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Pesquisa identifica mudança cerebral ligada à obesidade

Análise de brasileiros foi apresentada nos EUA; alteração foi identificada em adolescentes e está ligada ao controle do apetite

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2017 | 08h00
Atualizado 01 Dezembro 2017 | 12h38

SÃO PAULO - Graças a uma técnica avançada de ressonância magnética, um grupo de cientistas brasileiros descobriu que os adolescentes obesos apresentam falhas de conectividade entre diferentes regiões do cérebro que estão envolvidas na regulação do apetite.

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O novo estudo, realizado por cientistas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e da Universidade de São Paulo (USP), foi apresentado nesta quarta-feira, 29, no encontro anual da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

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De acordo com os autores da pesquisa, se for possível identificar com mais precisão as alterações cerebrais associadas à obesidade, a técnica poderia ser utilizada um dia para ajudar a evitar o problema. Segundo eles, a obesidade infantil aumentou de 10% a 40% nos últimos 10 anos, na maioria dos países.

“Os resultados mostraram que os adolescentes obesos de fato apresentam falhas na substância branca do cérebro. Essas falhas aparecem em diversas regiões do cérebro, sendo que algumas dessas regiões são muito importantes para a regulação do apetite”, disse o autor principal do estudo, Ricardo Uchida, professor da FCMSCSP. 

De acordo com ele, porém, ainda não é possível determinar se as falhas na conectividade cerebral são causa ou consequência da obesidade.

“O estudo não tem alcance para determinar relação causal. Mas, embora não tenhamos certeza, temos algumas hipóteses. Sabemos, por estudos anteriores, que a obesidade infantil causa prejuízos nas células e, portanto, suspeitamos que essas lesões são causadas pela obesidade”, disse Uchida ao Estado.

O cientista lembra também que, de acordo com estudos anteriores, a obesidade é um fator de risco para a doença de Alzheimer, que há uma ligação entre obesidade na infância e baixo QI e que os problemas de atenção e memória são frequentes entre adultos obesos.

“Tudo isso pode estar ligado. Se a obesidade produz mesmo lesões no cérebro, isso explicaria algumas das consequências neurológicas que já foram observadas em estudos.” 

Método

O estudo envolveu 59 adolescentes obesos com idades entre 11 e 18 anos e 61 adolescentes não obesos. Os cientistas compararam os grupos controlando variáveis como gênero, idade, classificação socioeconômica e nível educacional. Os participantes foram submetidos a exame de ressonância magnética conhecido como imageamento por tensor de difusão (DTI, na sigla em inglês), com a intenção de avaliar a integridade da massa branca dos cérebros.

 

O DTI mede o que os cientistas chamam de “anisotropia funcional” (AF), isto é, os movimentos microscópicos das moléculas de água que cercam as fibras de matéria branca do cérebro. Quanto mais baixo o valor AF, mais falhas existem na massa branca cerebral. Os resultados mostraram uma perda da integridade da matéria branca em diversas regiões do cérebro dos jovens obesos.

“Se nós formos capazes de identificar as alterações cerebrais associadas à obesidade, essa técnica de ressonância magnética poderia ser utilizada para ajudar a evitar a obesidade e as complicações a ela associadas”, disse uma das autoras do novo estudo, Pamela Bertolazzi, pesquisadora do laboratório de neuroimagem da USP.

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