‘Ciência psicodélica’ ganha espaço

Pesquisadores investigam como drogas ajudam a tratar dependência química e problemas psiquiátricos; experimentos crescem no País

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Associadas até hoje à contracultura da década de 1960, as drogas psicodélicas cada vez mais ganham espaço nos laboratórios de pesquisas. Diversos grupos de cientistas em todo o mundo têm feito estudos e experimentos com essas substâncias a fim de desenvolver terapias para dependência química e problemas psiquiátricos. Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, nunca houve tanto interesse no que eles chamam de “ciência psicodélica”. 

Os estudos envolvem substâncias como LSD, o MDMA, que é o princípio ativo do ecstasy, a psilocibina, que é o composto ativo dos cogumelos alucinógenos, a ayhuasca, um chá psicoativo produzido a partir de plantas da Amazônia e a ibogaína, substância extraída da raiz da planta africana iboga. Os cientistas querem utilizá-las para tratar ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e dependência de drogas como álcool, cocaína, heroína e crack.

O neurocientista Dráulio Araújo, do Instituto do Cérebro, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), coordena um estudo sobre a ayahuasca (bebida produzida com base em plantas e cipós), voltado para o tratamento de depressão. O interesse científico na área, diz, não para de crescer. Ele menciona, como indicador, o último congresso da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (Maps, na sigla em inglês) - ONG americana pioneira em pesquisas na área. “O congresso anterior reuniu 800 pessoas, há quatro anos. A última edição, em abril, atraiu 3,2 mil, de 40 países.”

Além do grupo coordenado por Araújo na UFRN, diversas instituições brasileiras têm cientistas liderando estudos em substâncias psicodélicas, como Dartiu Xavier, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luis Fernando Tófoli, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jaime Hallak, na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e  Regina Célia de Oliveira, na Universidade de Brasília (UnB).

Segundo Araújo, embora potencial terapêutico dos psicodélicos já tenha chamado a atenção dos cientistas há muitas décadas, a evolução da ciência psicodélica foi detida por muitos anos por causa da proibição e estigmatização de grande parte dessas substâncias. "O que está acontecendo agora é, apesar dos preconceitos, que alguns grupos de pesquisa têm conseguido quebrar as barreiras e fazer pesquisas, com bons resultados. A ciência brasileira tem uma participação muito importante nesse movimento", disse Araújo.

Os estudos em estágio mais avançado estão sendo realizados pelo Maps, que usará o MDMA (metilenodioximetanfetamina, o princípio ativo do ecstasy, uma droga sintética), para o tratamento de estresse pós-traumático. 

Os primeiros testes foram nos Estados Unidos, Canadá e Suíça. Mais de cem pacientes fizeram psicoterapia semanal por cerca de quatro meses, recebendo MDMA em até três das sessões. Após o processo, dois terços superaram o trauma. A última fase dos ensaios clínicos, que inclui testes no Brasil, já está sendo preparada. Se os resultados forem bons, o pedido de aprovação da primeira terapia psicodélica será feito às agências regulatórias em 2021.

“Pessoas com estresse pós-traumático têm extrema dificuldade para falar sobre o trauma, o que bloqueia avanços da psicoterapia. O MDMA ajuda o paciente a construir empatia com o terapeuta, enquanto a sensação de bem-estar causada pela substância permite que ele suporte a lembrança do trauma. Com isso, a terapia tem ótimos resultados”, disse ao Estado o psiquiatra britânico, Ben Sessa, do Imperial College London, cujo grupo trabalha em colaboração com os americanos.

Considerado um dos principais nomes da ciência psicodélica no Reino Unido, Sessa anunciou no início de julho a preparação dos primeiros testes clínicos do mundo para o uso de MDMA no tratamento de alcoolismo severo. “O MDMA mostrou ótimos resultados contra o estresse pós-traumático e muitos dos meus pacientes alcoólicos sofreram, no passado, traumas que têm ligação com a dependência”, afirmou o britânico. 

“Depois de cem anos de psiquiatria moderna, temos tratamentos muito pobres para alcoolismo. As chances de recaída dessas pessoas são de 90%. Precisamos urgentemente de novas terapias”, acrescentou Sessa.

Os cientistas têm se mobilizado em diversas partes do mundo para acelerar os avanços em terapias psicodélicas. Em 2015, o psiquiatra britânico James Rucker publicou um artigo no British Medical Journal fazendo um apelo para que o LSD fosse reclassificado e seu uso liberado em pesquisas científicas no Reino Unido. Os testes clínicos com a droga foram banidos em 1967 na Inglaterra, o que segundo ele acabou com as pesquisas na área.

"No Reino Unido, há mais restrições legais aos psicodélicos do que à cocaína e à heroína. No entanto, as pesquisas feitas nas décadas de 1950 e 1960 mostram que eles têm efeitos benéficos para diversos transtornos psiquiátricos. Nenhuma evidência indica que drogas psicodélicas viciam e muitas evidências históricas mostram que elas podem ser usadas em distúrbios psiquiátricos muito comuns", disse Rucker.

Ben Sessa afirma que na maior parte dos países a legislação para pesquisas com drogas psicodélicas é extremamente restrita e carente de base científica. Ele acredita que as leis deveriam ser revistas, já que a burocracia envolvida nos pedidos de autorização, na prática, inviabiliza as pesquisas.

"As leis que regulam essas drogas são pura pseudociência. A classificação é feita de uma maneira completamente anti-científica, sem qualquer base em evidências. É total ficção: não tem base na farmacologia, ou nos riscos, ou na capacidade de causar dependência. É tudo baseado puramente em estigmas históricos", disse Sessa ao Estado.

No Brasil, o LSD - assim como a cocaína e a heroína - está incluído na Lista F2 das Substâncias de Uso Proscrito. Segundo a norma, "substâncias psicotrópicas que não podem ser objeto de prescrição ou manipulação de medicamentos alopáticos e homeopáticos".

No entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que, independentemente do enquadramento, é possível a pesquisa com qualquer um dos produtos da lista. No caso de drogas com LSD, cocaína e heroína, a instituição de pesquisa precisa comprar a substância por meio de uma empresa de importação de padrões. Como se tratam de substâncias de controle internacional, o embarque também precisa ser autorizado pelo país de origem. "LSD, cocaína e heroína são igualmente proibidos no País e a pesquisa depende de autorização da Anvisa e de importação das substâncias", diz nota da agência.

Apesar de todas as dificuldades, Sessa afirma que os estudos psicodélicos cresceram exponencialmente nos últimos 10 anos. "Um indício promissor é que não se pode mais falar que são estudos feitos por 'alguns doidões'. São pesquisas de primeira classe, nas fronteiras das neurociências, que estão sendo realizadas em instituições acadêmicas consagradas, como as universidades de Oxford, Cambridge, Bristol, Nova York, Harvard, Yale e Johns Hopkins", disse Sessa.

Mente aberta. O psiquiatra Dartiu Xavier, da Unifesp, faz pesquisas com cannabis (princípio ativo da maconha) e ayahuasca. Ele afirma que, apesar dos efeitos diversos, o ponto comum entre todas as drogas psicodélicas é a alteração do estado de consciência. 

“O estado de consciência induzido por essas drogas dá ao psiquiatra e ao próprio paciente um acesso à mente que normalmente não é alcançado. Isso permite que o terapeuta observe coisas que antes ficariam ocultas", explicou Xavier.

De acordo com o cientista, estudos preliminares já sugeriam o potencial terapêutico da ayahuasca na década de 1990. "Começaram a aparecer casos anedóticos de pessoas que tinham um histórico de alcoolismo há mais de 40 anos e, quando começavam a fazer os rituais com ayahuasca, abandonavam o álcool. Vimos que algo muito importante estava acontecendo ali e começamos uma linha de pesquisa para entender os efeitos dessas plantas, avaliar a segurança, descobrir se causa sequelas e tudo mais", disse Xavier.

Segundo ele, os estudos demonstraram que o chá de ayahuasca não oferece riscos. "É bem segura. Claro que vale o mesmo para todas as substâncias psicodélicas: não devem ser administradas para pessoas que têm surtos psicóticos. Fora isso, é muito seguro. Depois da fase de pesquisas sobre a segurança, começamos a estudar os efeitos dessas plantas em dependentes de álcool e cocaína."

Xavier afirma que o grupo também realiza um estudo paralelo sobre o uso terapêutico da maconha no tratamento das  dependências de álcool e cocaína. "Potencialmente, tanto a ayahuasca como a maconha são bons remédios. Mas, para dizermos que são remédios, é preciso realizar testes clínicos", afirmou.

Luis Fernando Tófoli, do departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Unicamp, coordena um grupo interdisciplinar que faz pesquisas sobre a ayahuasca desde 2013. "O foco é a pesquisa em medicamentos fitoterápicos e as investigações vão do plantio até a aplicação, por isso o grupo é interdisciplinar. O objetivo principal é tratar o alcoolismo", declarou. 

Segundo ele, os especialistas na área farmacêutica estão estudando  as formulações do chá, para viabilizar uma aplicação terapêutica. "É preciso pesquisar tudo, desde a formulação - se vamos usar um comprimido, ou o chá, por exemplo - até qual é o tempo viável de prateleira do produto. O principal é obter uma padronização da formulação", disse Tófoli.

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