Instituto Salk
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Cientistas desenvolvem embrião híbrido de porco e células humanas

Estudo foi considerado importante para a área e visa a, no futuro, conseguir desenvolver órgãos humanos em animais para realizar transplantes; 'Passo inicial', diz responsável

O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2017 | 19h30

SAN DIEGO (CALIFÓRNIA) e NOVA YORK - Pela primeira vez, cientistas conseguiram desenvolver um embrião que é parte porco, parte humano. O experimento, descrito nesta quinta-feira, 26, na Revista Cell, consistiu na injeção de células-tronco humanas em um embrião de um porco, implantando-o, em seguida, no útero do animal e permitindo que houvesse o desenvolvimento. Depois de quatro semanas, as células-tronco começaram a se transformar em vários tipos de tecidos, como coração, fígado e neurônios, e uma pequena porção do porco em desenvolvimento era composto por células humanas, relataram a agência Associated Press e o jornal The Washington Post.

Foi a primeira demonstração de que um transplante interespécie é possível. Pesquisadores esperam que um dia se possa desenvolver tecidos completos usando a técnica, tornando órgãos desenvolvidos em animais disponíveis para humanos doentes. “Qualquer desenvolvimento de órgãos ainda está bem longe de acontecer”, ponderou Juan Carlos Izpisua Belmonte do Instituto Salk, em  La Jolla, no Estado da Califórnia, um dos autores do artigo na Cell. “A pesquisa é um passo muito incipiente em direção ao objetivo”, acrescentou. 

O estudo mostrado na Revista Cell foi o resultado de quatro anos de trabalho envolvendo 1,5 mil embriões de porcos. Os embriões não eram geneticamente modificados. Porcos são considerados ideais já que os órgãos são quase do mesmo tamanho e atingem o tamanho completo mais rapidamente do que em humanos e outros primatas. “Você vai de uma célula a 100 quilos, um tamanho médio do animal, em nove meses”, disse Pablo Ross, da Universidade da Califórnia. “Penso que é bastante razoável quando se pensa no fato de que a espera média por um transplante de rim é de cerca de três anos”, acrescentou. Izpisua Belmonte disse ainda haver um longo caminho pela frente.

Ética. A técnica já é alvo de um debate intenso sobre a ética envolvida na introdução de material humano em animais. Desde 2015, o Instituto Nacional de Saúde suspendeu repasses a pesquisas envolvendo a mescla de material humano e animal. O estudo divulgado nesta quinta não contou com financiamento de verbas federais. 

A mistura já ocorreu anteriormente em experimentos envolvendo ratos. Animais maiores, como porcos, seriam necessários para fazer órgãos de dimensões humanas. A equipe do Instituto Salk está trabalhando no objetivo de desenvolver pâncreas, corações e fígados em porcos. Os animais desenvolveriam os materiais no lugar dos deles próprios e, então, seriam sacrificados para remoção. 

Injetar células-tronco da pessoa que receberá o transplante, diminuiria o problema da rejeição, disse outro pesquisador do Salk, Jun Wu. Daniel Garry, da Universidade de Minnesota, que não está trabalhando na pesquisa, classificou o estado como “animador passo inicial para o campo de estudo”. 

Os pesquisadores disseram que planejavam maneiras de focar no desenvolvimento de células humanas para obter tecidos específicos, enquanto se tentava evitar qualquer influência no cérebro, esperma e óvulos dos animais. Isso contemplaria preocupações éticas de que o estudo pudesse acidentalmente levar porcos a ganhar qualidades humanas no cérebro ou desenvolver óvulos e esperma humanos. Não houve nenhum sinal disso no novo estudo.

Vardit Ravitsky, pesquisador de Bioética da Escola de Saúde Pública da Universidade de Montreal, disse ao Post que esse e outro estudo publicados nesta semana abrem espaço para mostrar os eventuais benefícios do campo de estudo. “Penso que o ponto desses artigos é algo como provar um princípio, mostrando que os pesquisadores pretendem alcançar com quimeras não humanas talvez seja possível”, disse ao jornal americano. “Quanto mais se consegue mostrar que isso poderá salvar vidas, mais demonstramos que o benefício é real, tangível e provável”, acrescentou.

Em um esforço para combater a fila de transplantes no mundo - cerca de 22 pessoas morrem por dia na espera por órgãos - cientistas vem tentando desenvolver órgãos fora do corpo humano. “É aqui que esse tipo de experimento se torna razoável”, disse Izpisua Belmonte. “E se deixarmos que a natureza faça o trabalho para nós? E se simplesmente colocarmos células humanas no embrião e embrião souber o que fazer?” /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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