Cynthia Goldsmith/CDC
Cynthia Goldsmith/CDC

Coquetel impede replicação do zika em testes com macacos

Tratamento criado por brasileiros e americanos deve estar pronto para ser comercializado em larga escala em dois ou três anos

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 20h57

RIO - Cientistas brasileiros e americanos criaram um coquetel com anticorpos monoclonais (produzidos em laboratório) que, em testes com macacos, conseguiram impedir em até 100% a replicação do vírus zika. O coquetel deve estar pronto para ser comercializado em larga escala daqui a dois a três anos, muito provavelmente antes que seja criada uma vacina contra o zika. Os próximos passos serão a administração do coquetel em primatas gestantes e, na fase seguinte, em humanos.

+++ Novo método de microscopia eletrônica leva o Prêmio Nobel de Química

O tratamento foi criado durante pesquisa liderada por cientistas americanos em parceria com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e com a Universidade de São Paulo (USP) e divulgada em artigo publicado nesta quarta-feira, 4, pela revista científica Science Translational Medicine.

"O método é altamente promissor para a prevenção de más-formações congênitas e efeitos adversos em olhos e membros, uma vez que o coquetel de anticorpos monoclonais poderia ser administrado em gestantes e prevenir a infecção do feto", afirmou o imunologista David Watkins, da Universidade de Miami, líder do estudo. 

"O trabalho apresenta um importante passo para o desenvolvimento de uma terapia de ação preventiva contra o zika", completou Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC e também autora do estudo.

Para identificar os anticorpos com maior potencial contra o zika, primeiro foi coletado sangue de um indivíduo na fase aguda da doença. Células produtoras de anticorpos foram identificadas e delas foram extraídos, isolados e purificados 91 anticorpos. Durante testes in vitro foram selecionados os três que apresentaram as mais altas taxas de neutralização do vírus: os anticorpos monoclonais chamados SMZAb1, SMZAb2 e SMZAb5.

+++ Governo quer testar vacina contra zika em humanos dentro de um ano 

Esses anticorpos foram administrados em um grupo de quatro macacos Rhesus. No dia seguinte, os quatro primatas foram inoculados com o vírus zika isolado em 2016, por Myrna e sua equipe, de uma paciente do Rio de Janeiro.

"Para este estudo, utilizamos o vírus que estava circulando no continente e causando uma emergência sanitária internacional. Este fato dá mais precisão aos resultados", afirmou Watkins.

Para comparação, outros quatro animais receberam a inoculação do vírus após a administração de um placebo, com outros anticorpos que não têm ação contra o zika.

Para acompanhar o impacto dos anticorpos durante os testes, amostras de sangue dos primatas foram coletadas aos 2, 3, 7, 14 e 21 dias após a infecção e submetidas à técnica de RT-PCR em tempo real, capaz de detectar e quantificar o material genético do vírus presente nas amostras. Os resultados evidenciaram que os anticorpos monoclonais específicos para zika foram capazes de evitar, em até 100%, a replicação do vírus nos quatro macacos que receberam o coquetel. 

"Enquanto isso, no grupo que recebeu o coquetel placebo, observamos que todos os animais apresentaram alta taxa de infecção por zika."

Os cientistas também aplicaram testes para detectar a ocorrência de moléculas específicas de defesa do corpo, produzidas em contato com algum tipo de microrganismo invasor. Testes sorológicos, aplicados 14 e 21 dias após a infecção, não evidenciaram no grupo que recebeu os anticorpos contra o zika nenhuma resposta específica contra a proteína NS1, produzida em casos de infecção pelo vírus.

"Se a taxa de produção do antígeno NS1 foi nula, é sinal de que o zika não conseguiu se replicar no organismo e invadir as celular dos animais", explicou Myrna. "Este resultado evidencia que o zika foi completamente neutralizado pelo coquetel de anticorpos monoclonais. No campo científico, denominamos isso de proteção esterilizante, isto é, quando a resposta imune bloqueia totalmente a infecção pelo patógeno", completou a imunologista.

Testes adicionais mostraram que os anticorpos monoclonais permaneceram ativos e em altas concentrações por quase seis meses no organismo dos primatas. "O coquetel poderia ser recomendado em casos de surtos da doença a gestantes, profissionais de saúde e demais indivíduos que precisem estar ou ir até as áreas endêmicas", disse Watkins. "Com uma dose única, esses grupos estariam protegidos contra o zika. Para as mulheres grávidas, a administração do coquetel teria um ganho extra, uma vez que poderiam seguir a gestação de modo tranquilo."

Já prevendo uma possível ocorrência de reação adversa do sistema imunológico em caso de infecção por dengue, que é da mesma família do zika, os especialistas realizaram modificações na estrutura genética dos anticorpos por pessoas com histórico de infecção por dengue. A descoberta está com pedido de patente depositado nos Estados Unidos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.