Marinha do Brasil
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Crise ameaça pesquisa do País na Antártida

Após incêndio destruir estação científica no local em 2012, Brasil corre risco de abrir nova unidade no próximo ano sem verba para equipamentos ou pesquisadores; estudos no continente gelado envolvem biotecnologia e análise de fenômenos climáticos

Herton Escobar, Impresso

23 Março 2018 | 07h16

Depois do incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz em 2012, o Brasil corre o risco de inaugurar sua nova base no continente gelado sem nenhum cientista dentro. Pesquisadores alertam que o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) está “gravemente ameaçado de interrupção” por falta de recursos e pode não sobreviver após 2019 – justamente quando deverá ser concluída a nova estação, de US$ 100 milhões (o equivalente a cerca de R$ 330 milhões).

“Infelizmente não há recursos financeiros para compra de equipamentos científicos da estação e, mais grave, para o financiamento de projetos científicos e bolsas de estudos”, diz uma carta assinada por 17 lideranças científicas do programa, enviada na semana passada ao ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, e ao comandante da Marinha do Brasil, Eduardo Ferreira.

Criado em 1982, o Proantar atende a um misto de necessidades científicas e geopolíticas. O Tratado da Antártida, ao qual o Brasil aderiu em 1975, exige a realização de “substancial atividade de pesquisa científica” para que o País mantenha seu direito de voto nas deliberações sobre o uso do continente.

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“Não basta a presença militar, tem de haver ciência”, diz o glaciologista Jefferson Cardia Simões, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e vice-presidente do Comitê Científico para Pesquisas Antárticas (Scar, na sigla em inglês). As pesquisas nacionais no continente abrangem vários temas, como a prospecção de microrganismos para aplicações biotecnológicas e o estudo de fenômenos oceânicos e atmosféricos que afetam diretamente o clima do Brasil.

O último edital federal dedicado à pesquisa antártica foi lançado em 2013, no valor de R$ 14 milhões, para financiar 19 projetos por três anos – dinheiro liberado com três anos de atraso e já esgotado, segundo os cientistas. Um dos Institutos Nacionais de Ciência Tecnologia (INCTs) dedicados à Antártida encerrou suas atividades neste mês e o outro, chamado INCT da Criosfera, foi renovado até 2022, mas só tem recursos para mais uma operação antártica.

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Apelo. “Rogamos a vossas excelências que sejam estudadas ações emergenciais para darmos continuidade às pesquisas científicas na Antártida e não tenhamos a situação insólita de uma casa antártica sem cientistas”, conclui a carta, obtida com exclusividade pelo

Estado. “Casa vazia não faz ciência”, resume Simões. O resultado, diz, pode ser uma estação científica com alma do Mané Garrincha, em Brasília: um estádio de futebol sem futebol, bonito por fora e vazio por dentro. Segundo ele, “a ciência não pode pagar a conta” de uma estação com finalidades mais geopolíticas do que científicas.

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