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Cientistas conseguem editar genoma de embrião humano para evitar doença hereditária

Pesquisadores americanos usaram técnica de edição genética para corrigir mutação causadora de problema cardíaco hereditário

Fábio de Castro e Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 14h06
Atualizado 02 Agosto 2017 | 23h07

Pesquisadores inauguraram nesta quarta-feira, 2, uma nova era da ciência e da bioética aplicada à reprodução humana, com a comprovação de que é possível corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e, dessa forma, impedir a transmissão de doenças genéticas hereditárias.

A notícia, que havia vazado na semana passada, foi confirmada com a publicação de um trabalho na revista Nature. O estudo, realizado nos Estados Unidos, utilizou uma técnica conhecida como Crispr-Cas9 (ou simplesmente Crisper) para editar o DNA de embriões humanos e corrigir uma mutação associada ao risco de falência cardíaca e morte súbita. 

Os embriões foram gerados por fertilização in vitro, para fins de pesquisa, utilizando células de doadores. Foram destruídos após três dias e não chegaram a ser implantados – até porque não há autorização legal para isso. Não há razão técnica, porém, pela qual eles não poderiam desenvolver-se normalmente caso fossem transferidos para um útero, provocando uma série de questionamentos éticos sobre um possível uso eugênico da tecnologia, para a produção de bebês com características específicas, não relacionadas à cura de doenças.

“Provamos que esse método de correção genética em embriões é seguro e pode ser potencialmente usado para prevenir a transmissão de doenças genéticas para futuras gerações”, disse a pesquisadora Paula Amato, da Universidade de Saúde e Ciências do Oregon, em uma coletiva internacional de imprensa. Ela enfatizou, porém, que “mais pesquisas e discussões éticas são necessárias antes de proceder para testes clínicos” da tecnologia. “Ainda há um longo caminho pela frente”, disse Sanjiv Kaul, outro coautor do trabalho.

Tecnologia. Inventada há apenas cinco anos, a Crisper se tornou uma tecnologia revolucionária quase que instantaneamente. Ela permite fazer modificações genéticas de forma muito precisa, por meio da combinação de uma “sequência guia” de material genético associada a uma enzima especial (a Cas9), que corta o DNA em pontos específicos do genoma. 

Com isso é possível desligar genes ou, como foi feito de forma pioneira neste estudo, “desfazer” uma mutação, induzindo o genoma a se reconstruir da forma correta após o corte.

O gene corrigido neste caso foi o MYBPC3, responsável pela síntese de uma proteína envolvida no controle do músculo cardíaco. Quando mutado, ele causa cardiomiopatia hipertrófica, uma doença hereditária que pode causar morte súbita, presente no DNA de 1 em cada 500 pessoas no mundo.

Os pesquisadores usaram espermatozoides de um portador da mutação para fertilizar óvulos e utilizaram a Crisper para corrigir o defeito genético desde o início do desenvolvimento embrionário. A ideia é que isso possa ser usado para aumentar o número de embriões saudáveis disponíveis para casais portadores de doenças genéticas, em combinação com a técnica de diagnóstico genético pré-implantacional, que permite identificar se um embrião gerado por fertilização in vitro tem a mutação ou não.

Ética. Segundo Kaul, caberá às agências reguladoras determinar os limites éticos do uso da tecnologia, definindo o que pode ou não ser mexido no DNA dos embriões. São conhecidas mais de 10 mil doenças monogênicas, causadas por mutações em um único gene, e a técnica, teoricamente, poderia ser usada em qualquer uma delas.

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‘Aspectos éticos precisam ser considerados’, dizem especialistas sobre técnica com DNA

Pesquisadores comprovaram que é possível corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 21h59

Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que a nova técnica levanta preocupações éticas e que sua aplicação clínica necessitará de muitos estudos. Pesquisadores comprovaram que é possível corrigir falhas no DNA de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro.

A presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Regina Parizi, destaca que esse tipo de método deve ser usado exclusivamente para corrigir problemas de saúde. “Há um temor relacionado ao seu uso em intervenções de melhoramento genético humano. Esse tipo de manipulação ainda está no campo da ficção, mas é preciso ter atenção, porque as consequências seriam muito sérias - agregar à desigualdade socioeconômica uma desigualdade biológica seria uma tragédia. Estudos exaustivos têm de ser feitos para cercar essas técnicas da máxima segurança possível.”

Angela Saito, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), utiliza cotidianamente a técnica Crisper para pesquisas em camundongos. "Quando queremos estudar um gene em particular, podemos usar a técnica Crisper para fazer o nocaute, isto é, 'desligar' o gene, inserindo assim uma mutação de interesse. Com isso podemos reproduzir uma mutação que cause uma doença específica e conseguimos estudá-la. A técnica e muito importante para modelos de pesquisa em organismos animais", disse Angela.

A pesquisadora elogia a nova técnica, mas alerta para o risco de que ela corrija uma mutação, mas produza outras ainda imprevisíveis. “É um trabalho bem feito, com tecnologias avançadas, mas a aplicação para a correção de embriões humanos está distante. Na prática, o controle do processo é difícil e há risco de que a técnica produza mutações indesejadas.”

Usuário frequente da técnica CRISPR em seu laboratório, o médico José Xavier Neto, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), afirma que as aplicações médicas, na forma apresentada no estudo, são improváveis. "O trabalho é uma prova de conceito de alto valor científico, mas ninguém vai usar essa técnica na prática para garantir que seu bebê não terá uma mutação indesejável, porque isso já é feito de uma maneira tremendamente simples".

Segundo Xavier, atualmente os embriões são analisados no início de seu desenvolvimento para identificar aqueles que possuem o a cópia mutante do gene. "Na prática, basta identificar os embriões que possuem a mutação deletéria e não implantá-los. Nenhum casal vai optar por editar os genes mutantes se há possibilidade de simplesmente não recorrer a eles. Por isso o estudo é uma investigação puramente científica, como aplicação, não se sustenta."

Eficácia. O pesquisador Daniel Brison, da Universidade de Manchester, do Reino Unido, ressalta que a tecnologia ainda não é totalmente eficaz. “Embora seja um avanço considerável, é preciso destacar que a tecnologia não foi 100% eficiente.” Nesse tipo de doença, o porcentual de embriões naturalmente saudáveis gerados pela fertilização é de 50% e o procedimento aumentou a taxa para 74%.

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Análise: Pesquisas devem seguir em benefício da humanidade

Para especialista, estudo poderá abrir caminho para o desenvolvimento de métodos que corrijam mutações genéticas hereditárias e impeçam a sua transmissão

Mayana Zatz *, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 22h02

O estudo é de grande importância para aprimorar a ferramenta Crisper de edição do genoma e entender como ela funciona em embriões humanos, o que poderá abrir caminho para o desenvolvimento de métodos que corrijam mutações genéticas hereditárias e impeçam a sua transmissão.

Sou totalmente a favor desse tipo de pesquisa. Hoje, quando um casal faz reprodução assistida e quer evitar que o filho herde uma mutação genética causadora de doenças, os embriões sem a mutação são implantados e os demais, descartados. Com a técnica de Crisper, seria possível no futuro corrigir o defeito sem descartar embriões e, ao mesmo tempo, garantir que a mutação não seja transmitida para as gerações seguintes.

Um longo caminho terá de ser percorrido até que a técnica possa ter aplicação médica, mas o essencial é que as pesquisas continuem. Quem se opõe a esses estudos acredita que a técnica poderia ser utilizada para manipular o genoma humano de forma a desenhar pessoas com características desejadas - uma espécie de eugenia -, mas estamos muito distantes disso. Mesmo que não houvesse qualquer preocupação com ética, características como beleza e habilidade para esportes, por exemplo, são multifatoriais e dependem de vários genes. Esse tipo de manipulação seria algo muito difícil de executar na prática. 

O importante é que as pesquisas prossigam, com foco em doenças genéticas. Há muito controle no que está sendo feito e ninguém vai implantar esses embriões no útero de uma mulher sem segurança. Se não fizermos pesquisas, não vamos aprender a utilizar essas tecnologias para o benefício da humanidade.

* É DIRETORA DO CENTRO DE PESQUISAS DO GENOMA HUMANO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

 

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