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Redescoberta espécie de ave rara do Cerrado desaparecida há 75 anos

Cientistas brasileiros encontraram em Minas Gerais pelo menos 12 espécimes da rolinha-do-planalto, registrada pela última vez em 1941 e considerada extinta por especialistas; segundo autores, achado demonstra importância do licenciamento ambiental

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Fábio de Castro ,
O Estado de S. Paulo

21 Maio 2016 | 19h46

Uma das aves mais raras do mundo foi "redescoberta" no Cerrado de Minas Gerais por um grupo de cientistas brasileiros. Observada pouquíssimas vezes, a rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) teve o último registro comprovado há 75 anos e já era considerada extinta por muitos especialistas.

A confirmação da redescoberta foi anunciada hoje  por pesquisadores do Observatório de Aves do Instituto Butantan e da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil).

Até agora, eles identificaram pelo menos 12 indivíduos. Segundo os cientistas, o animal, por sua extrema raridade, é uma prova viva da importância do licenciamento ambiental, cuja obrigatoriedade está sendo derrubada por um Projeto de Emenda Constitucional em tramitação no Senado.

Espécie exclusiva do Brasil, a rolinha-do-planalto se destaca pelos olhos azuis claros e manchas azuis escuras nas asas, que se destacam da plumagem predominantemente castanho-avermelhada. Descoberta em 1823, a ave só foi vista novamente em 1904 e, depois, em 1941. Desde então sua presença nunca mais foi registrada.

Em junho de 2015, o animal foi avistado quase por acaso pelo ornitólogo Rafael Bessa, durante uma expedição pelo Cerrado. Ele conta que, ao fazer trabalho em uma região isolada, procurava um atalho para uma outra área quando se deparou com um local particularmente bonito, que tinha aspecto diferente do restante do Cerrado. Resolveu fazer uma parada e, ali, ouviu um canto desconhecido.

"Na manhã seguinte, voltei ao lugar  e consegui gravar essa vocalização com meu microfone. Reproduzi o som e a ave veio em minha direção, pousando em um arbusto no meio da florada. Fotografei o animal e, quando olhei a foto com atenção, no visor da câmera, vi que tinha registrado algo incomum. Minhas pernas começaram a tremer", disse Bessa ao Estado.

Bessa ainda não sabia, mas tinha tirado a primeira foto da rolinha-do-planalto na História: o animal só era conhecido a partir de espécimes coletados no século passado e taxidermizados (empalhados) em museus. O ornitólogo conta que correu para o hotel onde estava hospedado e entrou imediatamente em contato com o pesquisador Luciano Lima, do Observatório de Aves do Instituto Butantan.

Segundo Lima, também ornitólogo, não se sabia praticamente nada sobre a espécie. Mesmo o azul singular de seus olhos não era conhecido, porque os exemplares taxidermizados não preservam as cores com exatidão. Além de obter a primeira foto da ave, Bessa também foi o primeiro a registrar sua vocalização.

"Minha reação foi de completo espanto. Nessas horas procuramos ser o mais céticos possível, mas eu tinha fotos de espécimes de museus e foi só compará-las para confirmar. Eu disse ao Rafael: 'você redescobriu o bicho'. É uma descoberta que será muito celebrada. Grandes afirmações exigem grandes provas - e o Rafael conseguiu a prova de que a rolinha-do-planalto continua existindo", declarou Lima.

A partir daí, os pesquisadores começaram a reunir informações sobre o animal e conseguiram o apoio do SAVE Brasil, representante da BirdLife International que apoia e financia a pesquisas. Eles formaram uma equipe que, além de Bessa e Lima, inclui os ornitólogos Wagner Nogueira - da SAVE Brasil -, Marco Rego e Glaucia Del-Rio, ambos do Museu de Ciência Natural da Universidade Estadual da Luisiânia (Estados Unidos).

Além de trabalhar no registro científico da redescoberta, os cientistas passaram os últimos meses elaborando um plano de conservação, com o objetivo de assegurar a sobrevivência da ave a longo prazo. A localização exata do achado só será divulgada quando o plano de conservação estiver pronto e em operação.

Ave incomum. Segundo Nogueira, existem oito espécimes da rolinha-do-planalto taxidermizados em museus. Cinco deles haviam sido coletados na Serra das Araras, em Mato Grosso e os outros no sul do Goiás e no interior de São Paulo. Dois estão no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e os demais distribuídos nos Estados Unidos e na Europa. Na natureza, a equipe sabe que existem pelo menos uma dúzia de indivíduos.

"O local da redescoberta foi visitado novamente em quase todos os meses desde então. Em todas as ocasiões avistamos espécimes da rolinha-do-planalto, mas o número de indivíduos variava, provavelmente por causa das alterações de seu comportamento ao longo do ano. O máximo que encontramos foram 12 aves juntas. Como eles não estão marcados, só podemos afirmar que existem pelo menos 12 espécimes na natureza", explicou Nogueira.

Nogueira conta que a equipe também passou a visitar outras áreas que têm grande potencial para abrigar a espécie. "Usamos a técnica conhecida como modelagem ecológica, que cruza os dados do ambiente para encontrar áreas pontenciais de ocorrência. Associamos essas informações da modelagem ao nosso conhecimento prévio do Cerrado e da região. Já visitamos diversas áreas, mas até o momento não tivemos sucesso. As buscas continuam", disse Nogueira.

Ambiente raro. O ambiente onde foi encontrada a ave, em Minas Gerais, é bastante especial, segundo Nogueira. "É um ambiente associado a afloramentos rochosos, mais baixo, mais arbustivo que outras partes do Cerrado, com solo bastante pedregoso e arenoso. A vegetação é bem fechada na área onde vive a rolinha-do-planalto", explicou.

Segundo Bessa, a ave representava um dos grandes mistérios da ornitologia brasileira. Ela já era considerada rara mesmo na época em que o Cerrado ainda não havia sido devastado e ficou sumida por longo tempo até ser registrada pela última vez em 1941.

"Até hoje não entendemos por que ela desapareceu dessa maneira. Mas o fato de encontrá-la nesse ambiente especial sugere que sua raridade se deve ao fato dela estar associada a um micro-habitat muito específico", disse. Bessa.

Nogueira afirma que o ambiente onde foi encontrada a rolinha-do-planalto talvez seja tão raro quanto o próprio animal. "Talvez a maior parte das áreas do Cerrado onde se encontra esse tipo de ambiente já tenha sido devastada - o que explicaria o fato da ave estar perdida há tanto tempo. Agora que a encontramos novamente, temos a oportunidade de garantir sua conservação", disse.

Lima explica que essa especificidade geográfica é uma das principais razões para que empreendimentos tenham estudos de licenciamento ambiental rigorosos. "Está em tramitação um Projeto de Emenda Constitucional que vai flexibilizar - e praticamente extinguir - o licenciamento ambiental. A rolinha-do-planalto é um exemplo perfeito da importância de se manter o licenciamento ambiental. Sem isso, uma espécie como essa pode ser extinta de uma só vez", disse Lima.

Segundo Nogueira, a rolinha-do-planalto prova que a construção de uma pequena pedreira ou um condomínio de pequenas dimensões em uma determinada área, sem um licenciamento ambiental adequado, seria suficiente para decretar o fim de uma espécie inteira.

Lima explica que no Cerrado - assim como na Mata Atlântica, na Amazônia e outros biomas - há ambientes muito diversos e cada um deles pode abrigar espécies raras como a rolinha-do-planalto.

"O que chamamos de Cerrado é um conjunto de diferentes ecossistemas. Por isso, um animal que existe em uma região do Cerrado não existe necessariamente em todo o bioma. Assim, se destruirmos um pedaço de mata em um local específico, talvez estejamos levando à extinção espécies que só vivem ali".

Lima afirma que conhecer melhor a biodiversidade brasileira é o primeiro passo para que se garanta sua conservação. "Ao fazer isso, estamos contribuindo com o aumento da qualidade de vida e a saúde de todas as espécies, incluindo a nossa", disse.

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