Como são datadas nossas memórias

'Cada lembrança está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção'

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2016 | 03h00

Passei vergonha no dia em que soube do assassinato de John Lennon. Ainda iniciando meu doutoramento, dividia o apartamento com Benjamin, um judeu ortodoxo. Era de manhã. Estava no banho quando Benjamin descobriu que na noite anterior eu havia fritado bacon na sua frigideira. Sem graça, abatido pela bronca, caminhei até o laboratório. Lá descobri que enquanto eu fritava bacon Lennon havia sido assassinado. Depois disso, essas duas memórias estão intimamente associadas no meu cérebro. A novidade é que agora os cientistas descobriram a razão.

Faz alguns anos, sabemos que a formação de uma memória ocorre quando um conjunto de neurônios aumenta sua atividade, reforçando a relação entre eles. Se essa atividade for bloqueada, a memória não se forma. Assim, cada memória está associada a um conjunto de neurônios responsável por sua manutenção. O conjunto de neurônios associado a uma memória é chamado de engram. Cada vez que nos lembramos de uma memória é porque seu engram está ativo.

Quando você ensina um camundongo a ter medo de um som, submetendo o bichinho a um choque elétrico cada vez que ouve o som, é possível demonstrar que um grupo específico de neurônios (o engram dessa memória) é ativado. E as relações entre esses neurônios permanecem fortes enquanto a memória persistir. Se você apagar essa memória, tocando o som sem aplicar o choque, a relação entre esses neurônios fica fraca e o engram desaparece.

Nesse novo experimento os cientistas estudaram a relação entre os engrams de duas memórias formadas sequencialmente. Primeiro, o camundongo ouvia um som (somA) e tomava um choque. Depois ouvia outro som (somB) e também tomava choque. Desse modo, eles ficavam com medo dos dois tipos de som (coitados). Os camundongos estavam divididos em quatro grupos, e a diferença entre os grupos era o tempo que separava o somA/choque do somB/choque durante o treino. Em um grupo o tempo que separava o primeiro do segundo estímulo era 1,5 hora; em outro, 6 horas; e nos outros dois grupos, 18 e 24 horas. 

A primeira coisa que os cientistas descobriram é que nos camundongos treinados com intervalos curtos entre os sons A e B (1,5 e 6 horas), quando os cientistas “apagavam” o medo do primeiro som (sem dar o choque), o medo do segundo som também desaparecia. Em outras palavras, se me fizerem esquecer do bacon frito, vou esquecer da morte de Lennon. Mas nos camundongos em que as duas memórias haviam se formado com um intervalo de tempo longo (18 ou 24 horas), quando uma memória era apagada a outra permanecia intacta. Ou seja, se eu tivesse levado a bronca do bacon frito na semana anterior ao assassinato de Lennon, a memória da bronca não estaria associada à morte de Lennon. Esse resultado demonstra que o tempo entre a formação das memórias determina se existe ligação entre elas.

Em seguida, os cientistas estudaram os neurônios ativados por cada uma das duas memórias nos diversos grupos de camundongos (seus engrams). Para isso, eles precisam provocar o medo (som mais choque) e em seguida sacrificar o camundongo e identificar os neurônios que haviam sido ativados. O conjunto de neurônios ativados em cada caso é o engram daquela memória.

Os cientistas descobriram que nos casos em que as memórias haviam se formado com um espaçamento temporal longo (18 e 24 horas) os engrams das duas memórias (medo do som A e medo do som B) eram completamente independentes. Ou seja, os dois engrams não compartilhavam neurônios. Mas no caso dos camundongos em que as memórias haviam sido formadas uma logo após a outra (1,5 e 6 horas) havia uma sobreposição de células entre os dois engrams. Apesar de os engrams serem diferentes, existia um grupo de células que pertencia aos dois engrams.

Essa sobreposição dos engrams explica por que duas memórias ficam associadas em nosso cérebro quando são formadas uma logo depois da outra. Também explica por que a remoção de uma memória leva à perda da outra formada logo em seguida. Como seus engrams têm neurônios em comum, a perda de uma enfraquece a outra.

Esse experimento sugere como o tempo entre memórias é registrado no cérebro. Os engrams de uma memória se sobrepõem ao engram da memória anterior e ao engram da posterior, causando uma cadeia sequencial de engrams que registra o passar do tempo na memória.

Com o envelhecimento, e a perda gradual de neurônios, é de se esperar que a ligação temporal entre as memórias fique mais frágil e é isso que observamos em nossos cérebros ao longo dos anos. Vai chegar um dia em que comer bacon não me fará lembrar da morte de John Lennon. Aí meu colesterol vai subir.

MAIS INFORMAÇÕES: COMPETITION BETWEEN ENGRAMS INFLUENCE FEAR MEMORY FORMATION AND RECALL. SCIENCE VOL. 353 PAG. 383 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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