Comer para preservar

Apenas 20 plantas respondem por 90% das calorias consumidas pela humanidade

Fernando Reinach *, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2017 | 03h00

Convidei um amigo para comer um baião de dois no Mercado de Pinheiros. Na década de 1980, era lá que comprava galinhas vivas para meus experimentos na Universidade de São Paulo (USP). O comerciante dizia que os compradores gostavam de molho pardo, mas macumbeiros eram os verdadeiros clientes. Eram todas pretas.

Estava pensando nisso quando vi um livro sobre plantas não convencionais usadas como alimento. O lindo calhau de 750 páginas descreve 351 plantas. Espinafre-de-malabar, mariçó-bravo e joá-de-capote. Uma fração das quase 600 plantas utilizadas como alimento no Brasil. Essas, uma fração das 30 mil plantas comestíveis existentes no mundo, 10% das aproximadamente 300 mil espécies conhecidas.

Larguei o livro e fui ver as frutas e verduras vendidas no mercado. Tentei contar. Da alface ao chuchu, não existiam 50 tipos de plantas ali. Contando temperos secos e azeitonas vendidos nos outros boxes, talvez 80. Uma pobreza em termos de biodiversidade. 

O número não espanta: apenas 20 plantas respondem por 90% das calorias consumidas pela humanidade. Todos os vegetais tinham uma placa com nome. 

Será que ainda é preciso ensinar às pessoas que aquele fruto vermelho se chama tomate? No livro o nome, juntamente com fotos e usos, é indispensável. Afinal, que frequentador do Mercado de Pinheiros reconheceria uma corda-de-viola, tão boa com pato ensopado? Quantos já tiveram a oportunidade de passear no mato colhendo forno-d’água?

Os Ju/Wasi me vieram à mente. Eles vivem no Deserto do Kalahari, no sul da África, há 200 mil anos, felizes, caçando e coletando plantas. Não aderiram à agricultura. Consomem 150 diferentes espécies de vegetais. 

Isso em um ambiente desértico onde a biodiversidade não se compara à brasileira. Mais que isso, têm nome para quase 300 espécies, incluindo plantas medicinais, tóxicas e venenosas. 

Enquanto nossos filhos chegam aos 10 anos sabendo ler, escrever e fazer as quatro operações, uma criança Ju/Wasi chega à mesma idade com um conhecimento valioso. Identifica e sabe o nome de cada planta. Sabe quando cada planta produz frutos, folhas e tubérculos, conhece a ordem em que os alimentos estão disponíveis durante o ano, onde as plantas estão localizadas e como preparar as iguarias. São cultos, foram muito bem educados.

Inicialmente se imaginava que as sociedades caçadoras e coletoras vagavam, catando o que surgia à frente, enquanto se deslocavam sem rumo pelo ambiente. Hoje sabemos que elas percebem as enormes dimensões do Kalahari como percebemos uma horta ou pomar. 

Sabem onde estão as plantas, quando produzem e onde devem ir em cada época do ano para conseguir alimento e água. O deserto é a horta comunal que pertence à tribo, um presente da natureza que exploram, preservam e dividem com os outros animais. Daí seu forte senso de propriedade sobre o deserto.

Desde que a maioria das sociedades adotou a agricultura, nossa relação com a floresta mudou. Ela deixou de ser o ambiente que nos pertence, onde vivemos e nos alimentamos. Se tornou um ambiente estranho e hostil, cuja utilidade maior é se transformar em pastos e plantações. Em todos os sentidos, saímos da floresta. Falta de respeito e devastação são consequências.

Quando nos alimentarmos mais dessa biodiversidade, quando uma criança voltar a saber sobreviver solta no mato, nossa espécie talvez tenha uma chance de enxergar a floresta como uma horta abundante. Me parece que precisamos voltar a comer da floresta.

Meu amigo não gostou muito do baião de dois, mas na saída comprei o livro que desencadeou esse devaneio.

MAIS INFORMAÇÕES: PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANC) NO BRASIL, INSTITUTO PLANTARUM, 2017

* É BIÓLOGO

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