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Correntes elétricas no cérebro são eficazes contra a fibromialgia

Pesquisadores de Harvard e do City College mostraram que o uso do estímulo levou à redução da dor em metade dos pacientes

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2016 | 03h00

RIO  - A aplicação de correntes elétricas contínuas no cérebro se mostrou eficaz para reduzir os efeitos da fibromialgia, doença crônica neurológica que causa dores e afeta 6 milhões de brasileiros. Estudo que reuniu pesquisadores da Universidade de Harvard e do City College of New York mostrou que o uso da Estimulação Craniana por Corrente Contínua de Alta Definição (HD-tDCS, na sigla em inglês) levou à redução de 50% da dor em metade dos pacientes.

Agora, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) selecionam voluntários para a nova etapa do estudo, a fim de traçar a melhor estratégia de tratamento com eletricidade, em parceria com as instituições internacionais. A fibromialgia, que se manifesta em todo o corpo, afeta a forma como as pessoas sentem dor.

"Há perda da capacidade de modular a dor. Uma pressão no braço pode ser interpretada como dor. Uma temperatura mais amena passa a provocar incômodo. Tem relação com quadros depressivos, melancólicos", disse o médico Paulo Renato Fonseca, diretor científico da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (Sbed) e professor da pós-graduação em dor do Instituto Albert Einstein.

Em cada dez pacientes, sete são mulheres. A doença, que afeta pessoas entre 25 e 55 anos, pode ser incapacitante, dificultando atividades cotidianas, como ir ao trabalho e até mesmo sair de casa. O tratamento convencional inclui acompanhamento médico, fisioterápico e a prática de atividades físicas. A nova terapia é uma evolução da Estimulação Craniana por Corrente Contínua (tDCS), que utiliza dois eletrodos para gerar corrente elétrica de baixa potência. O HD-tDCS utiliza cinco eletrodos  um central e quatro periféricos -, instalados na região do córtex motor primário.

"Essa região, quando estimulada, evoca respostas motoras. Mas ela se conecta com o cérebro todo, então também interfere com a percepção da dor", afirmou o neurologista Egas Caparelli-Dáquer, coordenador do Laboratório de Estimulação Elétrica do sistema nervoso (LabEEL) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Uerj.

Os pacientes recebem uma descarga elétrica baixíssima, de apenas 2 miliampères. Uma bateria de nove volts, como a de brinquedos, alimenta o equipamento de HD-tDCS. "O paciente não sente o choque. No primeiro minuto, sente um certo incômodo que descreve como se fosse uma coceira ou uma sensação pinicante", disse a fisioterapeuta Ana Heloísa de Medeiros, pesquisadora do LabEEL.

A partir do primeiro minuto, a sensação cessa. O paciente fica acordado, não precisa de sedação. O protocolo inicial da pesquisa prevê cinco sessões semanais, de 20 minutos cada, por cinco semanas.

"Estamos desenvolvendo a rotina do tratamento. O protocolo clínico ainda não foi estabelecido. A redução do desconforto da dor é evidente. Metade dos pacientes reportaram redução da dor de grau 7 a 8 para 3 a 4, numa escala que vai de 0 a 10, em que zero é dor nenhuma e 10 a pior dor que a pessoa puder imaginar", explicou Dáquer.

O estudo se encaminha para entrar na fase 3. A segurança foi atestada com um pequeno número de pacientes na fase 1. A eficácia foi demonstrada na fase 2, com número um pouco maior de voluntários. Na terceira fase, o estudo é ampliado para um grande número de pacientes. Para isso, o LabEEL está recrutando voluntários. 

Serviço. Para participar da pesquisa, o candidato precisa ter fibromialgia diagnosticada e não pode ter outras doenças ortopédicas que possam confundir os sintomas de dor. Pessoas com implantes metálicos, como marca-passo, e que sofra de crises convulsivas, como as provocadas por epilepsia, também não podem participar. As inscrições podem ser feitas pelo email labeel.uerj@gmail.com ou pelo telefone 21-2868-8427, entre 8 horas e 14 horas.

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