Idor / Stevens Rehen
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Cientistas brasileiros revelam efeitos positivos de substâncias psicodélicas no cérebro

Utilizando 'minicérebros', grupo de pesquisadores de várias instituições mostrou que psicodélico modifica cerca de mil proteínas no tecido neural, produzindo efeitos antidepressivos e anti-inflamatórios

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 10h57

Com estudos feitos em organoides celulares conhecidos como "minicérebros", um grupo de cientistas brasileiros mostrou como uma substância psicodélica produz alterações potencialmente benéficas em circuitos cerebrais associados à neuroplasticidade, à inflamação e à neurodegeneração.

A pesquisa, publicada nesta segunda-feira, 9, na revista científica Scientific Reports, é a primeira a revelar as alterações que drogas psicolélicas causam no funcionamento molecular do tecido neural humano. De acordo com os autores, os resultados ajudam a explicar os efeitos antidepressivos e anti-inflamatórios que as substâncias psicodélicas vêm mostrando em diversos outros estudos.

No experimento, os cientistas utilizaram o 5-MeO-DMT, um composto análogo à dimetiltriptamina (DMT), que está presente no chá de ayahuasca - uma mistura alucinógena de plantas da Amazônia, utilizada ritualmente por indígenas para produzir estados alterados de consciência. 

"Pela primeira vez pudemos descrever mudanças relacionadas a psicodélicos no funcionamento do tecido neural humano", disse o autor principal do estudo, Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

As drogas psicodélicas estão cada vez mais ganhando espaço nos laboratórios de pesquisas, como mostrou reportagem do Estado. Diversos grupos internacionais têm feito estudos e experimentos com substâncias como o DMT da ayahuasca, o LSD, o MDMA e a psilocibina - um cogumelo alucinógeno - a fim de desenvolver terapias para problemas psiquiátricos como ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e para a dependência de drogas como álcool, cocaína, heroína e crack.

Apesar dos resultados promissores em um número cada vez maior de pesquisas, a identificação dos circuitos moleculares envolvidos com a ação dos psicodélicos no cérebro era limitada pelas restrições para estudos com essas substâncias e pela falta de ferramentas biológicas apropriadas. 

Para estudar os efeitos do composto análogo ao DMT, Vania Dakic e Juliana Minardi Nascimento, do Instituto D'Or de pesquisa e Ensino (Idor) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) expuseram organoides cerebrais - que são culturas de células neurais tridimensionais que imitam um cérebro em desenvolvimento - a uma única dose do psicodélico.

"Os minicérebros funcionam como se fossem avatares biológicos do cérebro humano. Nessa abordagem, utilizamos esse método combinado à espectrometria de massas e a análise in silico (computacional)", explicou Rehen, que utilizou o método recentemente em estudos pioneiros sobre o vírus da zika.

Depois de receber o psicodélico, os "minicérebros" foram submetidos a uma análise proteômica - isto é, um mapeamento do conjunto de proteínas neles presentes. Eles conseguiram, assim, observar alterações na expressão de quase mil proteínas - e conseguiram identificar qual o papel delas no cérebro humano.

Segundo Rehen, depois de um período de amadurecimento de 45 dias, os minicérebros foram separados em dois grupos. Um deles foi tratado com o 5-MeO-DMT e o outro permaneceu sem tratamento por 24 horas, para controle. Com as tecnologias de análise proteômica, os cientistas verificaram quais das mais de 6 mil proteínas presentes estavam aumentadas nos minicérebros tratados com a substância. 

"Identificamos quase mil proteínas diminuídas e aumentadas nos organoides e ferramentas computacionais nos ajudaram a determinar quais vias metabólicas essas proteínas estavam regulando. Com isso, pudemos vislumbrar quais são as vias metabólicas alteradas no tecido cerebral pela exposição ao psicodélico", explicou Rehen.

Efeitos positivos

Os cientistas descobriram que, nos minicérebros tratados com DMT, houve um aumento na expressão de proteínas importantes para a formação das sinapses - entre elas, proteínas relacionadas aos mecanismos celulares de aprendizado e memória, que são componentes centrais do funcionamento do cérebro.

Por outro lado, houve uma redução na expressão de proteínas envolvidas em inflamação, degeneração e lesão cerebral, sugerindo que a substância psicodélica tem um potencial papel de proteção neural.

"Os resultados sugerem que os psicodélicos clássicos são poderosos indutores da neuroplasticidade - uma ferramenta de transformação psicobiológica sobre a qual sabemos muito pouco", disse Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro, ligado à UFRN, outro dos autores do novo estudo.

"Os resultados foram bastante interessantes. Mostraram uma grande quantidade de vias alteradas, o que nos trouxe informações cuja obtenção seria impossível com outros modelos de estudos", afirmou Rehen.

Segundo o cientista, o novo trabalho estimula o estudo das substâncias psicodélicas. "Não estamos dizendo que essas substâncias já podem ser usadas para terapias, mas vários estudos brasileiros têm revelado na ayahuasca efeitos antidepressivos importantes e é preciso investigar. A nossa pesquisa sinaliza para o potencial terapêutico que precisa ser confirmado por novos estudos", afirmou Rehen.

"O estudo sugere possíveis mecanismos pelos quais essas substâncias exercem seus efeitos antidepressivos, que temos observado em nossas pesquisas. Nosso estudo reforça o potencial clínico escondido dessas substâncias que estão hoje sob restrições legais, mas que merecem total atenção das comunidades médica e científica", afirmou Draulio Araújo, outro dos autores, que é professor da UFRN.

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