofisticado, principalmente se considerarmos o número de vezes que nós, seres humanos, erramos quando fazemos o mesmo julgamento em relação a nossos amigos.

MAIS INFORMAÇÕES: CHIMPANZEES TRUST THEIR FRIENDS. CURRENT BIOLOGY VOL. 26 PAG. 1 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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