G. Hüdepohl/ESO/Atacamaphoto
G. Hüdepohl/ESO/Atacamaphoto

Começa no Chile a construção do maior telescópio já projetado

Equipamento sobre montanha no Deserto do Atacama permitirá observação precisa de objetos distantes do Universo; mesmo depois de sete anos de negociações, a adesão definitiva do Brasil ao projeto é cada vez mais incerta

Fábio de Castro, Enviado especial

26 Maio 2017 | 17h00
Atualizado 01 Junho 2017 | 18h59

CERRO ARMAZONES - O maior e mais sofisticado telescópio já projetado na História da humanidade começou a ser construído nesta sexta-feira, 26, sobre uma montanha no deserto do Atacama, no norte do Chile.  Quando começar a operar - a previsão é 2024 -, o European Extremely Large Telescope (E-ELT) permitirá que os astrônomos observem objetos distantes do Universo com uma precisão que nunca foi alcançada por nenhum outro instrumento óptico, na Terra ou no espaço.

A adesão definitiva do Brasil ao projeto, porém, fica cada vez mais incerta com a crise econômica e política, mesmo depois de sete anos de negociações.

"O E-ELT produzirá descobertas que simplesmente nem podemos imaginar hoje, e certamente irá inspirar inúmeras pessoas em todo o mundo a pensar em ciência,  em tecnologia e no nosso lugar no Universo. Isso trará grandes benefícios aos países membros do ESO, ao Chile e ao resto do mundo", disse o diretor geral do ESO, Tim de Zeeuw, durante a cerimônia de lançamento da pedra fundamental do telescópio.

O local escolhido para a construção - a montanha de 3 mil metros chamada Cerro Armazones, a cerca de 1.200 quilômetros ao norte de Santiago - fica numa região privilegiada para a astronomia. Um dos lugares mais áridos da Terra, o deserto chileno se beneficia de um céu noturno deslumbrante e límpido, quase sempre livre de nuvens, graças à baixíssima umidade do ar. No Cerro Armazones, são mais de 320 noites de céu claro por ano.

Os trabalhos no local começaram em 2014, mas pela complexidade da obra, pelo difícil acesso e pela natureza inóspita do sítio, foi preciso realizar diversas obras preliminares, como a construção de estradas de acesso, a instalação de redes de energia e terraplanagem - o topo do pico foi aplainado com explosivos. Agora, com a área preparada, a construção do gigantesco domo do E-ELT finalmente teve início.

Graças às suas características, o deserto do Atacama já é repleto de telescópios e radiotelescópios enormes - grande parte deles europeus. Mas nenhum é comparável em grandiosidade ao projeto do E-ELT. Seu espelho primário - o coração dos telescópios - terá 39 metros de diâmetro, uma medida sem precedentes. O Very Large Telescope (VLT), - que fica a 20 quilômetros do Cerro Armazones e é atualmente o maior do mundo -, tem um espelho primário de 8,2 metros. 

O enorme espelho primário do E-ELT será composto de 790 segmentos hexagonais, cada um deles com 1,4 metro de largura e cinco centímetros de espessura. A estrutura do domo, totalmente à prova de terremotos, terá 80 metros de altura e 85 metros de diâmetro-  o equivalente a um campo de futebol. Ele será maior que todos os telescópios ópticos de pesquisa atuais somados.

Com a tecnologia avançada de seus espelhos, o E-ELT captará 13 vezes mais luz que o VLT. Embora seja construído na Terra, o telescópio será capaz de fornecer imagens 16 vezes mais nítidas que o Telescópio Espacial Hubble, graças à sua tecnologia avançada de óptica adaptativa. 

Normalmente, a turbulência da atmosfera da Terra distorce as imagens obtidas pelos instrumentos mais potentes - mesmo os avançados telescópios do ESO no Chile. Essa turbulência faz com que as estrelas cintilem, borrando os detalhes das imagens. É aí que entra a óptica adaptativa. O sofisticado sistema de espelhos, controlado por computadores, se deforma para compensar a distorção, tornando as imagens tão nítidas como as que são feitas a partir do espaço.

Para que a óptica adaptativa seja possível, é preciso encontrar uma estrela muito brilhante, como referência, próxima ao objeto a ser observado. Com essa referência, o telescópio mede o efeito de distorção e o corrige. Como nem sempre há uma estrela brilhante próxima aos objetos que se quer observar, os astrônomos criam uma referência artificial com um ultra-potente raio laser, que chega a 90 quilômetros de altitude, na parte superior da atmosfera. Com essa  "estrela" artificial, os cientistas conseguem resultados excelentes. A mais nova geração de óptica adaptativa está sendo desenvolvida no VLT, sob medida para suprir as necessidades do E-ELT.

O E-ELT é projetado para uma ambiciosa agenda científica. Um dos principais objetivos de pesquisa é a captura de imagens de exoplanetas - que são os planetas existentes fora do Sistema Solar, na órbita de outras estrelas. Embora já se tenha detectado mais de 3 mil exoplanetas, eles são extremamente difíceis de observar. O E-ELT poderá estudar até mesmo suas atmosferas.  

Com seus cinco espelhos, o E-ELT coletará a luz sutil de objetos extremamente distantes. Além disso, terá maior resolução angular: isso significa que ele será capaz de distinguir objetos que estão muito próximos uns dos outros - algo fundamental para localizar exoplanetas na "zona habitável", isto é, que estão na distância certa, em relação à sua estrela, para a existência de água em estado líquido - uma condição necessária para a ocorrência de vida.

O telescópio também servirá para estudar a formação dos sistemas solares e para detectar moléculas orgânicas em planetas em formação. Ele observará, ainda, alguns dos mais distantes objetos do Universo, como as primeiras estrelas, galáxias e buracos negros que se formaram. Outro desafio será desvendar a natureza da matéria escura e da energia escura, que são totalmente desconhecidas para os astrônomos, embora correspondam a mais de 90% de tudo o que existe no Universo.

Novela brasileira. Com custo previsto de cerca de aproximadamente 1,2 bilhão de euros, o projeto do ELT originalmente conta com a participação do Brasil para sua construção e operação. Para ser sócio do consórcio, porém, o País precisa se tornar membro efetivo do ESO, que é composto por 15 nações europeias e pelo Chile, que participa como país sede. O processo de adesão definitiva do Brasil ao ESO, porém, tornou-se uma novela que já se arrasta há sete anos.

Em 2010, o então ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende - que é físico -, assinou um acordo de adesão para a participação do País no ESO. Mas, para que o Brasil se torne membro efetivo, é preciso pagar a taxa de adesão - que naquele ano era calculada em 132 milhões de euros parcelados em 10 anos - além de uma anuidade de 20 milhões de euros. Como a taxa de adesão é proporcional ao PIB de cada país, com a crise econômica, o ESO deu um desconto ao Brasil e a taxa caiu para pouco mais de 100 milhões de euros, segundo o diretor geral do consórcio, Tim de Zeeuw. Mesmo assim, o país não aderiu ao consórcio até hoje.

O ESO previa, no início do processo, que o Brasil efetivasse sua adesão em 2013, contribuindo com cerca de 11% do valor total do projeto. Diversas turbulências internas, porém, atrasaram a adesão. A Casa Civil demorou dois anos para encaminhar o projeto ao Congresso Nacional, que também demorou dois anos e meio para avaliá-lo. 

Os parlamentares aprovaram o projeto em 2015. Mas, com a degradação das condições políticas e econômicas do País, a então presidente Dilma Rousseff nem sancionou, nem vetou o projeto até sofrer o processo de impeachment. Agora, com o governo de Michel Temer definhando, a situação ficou ainda mais incerta. 

"Todos vemos nos jornais que a condição política do Brasil é muito complicada e me parece óbvio que assinar com o ESO não é uma prioridade, o que é compreensível. Acredito, porém, que o Brasil ainda entrará no consórcio, embora vá levar um pouco mais de tempo. Isso será bom para o País, que  tem uma comunidade científica cada vez maior", disse Zeeuw ao Estado

Com o acordo assinado em 2010, os astrônomos brasileiros têm o direito, até hoje, de submeter pedidos de observações nos telescópios do ESO como qualquer outro país-membro. Mas, como o País ainda não pagou coisa alguma, não tem direito de participar das decisões sobre o projeto do E-ELT e as empresas brasileiras não podem concorrer a licitações para a construção. Em maio de 2016, empresas de países membros do ESO assinaram os contratos de construção do domo e da estrutura principal do E-ELT. O Brasil, por não ser ainda membro pleno do consórcio, ficou de fora. 

Diretor científico do ESO, o astrônomo brasileiro Cláudio Melo afirma que, além de um avanço científico inestimável,  a adesão definitiva traria retornos econômicos para o Brasil. "Calculamos que os países-membros têm um retorno de 75% do que pagam para participar do ESO. O Brasil está perdendo uma grande oportunidade. Se tivesse entrado no consórcio em 2010, ou mesmo em 2015, as empresas nacionais certamente já teriam assinado inúmeros contratos", disse Melo.

Segundo Melo, a empresa italiana Astaldi, que ganhou a licitação para a construção do domo do E-ELT, está neste momento escolhendo parceiros entre empresas de todos os países-membros. "Além de faturar com os contratos, essas empresas se envolverão com corporações de todos os países membros, construirão outros projetos, terão transferência de tecnologia. São oportunidades que já estamos perdendo, mesmo que o Brasil assine agora. Ainda assim, vale à pena assinar", disse Melo.

O ESO tem todo o interesse na adesão do Brasil, de acordo com Zeeuw, já que originalmente não havia plano B para completar o orçamento sem os 11% que cabiam ao governo brasileiro. Com todo o atraso, porém, o ESO traçou um plano de contingência. "Se o Brasil entrar, será bom para todos. Mas não dependemos mais do Brasil. Trouxemos a Polônia para o consórcio - um país cuja economia não tem o mesmo tamanho da brasileira e que, portanto, não fará o mesmo investimento , mas cuja adesão nos permitiu iniciar a construção. Estamos negociando agora com Irlanda, Noruega, Hungria e também temos relações com a Austrália. O projeto será concluído de qualquer maneira, com ou sem o Brasil", disse Zeeuw.

O Chile, como país sede, doou ao ESO toda a área onde será construído o E-ELT e concedeu ao consórcio uma área ainda maior, para proteger as futuras operações de qualquer tipo de interferência. Segundo a presidente do país, Michelle Bachelet, o país já é a "capital mundial da astronomia", concentrando três quartos das estruturas de pesquisa astronômica do mundo. 

"Com o início simbólico desse trabalhos, estamos construindo mais que um telescópio: trata-se de uma das maiores expressões da capacidade científica tecnológica e do potencial extraordinário da cooperação internacional", disse Bachelet durante a cerimônia de lançamento da primeira pedra do projeto, na sede do VLT, no Cerro Paranal.

Hoje, participam do ESO Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e Grã-Bretanha. A bandeira do Brasil ainda está fincada no deserto do Atacama. Resta saber até quando.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DE "IMAGEN DE CHILE" E DO "EUROPEAN SOUTHERN OBSERVATORY".

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