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Cientistas criam grupo na USP para empreender

Herton Escobar - O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 19h 33

Projeto visa à transformação de descobertas científicas em inovações tecnológicas

 Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão buscando inspiração na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, para fomentar o empreendedorismo na academia brasileira e incentivar cientistas a se engajar de forma mais intensa na transformação de suas descobertas científicas em inovações tecnológicas, principalmente na área da saúde.

Para isso, é preciso atravessar o chamado “vale da morte”, uma região escassa de recursos e cheia de incertezas que separa a produção de ciência básica na academia do desenvolvimento de novas tecnologias na indústria. No caso da biomedicina, o caminho inicial que uma descoberta precisa percorrer para sair da bancada do laboratório, na forma de uma publicação científica, e ter uma chance de chegar ao leito do paciente, na forma de uma nova droga ou terapia.

A maioria dos pesquisadores prefere não se aventurar por essas terras selvagens, além dos muros da academia; e aqueles que arriscam uma travessia muitas vezes se perdem no meio do caminho, ou dão de cara com portas fechadas no final. 

“Muitas ideias revolucionárias morrem na academia porque os resultados são preliminares demais para despertar o interesse da indústria”, diz a química Daria Mochly-Rosen, cientista, empresária e criadora do programa Spark na Escola de Medicina de Stanford - que pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Escola Politécnica querem replicar na USP, em parceria com a empresa química Dow.

“A academia não pode fazer só pesquisa básica. Quando houver potencial para inovação, precisa avançar um pouco mais, fazer as provas de conceito, para provar para a indústria que aquela descoberta tem potencial comercial”, reforça o jovem professor Julio Ferreira, do ICB, que fez pós-doutorado no laboratório de Daria e voltou de lá determinado a introduzir o modelo Spark no Brasil - rebatizado como Supernova.

O programa funciona como um híbrido de incubadora, agência de fomento e curso de capacitação. A cada ano, cerca de 10 projetos de pesquisa com potencial para gerar novos fármacos e terapias são escolhidos para receber uma ajuda financeira (de US$ 50 mil/ano) e algo que Daria considera muito mais valioso: aconselhamento profissional e gratuito, oferecido por especialistas da indústria que participam de encontros semanais com os pesquisadores. 

As reuniões são a portas fechadas e todos os participantes assinam um acordo de confidencialidade sobre o que é discutido na sala, de forma que os pesquisadores podem apresentar seus resultados, dúvidas e apostas livremente, sem temer pela segurança da propriedade intelectual de seus dados.

Segundo Daria, os conselheiros são o “ingrediente secreto” da receita de sucesso do programa. Nenhum deles é pago. São empreendedores experientes, que participam das reuniões pelo prazer de compartilhar seu expertise, diz.

Eles aconselham os cientistas sobre o melhor caminho a seguir, o que levar na mochila e quando dar meia volta, caso necessário. “Um dos segredos do sucesso é saber quando o fracasso virá; quando é hora de abortar”, concorda o físico Vanderlei Bagnato, coordenador da Agência USP de Inovação, que participou de uma série de três debates promovidos no ICB no primeiro semestre, para discutir a implementação do modelo Spark no instituto.

Sucesso. A taxa de sobrevivência daqueles que se aventuraram pelo vale da morte com o apoio do Spark é alta. Dos 51 projetos “graduados” pelo programa nos últimos sete anos, 22 geraram produtos que já estão em uso clínico. Apenas 8 (16%) não concluíram a travessia - ou seja, não geraram um produto ou foram descontinuados no meio do caminho. 

Para Daria, a taxa baixa de insucesso é um mau sinal. “Deveria ser bem mais alta”, diz ela. “Significa que o programa é pequeno demais; que há muitas outras ideias por aí que ainda precisam ser testadas.” 

Essa é uma das lições básicas do empreendedorismo: não ter medo de arriscar nem de fracassar. “O sucesso te ensina muito pouco; só no fracasso você aprende o que precisa fazer para melhorar”, sentencia Daria.

O vice-diretor do ICB, Luís Carlos de Souza Ferreira, aposta que o programa será um sucesso. “Não basta apenas publicar; precisamos urgentemente começar a inovar”, diz.

Os resultados dos três debates serão combinados agora para definir como melhor adaptar o programa à realidade brasileira e definir um plano de trabalho, para colocar o Supernova em prática em 2015.

‘Missão é melhorar a saúde das pessoas, não gerar lucro’

Daria Mochly-Rosen conhece bem os desafios que pesquisadores universitários enfrentam - também nos Estados Unidos, e mesmo em uma universidade de ponta como Stanford - para fazer inovação na academia.

No fim dos anos 1990, ela e seus alunos descobriram um grupo de pequenas moléculas (peptídeos) capazes de reduzir as sequelas de um enfarte no músculo cardíaco de animais. Ela patenteou a descoberta e tentou licenciá-la para empresas farmacêuticas, para que os peptídeos fossem testados em seres humanos. Mas os resultados eram muito preliminares e nenhuma indústria se interessou.

Daria, então, resolveu abrir uma empresa e investir na descoberta ela mesma.

Em 2002, fundou a KAI Pharmaceuticals, levantou dinheiro com investidores e conseguiu autorização do FDA para realizar os ensaios clínicos preliminares. O peptídeo do infarto não vingou - os efeitos em seres humanos ficaram abaixo do esperado -, mas a empresa prosperou com outro peptídeo (usado para doenças renais) e foi adquirida dez anos depois pela gigante Amgen, por US$ 315 milhões. 

Daria, porém, não abandonou a academia nem a pesquisa básica. O dinheiro, diz ela, deve ser uma consequência, não um objetivo, do empreendedorismo na biomedicina. “A missão do Spark é melhorar a saúde dos pacientes, não melhorar o currículo do pesquisador ou gerar dinheiro para a universidade”, diz. O programa não recebe nenhum royalty dos projetos que apoia. 

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