ESA/AP
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Dados da nave Rosetta fornecem retrato mais detalhado até hoje sobre um cometa

Em sete artigos publicados na revista Science, cientistas revelam que cometa onde robô pousou em novembro tem superfície escura, atividade complexa e núcleo "fofo"

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2015 | 20h31

- Diversas equipes de cientistas publicaram hoje, na revista Science, sete artigos que fornecem o retrato mais detalhado e preciso já produzido sobre um cometa. Verdadeiras "cápsulas do tempo", os cometas contêm matéria primitiva remanescente da época de formação dos planetas - por isso os cientistas acreditam que compreendê-los pode ser um caminho para desvendar a origem do Sistema Solar e da vida.

A sonda Rosetta, da Agência Espacial Europeia (ESA), fez história em novembro de 2014 quando seu módulo de pouso, o robô Philae, tornou-se o primeiro artefato feito pelo homem a descer na superfície de um cometa - o 67P/Tchourioumov-Guérassimenko - a 510 milhões de quilômetros da Terra.

A análise da enorme quantidade de dados enviados pela Rosetta - que está agora orbitando o 67P a apenas 10 quilômetros de distância - revelou detalhes sem precedentes sobre o objeto espacial: pouquíssima presença de água, uma superfície com diversos processos ativos e altamente complexos e um núcleo poroso e "fofo", cujo formato varia intensamente e é recoberto por uma camada rica em materiais orgânicos.

De acordo com Matt Taylor, da ESA, o uso de sondas espaciais para analisar cometas começou na década de 80, mas, embora conseguissem resultados melhores que os telescópios, elas faziam um sobrevoo rápido, fornecendo "um olhar de relance" sobre o núcleo e a cauda. "Com seu posicionamento único, a Rosetta nos ajudará a compreender esses corpos celestes primitivos e já nos revelou um objeto fascinante e incomum", afirmou Taylor em um editorial na Science.

Série temporal. O estudo do cometa, no entanto, não ficarão limitados à descrição completa do formato, da morfologia da superfície, da composição e das propriedades do núcleo, segundo Taylor. A Rosetta continuará em sua órbita em torno do 67P até agosto, quando ele chegará ao periélio - a máxima aproximação do Sol. Até lá, a sonda e o módulo Philae - o robô pousado no 67P - continuarão enviando dados, que permitirão descrever o cometa ao longo do tempo, medindo a evolução de seu núcleo e cauda em relação à posição inicial.

Michael Hearn, astrônomo da Universidade de Maryland (Estados Unidos), afirma que a análise ao longo do tempo permitirá entender como os cometas se formam, como suas superfícies evoluem e prever qual seu tempo de vida. "Essa série temporal é o que diferencia a Rosetta de outras missões", disse.

Os cientistas, em um dos artigos descreve o 67P como um objeto com a forma aproximada de "um pato de borracha", consistindo em duas partes de tamanho diferente, ligadas por um "pescoço" mais fino. Com a análise dos dados, os pesquisadores descobriram que a maior parte da atividade de liberação de gases do cometa ocorre no pescoço, onde foram detectados jatos de gás e detritos. Segundo eles, isso significa que o 67P pode ter se formado a partir da combinação de dois corpos menores, ou pode ter sido originalmente um única peça grande, que perdeu volume no meio.

Superfície e núcleo. Um dos artigos descreve em detalhes a superfície da parte do 67P que é visível para a Rosetta - a nave até agora só teve acesso à região que está atualmente voltada para o Sol. De acordo com os autores, o cometa é duas vezes mais escuro que o carvão, com uma grossa camada de poeira envolvendo sua superfície. Segundo o artigo, o estudo da região visível - especialmente das áreas de sublimação de gases, onde se encontram fendas na camada de poeira - poderá ajudar a descobrir como o formato do cometa muda ao longo do tempo e onde pode haver depósitos maiores de água e gelo.

Quando mais o cometa se aproxima do Sol, maior é a atividade em sua superfície, mas durante as primeiras análises os cientistas já notaram uma intensificação da atividade, com "jatos brotando de todos os lados", segundo um dos autores, Dennis Bodewits, da Universidade de Maryland. "Ficamos surpresos com tanta atividade", afirmou.

Com base em estudos anteriores sobre cometas, os cientistas esperavam que a superfície do 67P tivesse a presença de moléculas relativamente complexas como álcoois e ácidos carboxílicos. Mas um dos artigos revela que ela é dominada por hidrocarbonetos de estrutura bem mais simples. A descoberta, segundo os autores, pode ajudar a entender como as moléculas orgânicas (com base em carbono) se desenvolveram e se espalharam pelo Sistema Solar.

Em um artigo sobre o núcleo do 67P - a parte sólida do cometa, feita de poeira, rocha e gás congelado -, os pesquisadores o descrevem como um material mais poroso e "fofo" do que se imaginava, com a densidade aproximada da cortiça. Segundo os autores, o achado também ajudará a mudar alguns modelos de formação de cometas amplamente difundidos.

Atmosfera. Os cientistas, em um dos artigos, estudaram a "coma" do 67P, uma espessa nuvem de poeira e gás, que cresce ao redor do núcleo como uma amosfera, à medida que o cometa se aproxima do Sol, fazendo-o esquentar e perder matéria. "Como os cometas têm muito pouca gravidade, a poeira e o gás fluem livremente no espaço. Mas ficamos surpresos ao encontrar, orbitando o cometa, uma nuvem de partículas grande e pesada o suficiente para desafiar a pressão da radiação solar", disse Bodewits.

Os estudos também mostraram que a atmosfera do 67P é bem menos homogênea que o esperado, com emissões de gás variando consideravelmente ao longo do tempo. Em alguns momentos, foram observados picos de emissão de água e, em outros, de dióxido de carbono. Segundo os pesquisadores, o artigo deverá mudar a maneira como se concebe a formação dos cometas. Em observações anteriores, feitas com telescópios, as imagens sugeriam que a atmosfera dos cometas fosse uniforme, sem variações em curtos períodos de horas ou dias.

De acordo com a autora principal do artigo sobre a atmosfera do 67P, Myrtha Hässig, as flutuações na composição da atomsfera do cometa também foram uma grande surpresa. "No momento em que vi esse comportamento, pensei que algo tinha saído errado, mas depois de uma tripla checagem dos dados, acreditamos que o 67P tem uma relação complexa entre seu núcleo e sua atmosfera, com variações sazonais possivelmente provocadas pelas diferenças de temperatura logo abaixo da superfície do cometa", disse. 

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