Max Rossi/Reuters
Max Rossi/Reuters

D. Cláudio Hummes: 'Não lembro o que aconteceu no conclave'

Cardeal brasileiro visto como principal articulador da vitória de Bergoglio não desmente sua atuação como 'cabo eleitoral'

José Maria Mayrink, enviado especial de O Estado de S.Paulo

16 Março 2013 | 00h01

VATICANO - Prefeito emérito da Congregação para o Clero e arcebispo emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes não confirma nem desmente a história de que o convite para estar ao lado de Francisco no balcão da Basílica de São Pedro teria sido porque coordenou a escolha de Bergoglio. "Não me lembro mais do que aconteceu no conclave".

Em entrevista ao Estado, o cardeal brasileiro defendeu o papa das acusações de ter apoiado a ditadura na Argentina, disse que ele trará um tempo novo para a Igreja e elogiou a dedicação que tem com os pobres.

Por que o senhor estava ao lado do papa Francisco quando ele se apresentou ao povo?

Ele me convidou. Foi uma coisa muito espontânea. Somos conhecidos há muito tempo. Trabalhamos dias juntos na 5.ª Conferência de Aparecida (maio de 2007). A gente participou também no outro conclave (2005).

Tem-se dito que Francisco o convidou porque o senhor foi um articulador da eleição dele...

Do que aconteceu dentro do conclave eu não me lembro mais. Não posso comentar. Não posso dizer nada sobre isso.

Os críticos também dizem que Bergoglio apoiou a ditadura militar argentina...

Tenho certeza de que é uma acusação falsa. Não existe nenhuma prova consistente. Ele sempre foi um homem do povo.

O nome Francisco teve alguma influência do franciscano Cláudio Hummes?

Teve a influência de São Francisco. Esse Francisco nasceu nas periferias de Buenos Aires. É ali que esse papa se dedica a esses pobres, defende-os, dá a sua vida por eles. Temos agora um jesuíta que é Francisco. É realmente um programa de vida. A escolha do nome fala mais que muitos documentos. O bonito é que a opinião pública entendeu a mensagem.

O papa fala português?

Sim, como falamos portunhol.

O papa confirmou sua ida à Jornada Mundial da Juventude?

Disseram-me que sim, mas deve ser confirmado formalmente.

O senhor vai voltar para Roma?

Não tenho nenhuma perspectiva. Já sou emérito. A idade diz tudo. Vou voltar ao Brasil no dia 22 e continuar meu trabalho na Amazônia e em São Paulo. Sou presidente da Comissão de Bispos para a Amazônia, que mostra a solidariedade das outras dioceses do Brasil, sobretudo enviando missionários.

Mas o papa pode chamá-lo para assumir uma função em Roma.

Estou à disposição. Qualquer bispo, de qualquer idade, deve estar. Mas, o normal, é continuarmos eméritos e pronto.

O senhor foi ou vai visitar Bento XVI em Castelgandolfo?

Não tive a oportunidade. Mas todos os cardeais gostaríamos de encontrá-lo. Deverá surgir uma oportunidade para isso.

Foi uma surpresa a vitória do cardeal Bergoglio?

Foi uma grande surpresa, que abre portas novas. Acredito que teremos um novo tempo para a Igreja. São tempos difíceis, mas ele tem a força. Deus lhe dá essa força e iluminação. Deus dá o carisma para quem foi eleito.

Em sua opinião, o que tem de ser feito?

A reforma da Cúria, que vai levar tempo e exigir esforço. Mas o papa é um homem muito misericordioso, além de ser um homem determinado e independente, que não se deixa levar por pressões internas.

Na Conferência de Aparecida, o senhor afirmou que era preciso reconquistar os batizados que abandonaram a Igreja...

Isso está muito claro também para o papa Francisco. É a questão da nova evangelização. O então cardeal Bergoglio foi um dos que ajudaram muito na formulação do texto, que Bento XVI apoiou.

A Igreja também quer reconquistar aqueles que se mudaram para comunidades evangélicas?

Pensamos primeiro nos católicos, mas também em todos os outros. Não só naqueles que saíram para outras igrejas, mas em todos. Jesus Cristo nos enviou a todos e a vontade Dele é que todos façam parte de seu povo.

Quando se diz que este papa é um pastor, significa que vá mudar pontos hoje em discussão, como o aborto e a segunda união de casais divorciados?

A fé será sempre a mesma. Quanto a essas questões, o papa vai enfrentar e nos orientar. Ele dará a palavra final. Esse papa quer ouvir muito, é uma grande esperança de que se possa abrir novas formas de viver a diversidade dentro da Igreja.

Parecia haver grupos fortes no conclave, como os que apoiavam Angelo Scola (de Milão) ou Odilo Scherer (de São Paulo). O fato de Bergoglio ter sido o eleito foi uma intervenção do Espírito Santo?

Há um auxílio, mas temos de estar abertos. Porque podemos não querer escutá-lo ou ter outros interesses, já que somos humanos e pecadores. Nossos limites podem nos atrapalhar no discernimento. Entramos no conclave em busca do discernimento, de saber quem seria o homem ideal para guiar a Igreja nessa hora. Faz-se uma eleição livre, pois Deus não manda bilhetinho. Nós elegemos o papa e Deus o unge com sua graça, com sua iluminação.

No conclave, um cardeal pode falar em quem está votando, embora o voto seja secreto?

Conversamos. E temos de conversar. Dizer em quem vai votar é importante, porque temos de nos iluminar uns aos outros. Essa conversa, que a gente faz já nas congregações, continua dentro do conclave. São importantes para se fazer um discernimento em conjunto que depois se expressa no voto.

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